O Coletivo Cinefusão surge, no final de 2008, a partir da iniciativa de trabalhadores de diversas áreas - cinema, jornalismo, publicidade, artes cênicas, filosofia, arquitetura, fotografia -, empenhados em criar primeiramente uma rede colaborativa que pudesse dar conta da junção dessas linguagens e também da possibilidade de abarcar potencialidades em busca de produção artística independente, mas também de reflexões concretas acerca da sociedade. É principalmente sobre este último pilar de atuação política, que o grupo vem, atualmente, pensando o cinema, sempre vinculado a outras expressões artísticas e movimentos sociais.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Tendler & Gullar: há muitas Noites na Noite

Texto emprestado da escritora e amiga Risomar Fasanaro

À porta do café um garçom nos recebe. É um belo rapaz. Encaminha-nos a uma mesa e nos entrega um cardápio e quando o abrimos nos damos conta de que ali não encontraremos nem pão nem café, nem croissants, nem cappuccino, mas sim poesia. A turva mão do sopro contra o muro nos espreita em um trabalho único do cineasta Sílvio Tendler sobre “Poema Sujo” de Ferreira Gullar. É a exposição “Há muitas Noites na Noite”.

Ali o alimento é para a alma, e ela naquela tarde estava deserta, testemunhando a violência que se abatera sobre o Rio de Janeiro. Mas nada disso se percebe voando a cidade a 900 quilômetros por hora. Quantas tardes numa tarde é possível viver? Pergunto-me enquanto escolho um dos “pratos”. E me decido por começar vendouvindo Letícia Sabatella:
.......................................
Quantas tardes numa tarde!
E era outra, fresca,
Debaixo das árvores boas a tarde
Na praia do Jenipapeiro
...................................... 
Viajo, já não estou no café, não estou no Rio. Estou em Pernambuco, mergulho em minha infância, e desperto com a voz de minha mãe cantando:
“ Lá vai o trem com o menino
lá vai a vida a rodar
lá vai ciranda e destino
cidade e noite a girar
lá vai o trem sem destino...”

Mas é apenas um delírio. A voz é de Letícia que canta com aquela suavidade que é só dela. Com uma emoção que a leva às lágrimas. Sim, há muitas tardes numa tarde, é preciso não deixar escapar nenhum fio desse dia, nenhum fio dessa viagem no trem da infância de Gullar que jorra em forma de luz e poesia projetadas nas paredes, nas mesinhas do café. Em uma das paredes, grafites retratam personagens do livro, enquanto outras exibem imagens sem sons, de atores e cantores que declamam ou cantam os poemas. Entre os cantores, Bethânia, Fagner e Zeca Baleiro. Tenho a impressão de que nunca antes neste país a poesia foi levada ao público com tanto cuidado, tamanho carinho, e me sinto agradecida por estar viva para ver esta exposição.

Mas...Por que um café? Sílvio explica: bar é o ponto de encontro, ruído, burburinho. Aqui o assunto gira em torno dos versos da poesia de Gullar. Encontro com vozes conhecidas, outras nem tanto, todas encantadoras. Palavras mágicas, fortes. Nesse café, o sal e o açúcar emanam de versos que não fazem mal a hipertensos ou diabéticos. Doces ou ásperas, são as palavras que movem os sentidos e ora nos conduzem à filosofia, ora à saudade, ora à compaixão.

Sílvio é esse peixe que navega contra a corrente; que enquanto outros fazem filmes sobre violência, ele escolhe a poesia como tema do seu trabalho. Mais do que isso: elege “Poema Sujo”, de Ferreira Gullar, o poeta mais polêmico da atualidade. E à minha pergunta do por que nadar contra a corrente, ele me diz: é
esta a função do artista, sacudir as estruturas, ser piracema para que seus filhos nasçam. Só me resta dizer: Amém!

Mas visitar a exposição uma vez só não nos satisfaz, e no dia seguinte voltamos Cira, Isa Mara Lando, também poeta, e Samuel, para nos embriagar com aqueles poemas. Agora um círculo se forma. Os atores passam com um prato de poemas impressos, e nos servem. Cada um tira um, e é convidado a ler, a também
embriagar a alma com aquele vinho. Carla Stank bailarina e atriz dança no centro do círculo, e os atores Aline de Luna, Amauri Lorenz, e Alexandre Braga, que nos recebeu no dia anterior fazem parte das leituras. Além de nós, estão presentes algumas estrelas de primeira grandeza: Ana de Holanda, Jards Macalé e o próprio Silvio.

Nenhuma homenagem aos 80 anos do autor do Poema Sujo me parece ter sido mais original, mais justa, mais significativa. Em um país de tão grandes poetas, me arrisco a dizer que entre as obras poéticas mais importantes estão o Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meirelles, Morte e Vida Severina, de João Cabral, e este “Poema Sujo” de Gullar, que Vinícius considerava a maior de todas. Sílvio escolheu essa forma inovadora que vem de encontro ao universo de hoje. E o sucesso está sendo tão grande, que a exposição foi prorrogada até dia 30. Se você mora no Rio, ou está passando por lá, não deixe de ir. E siga o conselho do expositor: consuma sem moderação! Você sabe, a arte existe porque a vida não basta.
 
O endereço é Visconde de Pirajá, 54, 2º andar. – Espaço Oi futura.


*Risomar Fasanaro é Jornalista, professora de Literatura Brasileira e Portuguesa e escritora, autora de “Eu: primeira pessoa, singular”, obra vencedora do Prêmio Teresa Martin de Literatura em júri composto por Ignácio de Loyola Brandão, Deonísio da Silva e José Louzeiro. Militante contra a última ditadura militar no Brasil.

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