O Coletivo Cinefusão surge, no final de 2008, a partir da iniciativa de trabalhadores de diversas áreas - cinema, jornalismo, publicidade, artes cênicas, filosofia, arquitetura, fotografia -, empenhados em criar primeiramente uma rede colaborativa que pudesse dar conta da junção dessas linguagens e também da possibilidade de abarcar potencialidades em busca de produção artística independente, mas também de reflexões concretas acerca da sociedade. É principalmente sobre este último pilar de atuação política, que o grupo vem, atualmente, pensando o cinema, sempre vinculado a outras expressões artísticas e movimentos sociais.

domingo, 29 de setembro de 2013

CINECLUBE CINEMA EM REVISTA


O Coletivo Cinefusão, em parceria com a Cia Antropofágica, convida para a estreia do "Cineclube Cinema em Revista", que terá início com o "Ciclo Cinema-Greve". Na primeira sessão, exibiremos três curtas: "Greve de Março" (de Renato Tapajós), "Rapsódia para um Homem Comum" (de Camilo Cavalcante) e "Dias de Greve" (do parceiro Adirley Queirós). A sessão é gratuita e ocorre a partir das 18h01, no Espaço Pyndorama (Rua Turiassú, 481), sempre no último domingo do mês. 

A representação do trabalhador no cinema remonta à primeira exibição pública, ocorrida em 1895, na qual foi exibido “A Saída da Fábrica Lumière em Lyon”. De lá para cá, os filmes não só se converteram em entretenimento, como também abriram possibilidade para uma perspectiva crítica. Com isso, o ciclo “Cinema-Greve” que propomos pretende resgatar, em primeiro lugar, o espaço de debate característico das experiências cineclubistas, além do prazer estético e experiência coletiva de assistir a um filme. Num primeiro momento, tratar do tema greve pode parecer simplista ou até mesmo uma obviedade. No entanto, é imprescindível entender inclusive como o capitalismo assimilou e incluiu em seu vocabulário cotidiano o termo greve. Greve de fome, greve de sexo, na tentativa de desarticular um instrumento da classe trabalhadora para combater aqueles que detêm os meios de produção. 
 
O evento no facebook está no link https://www.facebook.com/events/148998075307659/?ref=ts&fref=ts

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Violência, língua e literatura


Não há na violência
que a linguagem imita
algo da violência
propriamente dita?

(Cacaso)




Num belo trecho, Lev Davidovich tenta explicar a beleza da língua francesa do seguinte modo:

"A língua francesa, tão bela, tão acabada em suas formas, e cuja polidura herdou, por certo, alguma coisa de um instrumento tão acerado como a guilhotina, será novamente precipitada, por efeito da dialética histórica, num profundo cadinho, para uma refundação a alta temperatura. Sem nada perder de sua lógica perfeita, adquirirá maior maleabilidade. A revolução da linguagem exprimirá uma nova revolução no domínio das ideias. Esta, por sua vez, não se dissocia de uma revolução no domínio das coisas".

Assim, a “dialética intrínseca” (outra expressão de Lev Davidovich) dos processos históricos determina as possibilidades formais de uma língua. A revolução burguesa, na França, com suas guilhotinas, “acerou” o gume da língua francesa. Vale citar, nesse sentido, aquele que talvez seja o maior romancista francês do século XIX:

Terminarei com a pena aquilo que Napoleão iniciou com a espada”. (Balzac)

Claro, a obra literária não possui um décimo do poder político de Napoleão, e seu exército. Não é disso que se trata. É um mergulho, através da criação, nas profundezas sociais que, de algum modo, foram sedimentadas pela ação militar do Imperador. Devemos considerar, também, uma leve ironia nas palavras de Balzac: os grandes artistas recebem a herança da ação dos homens, e é com esta herança que devem contar, encarando-a de frente - muitas vezes, inclusive, de costas para o futuro. Basicamente, Lev Davidovich não diz outra coisa. Assim, a pretensão de Balzac ultrapassa a si mesma. O elogio aparente de Napoleão, por sua vez, é uma isca para tolos – no caso, seus leitores, a própria burguesia francesa. 

É notável a agudeza da observação: num simples comentário, Lev Davidovich remete às conclusões mais avançadas do marxismo aplicado aos estudos linguísticos, fazendo lembrar imediatamente a obra de Mikhail Bakhtin – a qual, certamente, não havia lido, por motivos óbvios (Bakhtin foi caçado pelo stalinismo...). Apesar da brevidade do trecho, o modo de formular o problema não reduz a complexidade do fenômeno. Pelo contrário: utiliza poucas linhas para sugerir a riqueza de relações entre luta de classes e desenvolvimento linguístico.

A guilhotina dos jacobinos “acerou” a língua francesa, acompanhando mudanças ocorridas em todos os domínios da vida social – que tanto interessava a Balzac -, e, principalmente, enquanto durou a rápida ascensão da burguesia, logo interrompida pela insurgência grandiosa do movimento operário (1848). Daí em diante, não só o idioma, mas a própria literatura européia entra em franco declínio, de um modo geral – crise do romance realista, entre outros.

Para além do caso específico da França, há outros, em que a violência intrínseca à vida social, de algum modo, influi decisivamente na literatura. Por mais que acentuemos a face lírica em Guimarães Rosa, por exemplo, é evidente como a ausência de lei na vida sertaneja comparece em sua prosa, na própria reinvenção constante da linguagem. O sertão é o lugar do susto: as leis são feitas e desfeitas a cada passo, conforme o desejo do mais forte. Assim é que, igualmente, na prosa do autor, o leitor é "assaltado", a cada passo um susto. Um lampejo. Uma nova ordem "cósmica" se instala, para desaparecer na sequência - só que, ao invés do risco de tomarmos uma facada, um tiro, ou nada, somos agraciados com o poder da invenção - que renova-se a si mesmo.

Voltando. Na Rússia (Lev Davidovich era russo), o passado também deixou cicatrizes no idioma. Porém, nesse caso, é a boçalidade e a grosseria, que se comunicam profundamente à estrutura mesma da língua. Seria ingenuidade, ou má-fé, imaginar que a luta de classes esteja ausente no processo histórico pelo qual estrutura-se uma língua, em determinado país. Pelo contrário, conforme demonstra Bakhtin, a luta de classes é surpreendentemente um meio eficaz de explicar a engrenagem completa de um idioma. 

Parece que, de algum modo, as regras básicas do idioma – sobretudo as regras vivas da língua oral – guardam em si uma espécie de propensão natural à violência. Praticamente escorregam da língua, por assim dizer, expressões grosseiras e brutais. Mas será que se trata apenas de aparência? Será exagero? De fato, talvez seja apenas um enorme poder de síntese - refiro-me ao enorme poder de síntese da brutalidade verbal - num meio que, afinal de contas, é dominado pela brutalidade social.

No entanto, a primeira revolução proletária da História ocorreu na Rússia, país atrasado. O que isso tem haver? É que, do mesmo modo, a literatura russa atingiu níveis altíssimos de expressão - apesar da brutalidade. Níveis inesperados, talvez, como a própria revolução. Mas, será mesmo "apesar" do atraso? Basta lembrar da grosseria de Fiódor, pai dos irmãos Karamazov. Ou, então, a violência abstrata do conto O Nariz, de Gógol, em que o major Kovaliov, ao se olhar no espelho depara-se com a ausência do próprio nariz, num "lugar perfeitamente raso" (até mesmo a descrição do que seria, mais simplesmente, um "buraco", é totalmente enviesada, obscura, e, portanto, violenta: afinal, o que seria, em lugar do nariz, um "lugar perfeitamente raso"?). 

Como dizíamos, a literatura russa atingiu níveis altíssimos de expressão - "apesar" do atraso. Como isso é possível? Assim perguntavam os críticos da burguesia, do mesmo modo que a social-democracia alemã (e atual) teve de engolir a Revolução de Outubro, sem jamais entendê-la completamente. Entretanto, não será justamente o atraso, aparecendo como obstáculo à criação, que, "superado", converte-se no que há de mais avançado na época? Superando, inclusive, ou adiantando-se, ao “modelo de lá” - “mais avançado.” Dostoievski é o grande exemplo, talvez, na Rússia (e Machado de Assim, entre nós, deveria, talvez, ser mais... exemplar). Ler bem Machado, é deixar que ele nos leia.

Para encerrar, voltemos a nosso autor, Lev Davidovich. Ele diz, noutra ocasião:

"A grosseria de linguagem - em particular, a grosseria russa - é uma herança da servidão, da humilhação e do desprezo pela dignidade humana. Seria necessário perguntar aos linguistas e aos folcloristas se noutros países verifica-se uma grosseria tão desenfreada, tão repugnante, como entre nós".

Certamente, Davidovich não conhecia o Brasil. Mas, claro, é compreensível sua revolta. De passagem, para terminarmos, vale a pena citar mais um bocadinho suas palavras, verdadeiramente reveladoras de alguns traços da nossa miséria atual: "Mas, nas camadas populares, a grosseria exprime o desespero, a irritação e, acima de tudo, uma situação sem esperança e sem saída". 

Como pensar, nesse sentido, o funk? É comum a depreciação. Nota-se uma reação violenta, muitas vezes, em relação a um "gênero" musical que, em todo caso, está largamente difundido entre as camadas miseráveis da população - sobretudo nos grandes centros urbanos. De fato, dificilmente se verá, como no funk, tamanha brutalização da linguagem. No entanto, é preciso notar como a reação dos delicados, quase sempre, é tão ou mais violenta que o próprio funk. Sobretudo porque, disfarçada de bom gosto (que quase sempre nunca é tanto...), o que se insinua é um forte preconceito de classe, o velho racismo de sempre. Impulso proto-fascista de higienização "cultural" (que, no entanto, tem o "corpo negro" alheio como alvo). 

Ora, se Lev Davidovich estiver certo, então, ao contrário do que diz a classe-média, é o desespero e a falta de esperança que explica a brutalização da linguagem, no funk, e não um simples "mau gosto". Quer dizer, se o desespero for real, os "funkeiros" talvez sofram muito mais com a vida que levam, do que a classe-média, obrigada a "tolerá-los". 


segunda-feira, 23 de setembro de 2013

O Soldado de La Ciotat (Bertold Brecht)

Depois da primeira guerra mundial, vimos na pequena cidade portuária de La Ciotat, no sul da França, junto a uma feira realizada para celebrar o lançamento à água de um navio, em uma praça pública, a estátua em bronze de um soldado do exército francês, ao redor da qual se aglomerava a multidão. Nós nos aproximamos e descobrimos se tratar de um homem vivo que estava ali de pé, imóvel, vestindo um capote marrom-terra, o capacete de aço na cabeça, uma baioneta nos braços, sob o sol quente de junho, sobre um pedestal de pedra. O rosto e as mãos dele tinham sido pintados de uma cor bronze. Ele não mexia nenhum músculo, nem mesmo pestanejava. A seus pés, junto ao pedestal, apoiava-se um pedaço de papelão, sobre o qual podia-se ler o seguinte texto: 

O Homem Estátua 
(Homme Statue)

Eu, Charles Louis Franchard, soldado do ...° Regimento, adquiri, como consequência de ter sido enterrado vivo em Verdun, a invulgar capacidade de permanecer totalmente imóvel e de comportar-me, durante o tempo que for desejado, como uma estátua. Essa minha habilidade foi investigada por muitos docentes e descrita como uma doença inexplicável. Por favor, faça uma pequena caridade a um pai de família sem trabalho! 

Nós jogamos uma moeda no prato que estava ao lado desse cartaz e, a balançar a cabeça, continuamos caminhando.

Eis que, pensamos nós, aqui está ele, armado até os dentes, o soldado indestrutível de muitos milênios, ele, com o qual se fez história, ele, que tornou possíveis todos esses grandes feitos de Alexandre, César, Napoleão sobre os quais lemos nos livros didáticos. Isso é ele. Não pestaneja. Esse é o arqueiro de Ciro, o condutor de bigas de Cambises, que a areia do deserto não conseguiu enterrar por definitivo, o legionário de César, o lanceiro de Gengis Khan, o membro da Guarda Suíça de Luís XIV, e o granadeiro de Napoleão I. Possui a capacidade, no fim das contas nem tão rara assim, de passar desapercebido quando todas as ferramentas de destruição imagináveis são testadas nele. Ele permaneceria como uma pedra, impassível (diz ele), quando enviado para a morte. Varado por lanças das mais diferentes épocas, de pedra, de bronze, de ferro, abalroado por veículos de guerra, os de Artaxerxes e os do general Ludendorff, pisoteado pelos elefantes de Aníbal e pelos cavaleiros de Átila, destroçado por pedaços de metal volantes das cada vez mais perfeitas peças de artilharia de séculos a fio, mas também pelas pedras volantes das catapultas, dilacerado por balas, grandes como ovos de pomba e pequenas como abelhas, ele continua de pé, indestrutível, de novo e de novo, a receber ordens em diversas línguas, mas sempre ignorando por quê e para que. As terras por ele conquistadas, não coube a ele possuí-las, da mesma forma como o pedreiro não mora na casa que construiu. Tampouco lhe pertencia a terra que defendeu. Nem mesmo sua arma ou seus equipamentos lhe pertencem. Mas continua de pé, sobre ele a chuva mortal dos aviões e o betume ardente das muralhas da cidade, sob ele minas e armadilhas, ao redor dele peste e gás mostarda, isca de carne e osso para lanças e flechas, ponto de mira, lama de tanques, fogareiro a gás, diante dele o inimigo, atrás dele o general! 

Incontáveis as mãos que lhe costuraram o gibão, lhe martelaram o arnês, lhe talharam as botas! Incontáveis os bolsos que se encheram por meio dele! Incomensurável o brado em todas as línguas do mundo que o encorajou! Nenhum deus que a ele não abençoasse! A ele que está acometido da terrível lepra da paciência, tornado oco pela incurável doença da impassibilidade!

Que tipo de enterro, imaginamos nós, é esse a que ele deve essa doença, essa terrível, monstruosa, tão contagiosa doença? 

Ela não deveria ser curável?

domingo, 22 de setembro de 2013

"Experiência" (Walter Benjamin)


Travamos nossa luta por responsabilidade contra um ser mascarado. A máscara do adulto chama-se "experiência". Ela é inexpressiva, impenetrável, sempre a mesma. Esse adulto já vivenciou tudo: juventude, ideias, esperanças, mulheres. Foi tudo ilusão. Ficamos, com frequência, intimidados ou amargurados. Talvez ele tenha razão. O que podemos objetar-lhe? Nós ainda não experimentamos nada.

Mas vamos tentar agora levantar essa máscara. O que esse adulto experimentou? O que ele nos quer provar? Antes de tudo, um fato: também ele foi jovem um dia, também ele quis outrora o que agora queremos, também ele não acreditou em seus pais: mas a vida também lhe ensinou que eles tinham razão. E então ele sorri com ares de superioridade, pois o mesmo acontecerá conosco - de antemão ele desvaloriza os anos que estamos vivendo, converte-os na época das doces asneiras que se cometem na juventude, ou no êxtase infantil que precede à longa sobriedade da vida séria. Assim são os bem-intencionados, os esclarecidos. Mas conhecemos outros pedagogos cuja amargura não nos proporciona nem sequer os curtos anos da "juventude"; sisudos e cruéis querem nos empurrar desde já para a escravidão da vida. Ambos, contudo, desvalorizam, destroem os nossos anos. E, cada vez mais, somos tomados pelo sentimento de que a nossa juventude não passa de uma curta noite (vive-a plenamente, com êxtase!); depois vem a grande "experiência", anos de compromisso, pobreza de ideias, lassidão. Assim é a vida, dizem os adultos, eles já experimentaram isso.

Sim, isso experimentaram eles, a falta de sentido da vida, sempre isso, jamais experimentaram outra coisa. A brutalidade. Por acaso eles nos encorajaram alguma vez a realizar algo grandioso, algo novo e... futuro? Oh, não, pois isso não se pode mesmo experimentar. Tudo o que tem sentido, o verdadeiro, o bem, o belo está fundamentado em si mesmo - o que a experiência tem haver com isso? E aqui está o segredo: uma vez que o filisteu jamais levanta os olhos para as coisas grandiosas e plenas de sentido, a experiência transformou-se em seu evangelho. Ela converte-se para ele na mensagem da vulgaridade da vida. Ele jamais compreendeu que existe outra coisa além da experiência, que existem valores que não se prestam à experiência - valores a cujo serviço nos colocamos.

Mas por que então a vida é absurda e desconsolada para o filisteu? Porque ele só conhece a experiência, nada além dela; porque ele próprio se encontra privado de consolo e espírito. E também porque ele só é capaz de manter relação íntima com o vulgar, com aquilo que é o "eternamente ontem".

Nós porém conhecemos outra coisa, algo que nenhuma experiência nos pode proporcionar ou tirar: sabemos que existe a verdade, ainda que tudo o que foi pensado até agora seja equivocado. Sabemos que a fidelidade precisa ser sustentada, ainda que até agora ninguém a tenha sustentado. Nenhuma experiência pode nos privar dessa vontade. Mas, será que em um ponto os pais teriam razão com os seus gestos cansados e sua desesperança arrogante? Será necessário que o objeto da nossa experiência seja sempre triste, que não possamos fundar a coragem e o sentido senão naquilo que não pode ser experimentado? Nesse caso então o espírito seria livre. Mas, sempre e sempre, a vida o estaria rebaixando, pois, enquanto soma das experiências, a própria vida seria um desconsolo.

Agora, porém, não entendemos mais o porquê dessas questões. Por acaso guiamos a vida daqueles que não conhecem o espírito? Guiamos a vida daqueles cujo "eu" inerte é arremessado pela vida como por ondas junto a rochedos? Não. Pois cada uma de nossas experiências possui efetivamente conteúdo. Nós mesmos conferimos-lhe conteúdo a partir do nosso espírito. A pessoa irrefletida acomoda-se no erro. "Nunca encontrarás a verdade", grita ela àquele que busca e pesquisa, "eu já vivenciei tudo isso". Para o pesquisador, contudo, o erro é apenas um novo alento para a busca da verdade (Espinosa). A experiência é carente de sentido e espírito apenas para aquele já desprovido de espírito. Talvez a experiência possa ser dolorosa para a pessoa que aspira à verdade, mas dificilmente a levará ao desespero.

Em todo caso, essa pessoa jamais será acometida de resignação apática ou se deixará entorpecer pelo ritmo da vida. Já o filisteu - como já percebeste - rejubila-se apenas com todo fato que demonstra de novo a falta de sentido. Ele tinha portanto razão. Certifica-se assim que na realidade o espírito não existe. Mas ninguém exige submissão mais rígida, "veneração" mais rigorosa diante do "espírito" do que ele. Pois se elaborasse críticas, ele seria obrigado a participar, e disso ele não é capaz. Até mesmo na experiência do espírito, que ele realiza a contragosto, não consegue sentir o espírito.

Diga-lhe
Que pelos sonhos da sua juventude
Ele deve ter consideração, quando for homem

(Schiller)

Nada é mais odioso ao filisteu do que os "sonhos da juventude". (E, quase sempre, o sentimentalismo é a camuflagem desse ódio). Pois o que surge nesses sonhos é a voz do espírito, que também o convocou um dia, como a todos os homens, mas ele não foi. A juventude será a lembrança eternamente incômoda dessa convocação. Por isso ele a combate. O filisteu fala daquela experiência cinzenta e prepotente, e aconselha o jovem a zombar de si mesmo. Sobretudo porque "vivenciar" sem o espírito é confortável, embora funesto.

Mais uma vez: conhecemos uma outra experiência. Ela pode ser hostil ao espírito e aniquilar muitos sonhos florescentes. No entanto, é o que existe de mais belo, de mais intocável e inefável, pois ela jamais estará privada de espírito se nós permanecermos jovens. Sempre se vivencia apenas a si mesmo, diz Zaratustra ao término de sua caminhada. O filisteu realiza a sua "experiência", eternamente a mesma expressão de ausência de sentido. O jovem vivenciará o espírito, e quanto mais difícil lhe for a conquista de coisas grandiosas, tanto mais encontrará o espírito por toda parte em sua caminhada e em todos os homens. O jovem será generoso quando homem adulto. O filisteu é intolerante. 

Walter Benjamin - 1913

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Uma pedagogia comunista (Walter Benjamin)



Psicologia e ética são os polos em torno dos quais se agrupa a pedagogia burguesa. Não se deve supor que ela esteja estagnada. Ainda atuam nela forças ativas e, por vezes, também significativas. Apenas, nada podem fazer contra o fato de que a maneira de pensar da burguesia, aqui como em todos os âmbitos, está cindida de uma forma não dialética e rompida interiormente. Por um lado, a pergunta pela natureza do educando: psicologia da infância, da adolescência; por outro lado, a meta da educação: o homem integral, o cidadão. A pedagogia oficial é o processo de adaptação mútua entre esses dois momentos - a predisposição natural abstrata e o ideal quimérico - e os seus progressos obedecem à orientanção de substituir cada vez mais a violência pela astúcia. A sociedade burguesa hipostasia uma essência absoluta da infância ou da juventude, à qual ela atribui o nirvana dos escoteiros, hipostasia uma essência igualmente absoluta do ser humano ou do cidadão, adornando-a com os atributos da filosofia idealista. Na verdade, ambas as essências são máscaras complementares entre si, do concidadão útil, socialmente confiável e ciente de sua posição. É o caráter inconsciente dessa educação, ao qual corresponde uma estratégia de insinuações e empatias: "As crianças tem mais necessidade de nós do que nós delas", eis a máxima inconfessada dessa classe, que subjaz tanto às especulações mais sutis de sua pedagogia como á sua prática de reprodução. A burguesia encara a sua prole enquanto herdeiros; os deserdados, porém, a encaram enquanto apoio, vingadores ou libertadores. Esta é uma diferença suficientemente drástica. Suas consequências pedagógicas são incalculáveis. 

Em primeiro lugar, a pedagogia proletária não parte de duas datas abstratas, mas de uma concreta. A criança proletária nasce dentro de sua classe. Mais exatamente, dentro da prole de sua classe, e não no seio da família. Ela é, desde o início, um elemento dessa prole, e não é nenhuma meta educacional doutrinária que determina aquilo que essa criança deve tornar-se, mas sim a situação de classe. Esta situação penetra-a desde o primeiro instante, já no ventre materno, como a própria vida, e o contato com ela está inteiramente direcionado no sentido de aguçar desde cedo, na escola da necessidade e do sofrimento, sua consciência. Esta transforma-se então em consciência de classe. Pois a família proletária não é para a criança melhor proteção contra uma compreensão cortante da vida social do que o seu puído casaquinho de verão contra o cortante vento de inverno. Edwin Hoernle dá suficientes exemplos de organizações infantis revolucionárias, greves escolares espontâneas, greves de crianças durante a colheita de batatas, etc. O que diferencia os movimentos de seu pensamento das melhores e mais sinceras reflexões por parte da burguesia é que ele considera seriamente não apenas a criança, a natureza infantil, mas também a situação de classe da própria criança, situação essa que jamais constitui um problema real para o "reformador escolar". A este Hoernle dedicou o penetrante parágrafo final de seu livro, que tem haver ainda com os "reformadores sociais austro-marxistas" e com o "idealismo pedagógico de fachada revolucionária", os quais levantam protestos contra a "politização da criança". Mas - assinala Hoernle - será que escola primária e profissionalizante, militarismo e Igreja, associações de juventude e escoteiros seriam, em sua função oculta e exata, outra coisa senão instrumentos de uma instrução antiproletária dos proletários? A essas instituições contrapõe-se a educação comunista, seguramente não de maneira defensiva, mas sim enquanto uma função da luta de classes. Da luta de classe pelas crianças, as quais lhe pertence e para as quais a classe existe. 

Educação é função da luta de classes, mas não apenas isso. Ela coloca, segundo o credo comunista, a avaliação completa do meio social dado a serviço de metas revolucionárias. Mas, como esse meio social não é apenas lutas, mas também trabalho, a educação apresenta-se ao mesmo tempo como educação revolucionária do trabalho. Este livro dá o melhor de si ao tratar do programa dos bolcheviques em um ponto decisivo. Durante a era de Lênin teve lugar na Rússia a significativa discussão a respeito de formação monotécnica ou politécnica. Especialização ou universalismo do trabalho? A resposta do marxismo proclama: universalismo! Apenas enquanto o homem vivencia as mais diferenciadas transformações do meio social, apenas ao mobilizar sempre de novo, em cada novo meio, as suas energias, colocando-as a serviço da classe, apenas assim ele atinge aquela disposição universal para a ação, a qual o programa comunista contrapõe àquilo que Lênin chamou de "o traço mais repugnante da velha sociedade burguesa": a dissociação entre prática e teoria. A ousada e imprevisível política dos russos em relação à mão de obra é inteiramente o produto desse novo universalismo, não contemplativo e humanista, mas ativo e prático: o universalismo da disposição imediata. A incalculável possibilidade de aproveitamento da pura força de trabalho humana, possibilidade que a todo momento o capital traz á consciência do explorado, retorna, em estágio superior, enquanto formação politécnica do homem, em oposição à especializada. São princípios fundamentais da educação das massas, cuja fecundidade para a educação dos jovens se pode apalpar com as mãos. 

Apesar disso, não é fácil aceitar sem reservas a formulação de Hoernle  de que a educação das crianças não se distingue em nada de essencial da educação das massas adultas. Em face de considerações tão ousadas damo-nos conta de quão desejável ou mesmo quão necessário seria complementar a exposição política que aqui se apresenta com uma exposição filosófica. Mas, sem dúvida alguma, faltam ainda todos os trabalhos preliminares para um estudo materialista da criança proletária. (Do mesmo modo como, desde Marx, o estudo do proletariado adulto não ganhou nada de novo). Esse estudo não seria outra coisa senão um confronto com a psicologia da criança, cuja posição teria então de ser substituída por minuciosos protocolos - elaborados segundo os princípios do materialismo histórico - a respeito daquelas experiências que foram realizadas nos jardins de infância proletários, grupos de jovens, teatros infantis, ligas da juventude. 

É efetivamente um manual, mas ainda mais do que isso. Não há na Alemanha, fora dos escritos políticos e econômicos, nenhuma literatura marxista ortodoxa. É esta a principal causa da surpreendente ignorância dos intelectuais - com inclusão da esquerda - a respeito de abordagens marxistas de assuntos mais amplos. Com penetrante autoridade, o livro de Hoernle  demonstra em relação a um dos temas mais elementares, a pedagogia, o que é o pensamento marxista ortodoxo e para onde ele leva. Deve-se tê-lo sempre em mente.

Walter Benjamin - 1929

.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Coletivos lançam abaixo-assinado pela permanência de espaço cultural em SP

retirado de http://www.brasildefato.com.br/node/14527

Coletivos culturais lançaram na internet um abaixo-assinado pela continuidade e ampliação da ocupação do Clube da Comunidade (CDC) Vento Leste, espaço público que reúne diversos grupos que exercem atividades diariamente. O CDC, situado na cidade Patriarca, zona leste de São Paulo, está ameaçado pela sub-prefeitura da Penha, que quer construir uma creche no local.

Segundo os coletivos, que ocupam o espaço há dez anos, parte do terreno já foi fracionada para a construção de um posto de saúde e de uma escola municipal.

“Não somos contrários à construção de creches, mas não às custas de um espaço organizado e autogerido de cultura e esportes da cidade. Estamos juntos na luta pela procura de novos espaços que atendam às demandas da comunidade, sem sobrepor, entretanto, uma necessidade a outra. A arte não é menos importante”, ressaltam em nota.

O Clube da Comunidade Vento Leste é o único local cultural-desportivo da região, que desenvolve desde aulas de capoeira e campeonatos de futebol, até oficinas de teatro e reuniões de recuperação para dependentes químicos.


Para assinar a petição pública, clique aqui.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Trilogia : Morte aos artistas. 1º parte : Roberto Benigni e a torre de Paris.


“Estar vivo não significa viver” e como sinfonia as palavras do dramaturgo alemão batiam nas paredes da subjetividade de um sujeito qualquer. Frequentava a lâmina para desfazer o mal entendido, lia o Rei da Vela com uma catarata, herdada do tropicalismo num hedonismo que dava tédio. O cigarro era sempre metade do mesmo cigarro. Não tinha outra forma, assim como não tinha forma. Inocente-pueril comia o branco das páginas e só o branco das páginas, a palavra pouco lhe interessava filisteu meio termo, dotado de um narcisismo do seu próprio peido, segundo ele: Perfumado. O seu único interesse era desenhar o seu eterno espelho. Roberto Benigni e a torre de Paris. 

Num comercial as artes dramáticas lhe ajudavam, efeito de seu curso técnico. No armário o arroz integral impedia dele explodir a linguagem. Nunca abusa do álcool. Dentro do seu crânio: O hermético é a fruição estética do homem solitário. Repetia - Estou só, degenerado do sensível. Recebe um convite: VIAJAR FICOU MAIS FÁCIL. Tem o limite, não pode ir além, cortou os cabelos ouvindo Frederic Chopin numa cena melodramática, e foi atrás dos amigos. De volta ao possível, seu monologo, tem direção de um Norueguês renomado. Narrativas míticas, nome de opereta, assim denominava. O fundo do conteúdo era a história do tarô, assim concebia o seu ilustre monologo. Teve público.  

A noite do piru – faixa do motel popular: Depois da leitura de Macunaíma, o artista fica arfando por uma experiência transcendental. Numa tipografia concebida a pena, ele pensa ser Victor Hugo e anos após sua morte é encontrado o seu fatalismo bilhete: 

No balcão uma fêmea seminua, em volta do seu pescoço uma cobra enrolada. O aspecto do lugar é hostil. Falta um pouco de cor e talvez um quadro abstrato no canto direito do ambiente. As minhas mãos estão soltando água suficiente para um copo. Tenho a enorme vontade de cheirar toda uma prostituta, o amor deve estar nos lugares mais sobrenaturais. Duas mulheres, uma chupada com dentes, me excita ao ponto de imaginar a língua de um cavalo   

A canoa do amor se quebrou. Volta entoando pra casa. Na juventude leu poesia russa moderna. No elevador junto a ele, um rapaz com óculos que no lugar da haste tem fio de fone de ouvido. – Você é da schindler( Elevator company)- Não, não sei nem do que se trata.

  
‘’ O artista novo é comedido, compara passado como algo anacrônico, e presente como uma coisa só. Acende vela para o santo como um desesperado por esperança. Está desajustado com sua realidade material, e tem apenas fé nos projetos de reforma ‘’   

(Carlos Carrara
 colunista da revista:
 Klaxon nova edição)   


Após o artigo todo parece ter um momento de sapiência. Olha no espelho e já não se vê como um europeu – o bacharel, veste suas calças e vai decidido cancelar o seu monologo. Antes tem de ir ao um almoço no edifício paulista, reunião sobre a pensão da filha. Está com pouco dinheiro. O advogado já é conhecido, estudaram juntos. Chega transtornado. Depois de muita conversa fala abertamente – Temos que começar a filosofar sobre o Brasil. 


Não entendeu nada o Roberto Benigni da torre de Paris. 

domingo, 1 de setembro de 2013

Literatura, ética e política em Sartre - (Franklin Leopoldo e Silva), trechos e comentários.



(Abaixo, algumas passagens de um bonito texto de Franklin Leopoldo e Silva, que procura demonstrar o modo pelo qual, no pensamento de Sartre, a definição de ética e política iluminam-se à luz da  literatura - e vice-versa. Tentei escrever alguns comentários às passagens citadas. No final, o link com o texto inteiro).



“A historicidade refluiu sobre nós; em tudo que 
tocávamos, no ar que respirávamos, na página que líamos, naquela que 
escrevíamos, no próprio amor, descobríamos algo como um gosto de história, 
isto é, uma mistura amarga e ambígua de absoluto e de transitório”

(Sartre - Que é a literatura)




Começando por aquilo que poderíamos chamar a descoberta de nossa condição histórica, que, segundo o autor, é dramática em si mesma - para além de seu conteúdo atual, em certo sentido. Deve-se acrescentar que o peso dessa dramaticidade é negativo, sobretudo quando a descoberta é praticamente involuntária - ou seja: a história quem nos descobre, desnudando a condição do sujeito para si mesmo. 

historicidade é uma dimensão da existência, por certo. Mais importante do que a constatação é a dramaticidade da descoberta.

Pois, segundo Sartre, sua geração não chegou à história através da análise da historicidade da existência; pelo contrário, foi a história concreta, enquanto portadora do mal, que desabou sobre as suas cabeças e os fez compreender a historicidade através da experiência imediata do mal absoluto trazido pela transitoriedade da história.

Aqui o "mal", talvez, fundamentalmente, era o holocausto. Talvez porque não apenas. Nosso "habitat natural", no caso, a historicidade, é tudo, menos natural.

Assim, a história não é o ambiente do sujeito-agente histórico, de forma semelhante à que a natureza é o ambiente dos seres naturais. O homem não está na história como os seres naturais estão na terra como habitat. Historicidade não tem sentido paralelo ao de naturalidade. 
_________________________________________________________________________________

Assim, a consciência de nossa condição histórica precisa ser "arrancada" à História.

"Historicidade significa que a história somente existe na medida em que o homem a faz fazendo-se ser histórico, o que implica tanto as determinações objetivas que nos constituem quanto as possibilidades de negá-las e superá-las pela liberdade".
_________________________________________________________________________________

Entrando para os domínios da literatura, deve-se constatar, entre outras coisas, que a função social do leitor não se distingue fundamentalmente da função social do escritor:

"É nesse sentido (...) (que se) justifica a definição da narrativa como reciprocidade tensa da liberdade do escritor e da liberdade do leitor e nos faz entender que essa relação se constitui também ao mesmo tempo como experiência de compromisso, nos termos da função social da literatura enquanto prosa narrativa".
_________________________________________________________________________________

Ambiguidade não é relativismo; por outras palavras: por mais que seja necessária a constatação de uma relativa aleatoriedade na vida cotidiana (de onde Sartre supõe a liberdade inevitável), jamais será o suficiente para imaginarmos a possibilidade de uma realização plena do sujeito. Ambiguidade não é relativismo. A ambiguidade e a transitoriedade da vida cotidiana é uma espécie de "liberdade condicional", que a literatura buscará dar forma:

"Assim como a descoberta da história não significa assumir o relativismo, mas sim a ambiguidade que une e separa o absoluto do transitório em tudo que seja humano, assim também a historicidade da literatura não significa a eleição dos particularismos e das circunstâncias como únicos temas, mas a figuração ficcional pela qual a narrativa singulariza no contorno de situações concretas a universalidade do drama da existência". 
_________________________________________________________________________________

Quando a literatura obtém êxito, na exposição dessa ambiguidade ("extrema liberdade" que aprisiona o homem), a reação do leitor deve consistir - e de fato consiste - na intensificando do processo de leitura, enquanto aprofundamento no conhecimento de sua própria condição histórica:

"É nesse sentido que o escritor fala a seus contemporâneos, e que age através da palavra ao apresentar-lhes, não uma representação qualquer, mas um espelho que os reflita criticamente e que os provoca a responder pela leitura enquanto ressignificação da escrita. É a construção desse espelho crítico que podemos entender como o sentido ético e político da literatura, se tal construção corresponder à descrição da intersubjetividade no plano das práticas constituintes da existência histórica".
_________________________________________________________________________________

Surgem algumas perguntas no caminho:

"Muitos viram nessa proposta de engajamento uma espécie de golpe fatal na autonomia da literatura. 

- Se o escritor se dirige ao leitor participante do mesmo drama histórico que configura uma época determinada com o intuito de convocá-lo a uma representação crítica da história vivida, isso não significaria fechar necessariamente o foco da literatura na dimensão conjuntural do presente, e mesmo de uma situação específica?".

Há uma diferença entre "história vivida" (a qual a grande literatura não deve retratar, mas retrata, inevitavelmente), e "dimensão conjuntural do presente". Se voltarmos aos trechos anteriores, veremos que, na visão de Sartre, a "história vivida" ultrapassa em muito a dimensão "conjuntural" do presente. Esta, diferentemente da "história vivida", não pressupõe necessariamente um movimento de totalização.

"Não estaria o escritor praticando deliberadamente a recusa de admitir o horizonte do leitor universal?".

Não existe "leitor universal". Em todo caso, seria necessário defini-lo. E, pelo que se viu até aqui do pensamento de Sartre, não há espaço para este "personagem".

Ademais, teria o escritor o direito de fazer da literatura um apelo que traga ao leitor a incômoda lembrança de que ele deveria fazer do exercício de sua liberdade uma tomada de posição no contexto de uma situação, sempre historicamente definida? 

Aqui avançamos na definição de "exercício da liberdade". Em Sartre, o homem está condenado à liberdade. Terá que exercê-la inevitavelmente, ou melhor: terá de lidar com ela até o fim de seus dias. Essa condição deriva da possibilidade, diariamente renovada, de voltarmos os olhos na direção do passado, isto é, para as determinações históricas que nos constituem. Por mais pesada que seja a herança do passado, sempre restará uma margem de locomoção do olhar, que nos permite, ao menos, enxergar este peso.

Esta margem de ação virtual, por assim dizer, quando o homem a ignora, aparece enquanto sensação de contingência, impressão constante de que a "vida é oca", e que, de algum modo, as coisas acontecem sem propósito. É que, no caso, o terreno de exercício da liberdade estará vago, por assim dizer - vazio constitutivo da realidade mesma do indivíduo, e que só pode ser "preenchido" por narrativas capazes de situá-lo historicamente - a cada minuto devemos preencher novamente esse "espaço".

O combate da aleatoriedade aparece enquanto "tomada de posição" em cada novo contexto da existência. Nesse sentido, a pergunta é auto-supressiva, nega a si mesma, já que o leitor consciente do exercício de sua própria liberdade não sentirá incômodo nenhum em ser lembrado desta consciência, que já possui. Então, devemos perguntar, para responder devidamente a pergunta: de qual espécie de leitor se trata?

E por que o escritor, também ele, teria de situar sua liberdade frente àquilo que é necessário dizer? 

Ora, se o escritor não situar sua liberdade frente àquilo que é necessário dizer, não poderá situá-la em lugar nenhum. Mas, por que o escritor precisa situar sua liberdade? Porque, do contrário, tornar-se-á refém desta liberdade, isto é, não compreenderá os limites de sua própria condição individual. De modo que, nos termos de Sartre, entre a liberdade estritamente inevitável, e a não-liberdade absoluta (a morte, talvez), é preferível esta última. A liberdade estritamente necessária, que não busca compreender a si mesma enquanto tal, é origem de sofrimentos incalculáveis. Não é possível existir escritor à margem de si mesmo.

As perguntas acima, quase redundantes em sua obviedade, servem para testar a compreensão do leitor. Como diria Morelli (personagem de Cortázar, em O Jogo da Amarelinha), numa posição abertamente sartreana: é preciso identificar e evitar o "leitor-fêmea".
_________________________________________________________________________________

Ao mesmo tempo em que não existe, a rigor, um "leitor universal", também não existem mais públicos delimitados. A quem se dirige, então, o escritor "demitido socialmente"?

"O escritor não tem público desde que, no século XIX, a burguesia o desinvestiu da função de justificar os interesses de classe, ao descobrir que o intelectual já não mais lhe interessa porque ela já não tem necessidade de seus serviços, a não ser no mero plano secundário do entretenimento. Ao recusar a mediação do entretenimento, o escritor corroborou a sua demissão social".
_________________________________________________________________________________

O escritor está à deriva. Que fazer? Lançar-se nos braços do proletariado? Ou seja: cumprir, a rigor, o mesmo papel desempenhado em favor da burguesia, até o séc. XIX, porém agora contra a burguesia? Deve-se notar que a ideia da revolução proletária rejeita necessariamente a figura do intelectual, já que o processo histórico que os fez aproximarem-se do proletariado é realmente uma espécie de "demissão". A figura do intelectual, assim, está desmoralizada. Não há retorno:

"Mas como a universalidade formal foi desmascarada quando a burguesia tornou-se classe dominante, e nessa denúncia consiste precisamente uma das principais frentes de combate do proletariado, a instrumentalização do escritor seria inócua e inconsequente: a burguesia conhece por experiência o que significa o papel do intelectual numa luta política e qualquer partido de esquerda aceita com relutância esse personagem sem fé, cuja fidelidade é problemática".
_________________________________________________________________________________

Ao mesmo tempo, o verdadeiro intelectual rejeitaria a oferta dos comunistas, para assumir um cargo na revolução. A revolução dispensa os intelectuais, tanto quanto os verdadeiros intelectuais suspeitam de uma revolução que os procure. Ele sabe, por experiência, que a revolução o dispensa:

"Por outro lado, a experiência histórica também faz o intelectual hesitar quanto a essa oferta de serviços: ele sabe que a defesa de princípios gerais não só é ambígua, mas é também perigosa; que a adesão a um futuro politicamente programado é o ardil do qual ele já se fez cúmplice e vítima".
_________________________________________________________________________________

Recusando a "mediação do entretenimento" e a sedução fácil da "revolução proletária" (ambas descoladas da "história efetiva"), o intelectual e o escritor encontram-se num difícil meio-termo, mas que pode representar uma saída:

"Assim, do mesmo modo que ele corroborou a sua demissão pela burguesia, ele também incorpora a recusa do proletariado em tê-lo como porta-voz. Não o faz em nome da liberdade abstrata de pensamento, mas em nome da necessidade concreta de um compromisso com uma história efetiva. E é assim que a demissão e a recusa políticas o lançam na política, num outro sentido de compromisso, baseado em valores que ele deve inventar".

Aqui, deve-se acrescentar um detalhe: o intelectual recusa a perspectiva da revolução numa determinada situação, em que os supostos representantes do proletariado confundem-se essencialmente com os ideólogos da burguesia, já que não passam do plano abstrato dos princípios para a "história efetiva". Mas isso não quer dizer, necessariamente, que o intelectual não deva mais acreditar na possibilidade da revolução. Caso esta se apresente como perspectiva efetiva, tem o dever de apoiá-la - sem desejar representá-la, já que, em todo caso, saberá de sua própria inutilidade. 

Desse acréscimo resulta outro: mesmo admitindo a necessária "reclusão política" do intelectual (que pode "lançá-lo na política em outro sentido"), é exagerado dizer que nessa condição o intelectual terá que "inventar" novos valores. Os valores dele serão aqueles que deveriam existir para além, obrigando-o a defendê-los sozinho, na medida em que não estão ao alcance de todos - falo da revolução, naturalmente.

As palavras de Sartre, citadas por Franklin Leopoldo, são precisas nesse sentido:

“No momento em que todas as igrejas nos expulsam e nos excomungam, em que a arte de escrever, encurralada entre as propagandas, parece ter perdido a sua eficácia própria, nosso engajamento deve começar. Não se trata de aumentar as exigências com relação à literatura, mas simplesmente de atender a todas elas, ainda que sem esperança”.

O engajamento consiste no esforço de manter vivo o sonho da revolução. E, de certo modo, tomar para si todas as exigências que esse objetivo impõe. Naturalmente, o intelectual será derrotado, não conseguirá difundir a ideia da revolução a ponto de tornar iminente sua efetivação. Mas isso é outra questão. O verdadeiro intelectual, em última análise, sonha com a supressão de si mesmo enquanto intelectual: o sentido de sua existência determina-se pela inexistência da perspectiva maior de transformação. Trata-se de assoprar a brasa, para que não apague definitivamente. Sua inutilidade será maior quanto mais próxima estiver a transformação radical - e é isso que ele deseja, para isto ainda é útil.


sábado, 31 de agosto de 2013

Conserto


Na franja dos dias esqueço o que é velho
E o que é manco.
E é como te encontrar
Corro a te encontrar.

(Ao que vai nascer - Milton Nascimento)




O que viu exatamente? Melhor seria perguntar-se sobre o valor da pergunta: de que vale perguntar-se pelo que viu? Nada! De nada vale. Até porque, no caso, ouviu e não viu:

      - Bela orquestra, hein Rotvic! Gritou, de passagem, o colega da outra turma, piano. 

Assim costumava diferenciar os colegas: fulano... ah sim! Piano! Sicrano, violino. Beltrano flauta. E ele, Rotvic, baixo - retomou o fio de suas indagações, depois da interrupção abrupta do colega piano. Partiu da conclusão anterior: sim, no fundo, não ouviu nada da orquestra. Coisas assim acontecem, e quando batem, não deixam dúvidas. O amor não (se) permite dúvidas... Certo? Não! Quer dizer... Rotvic entornava pelas calçadas, contraditoriamente.

Lembrou-se de Magda bandolim. Com ela poderia exprimir-se, revolvendo sua quase-vocação, talvez-vocação, pseudo-vocação, que, ao mesmo tempo, eram dois caminhos correndo em direções opostas. A incerteza de seu destino, o emaranhado das dúvidas, poderia ser um sinal de sua vocação, ou, pelo contrário, a vitória do medo e da insegurança - capaz, apenas, de incapacitá-lo: "O medo anda por fora, o medo anda por dentro...", cantou.

Magda aproximou-se. "Tudo bem Rotvic?". Enigmática, um quase sorriso. A cada fração de segundos mudava em outra. O olhar reconfortante virava-se em desconfiança. E revirava-se, novamente, compreensivelmente, em sua direção. Falou-se do concerto. "Eu gostei". "Eu, Magda, não senti nada...". Explicar que a Música é uma questão, explicar que a Música despertava-lhe questões. E Magda, ouvindo, enigmática e reconfortante; desconfiada e compreensiva. Ou. 

Analisava sua alma? Entrevia-lhe o talento, a aptidão, ou apenas ria-se por dentro? 

Magda, em sua alternância enigmática, talvez fosse a própria música. Via-o como tudo, ou nada. O não decifrar-se é sua decifração, sua essência. Olhava fixamente para Magda, um tanto enlouquecido, diríamos:
     
      - Ora, Rotvic! Não me olhe assim... Você parece um tanto enlouquecido.

Não se tratava de decifrar Magda, senão que, no caso, decifrá-la é saber-se decifrado por ela. É como a música. Ela deve saber-nos. Como o poema, entra em nós, e não o contrário, possessivo. Deixar-se largar-se. O enigma, sobre o significado de seus enigmas, era, pois, o enigma de Magda: amava-o, ou ria-se por dentro? Pouco importa! Talvez risse de seu temor, talvez risse de amor. Pouco importa. A chave é a manutenção da dúvida. Novamente, olhava-a, como se a escutasse com os olhos:

      - Ora, Rotvic, não me olhe assim, já falei... Você parece um tanto enlouquecido.

E ria, ria, como se não fosse nada, de dentro para fora. Não estranhava, nem temia, seu olhar barulhento. Magda sabia. A música explica-nos, e não o inverso. E por aí a explicamos, talvez. No barulho do tráfego, do sol, da indigência luciferina da tarde, Magda foi-se embora num ligeiro adeus, como se não fosse nada ir-se embora. Foi-se o bandolim, só restou o banzo, retinindo nos ouvidos de Rotvic. Ou talvez fosse o susto das buzinas.

Rotvic pensou mesmo em sua inapetência para o caos. Que, talvez, a sonora indigência da vida (como bigornas descompassadas) subtraísse, em segundos, o difícil aprendizado da harmonia. Aborto induzido, de nós mesmos. Teve medo. Tapou os ouvidos, com força, e recordou nitidamente do concerto. Magda! É preciso isolar as harmonias, preservá-las. É preciso amar Magda. É preciso odiar Melquíades. É preciso não morrer. É preciso salvar o bandolim da queda. É preciso viver com os homens. É preciso não assassiná-los. É preciso ter mãos pálidas, e anunciar o FIM DO...  Voltou-se. Procurou Magda no caminho. Magda se fora, como é natural. Um bandolim voa, vigésimo primeiro andar, espatifa-se no meio-fio. 
     
      - Caqui. Dois reais a bandeja!

Sentado no meio-fio farto de caqui, Rotvic descansava. O silêncio na cidade é uma ilha de absoluto. Pausa mágica. Do mesmo modo a imobilidade em meio a corpos tão ágeis. Sentado no meio-fio, farto, Rotvic era um contra-ponto absurdo, manifestação corpórea do silêncio - como era possível, nesse calor, sem qualquer refrigeração, estarem tão gelados - os caquis?

Cansado. Cansado Rotvic. Como não amá-lo? Ergueu-se apaziguado, o quase feliz entrou na estação. O maestro baixa os braços, os instrumentos emudecem, fulminados, o silêncio ergue-se como poeira, os pedaços do bandolim no asfalto, Magda, Magda de repente do outro lado da rua, restos - se restos há - de caquis. E o ar que pesa. Rotvic, Rotvic, Rotvic, Rotvic (é o som de uma locomotiva, reparem). Um nome sem origem. A princípio acreditou por muito tempo na origem talvez russa de seu nome. Engano seu: pense numa nota (musical), solitária, solta no ar... É cretino. Um nome sem origem é cretino. Sim, melhor seria chamar-se Cretino da Silva. Rotvic riu de si mesmo, por dentro, completamente desbaratinado. Compôs um samba.


.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

CINECLUBE CINEMA EM REVISTA



O Coletivo Cinefusão, em parceria com a Cia Antropofágica, convida para a estreia do "Cineclube Cinema em Revista", que terá início com o "Ciclo Cinema-Greve". Na primeira sessão, exibiremos três curtas: "Greve de Março" (de Renato Tapajós), "Rapsódia para um Homem Comum" (de Camilo Cavalcante) e "Dias de Greve" (do parceiro Adirley Queirós). A sessão é gratuita e ocorre a partir das 18h01, no Espaço Pyndorama (Rua Turiassú, 481), sempre no último domingo do mês. 

A representação do trabalhador no cinema remonta à primeira exibição pública, ocorrida em 1895, na qual foi exibido “A Saída da Fábrica Lumière em Lyon”. De lá para cá, os filmes não só se converteram em entretenimento, como também abriram possibilidade para uma perspectiva crítica. Com isso, o ciclo “Cinema-Greve” que propomos pretende resgatar, em primeiro lugar, o espaço de debate característico das experiências cineclubistas, além do prazer estético e experiência coletiva de assistir a um filme. Num primeiro momento, tratar do tema greve pode parecer simplista ou até mesmo uma obviedade. No entanto, é imprescindível entender inclusive como o capitalismo assimilou e incluiu em seu vocabulário cotidiano o termo greve. Greve de fome, greve de sexo, na tentativa de desarticular um instrumento da classe trabalhadora para combater aqueles que detêm os meios de produção. 

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Sobre a solidão (Julio Cortázar)


"Edgar Allan Poe metido numa ambulância, Verlaine nas mãos de um médico qualquer, Nerval e Artaud diante dos psiquiatras. Que podia saber de poesia o médico que o sangrava e o matava de fome? Se os artistas guardam o silêncio a respeito de si mesmos, como é provável, os outros triunfam cegamente, sem qualquer má intenção, é claro, sem saber que aquele operado, aquele tuberculoso, aquele acidentado despido sobre a cama se encontra duplamente só, rodeado por seres que se movem como por trás de um vidro, num outro tempo...

Abrigando-se sob o portal de uma casa, acendeu um cigarro. A tarde caía, grupos de moças saíam das lojas, com necessidade de rir, de falar aos gritos, de se empurrarem, de se esponjarem, numa porosidade de um quarto de hora antes de voltarem ao filé e à revista semanal. Oliveira continuou andando. Sem necessidade de dramatizar, a mais modesta objetividade era uma abertura ao absurdo de Paris, da vida gregária. Já que pensara nos poetas, era fácil recordar-se de todos os que denunciaram a solidão do homem junto do homem, a irrisória comédia dos cumprimentos, o "perdão" ao se cruzar na escada, o assento que se cede às senhoras no metrô, a confraternização na política e nos esportes. Somente um otimismo biológico e sexual poderia dissimular o isolamento de alguém. Os contatos na ação e na raça e no escritório e na cama e no campo eram contatos de galhos e folhas que se entrecruzam e acariciam-se de árvore para árvore, enquanto os troncos erguem, desdenhosos e indiferentes, as suas paralelas inconciliáveis. "No fundo, poderíamos ser como na superfície", pensou Oliveira, "mas teríamos de viver de outra maneira. E o que quer dizer viver de outra maneira? Talvez viver absurdamente para acabar com o absurdo, sair de si mesmo com tal violência que o salto acabasse nos braços do outro. Sim, talvez o amor, mas o diferente, o outro, nos dura o que dura uma mulher, e além disso, somente no que toca a essa mulher. No fundo, não há o outro, apenas os iguais. É certo que isso já é alguma coisa... " Amor, cerimônia ontologizante, doadora de ser. E por isso lhe ocorria agora aquilo que, na verdade, deveria ter lhe ocorrido logo no início: se alguém não tem domínio sobre si, jamais poderia ter alcançado a singularidade. E, afinal, quem é que se dominava de verdade? Quem é que tinha a perfeita consciência de si, da solidão absoluta que significa nem sequer contar com a própria companhia, que significa ter de entrar num cinema ou num bordel, ou em casa de amigos ou numa profissão absorvente ou, ainda, no matrimônio para estar, pelo menos, só entre os demais? Assim, paradoxalmente, o cúmulo da solidão conduzia ao cúmulo do gregarismo, à grande solidão das companhias alheias, ao homem só na sala de espelhos  e dos ecos. Todavia, pessoas como ele e tantas outras, que aceitavam a si mesmas ou que se rejeitavam, mas conhecendo-se de perto, caíam sempre no pior paradoxo; estar talvez á beira da singularidade e não poder alcançá-la. A verdadeira singularidade feita de delicados contatos, de maravilhosos ajustes com o mundo, não podia ser cumprida por um só lado: a mão estendida deveria receber outra mão, vinda de fora, vinda do outro".


(Julio Cortázar -  trecho de O Jogo da Amarelinha)


quarta-feira, 21 de agosto de 2013

CURTA "O EMPREGO"




Direção: Grasso 'Bou' Santiago
Roteiro: Patricio Plaza
Animação: Santiago Grasso / Patricio Plaza
Produção: Opusbou

terça-feira, 20 de agosto de 2013

1º gesto da RECUSA: ato em frente ao hotel Jaraguá-SP

retirado do site http://passapalavra.info/

No último sábado, 17 de agosto, grupos culturais de diversas linguagens junto ao Movimento Passe Livre-SP fizeram a primeira manifestação da recém criada Rede Cultural de Solidariedade Autônoma (RECUSA) em frente ao hotel Jaraguá no centro de São Paulo, onde acontecia o II Seminário Procultura do Ministério da Cultura  (MinC) com empresários e produtores culturais.

A participação no evento oficial estava condicionada ao pagamento de R$ 250,00 para os convites comprados com antecedência e R$ 350,00 no dia do seminário. Lá a proposta era discutir o projeto de lei do Procultura (6722/2010), que institui novas regras para o fomento e o incentivo à cultura, como o abatimento fiscal de 4% para 6% para todas as empresas que financiarem projetos culturais. O projeto ainda precisa ser aprovado pela Câmara e pelo Senado.

Entretanto, do lado de fora, recusando a política do cafezinho às portas fechadas, trabalhadores da cultura, ativistas, agitadores culturais e integrantes de movimentos populares se organizavam num café de rua – “Café Batucada: também quero decidir!” – para denunciar as negociações do MinC e dialogar com a população sobre cultura como direito e não como mercadoria.

A manifestação começou às 10h da manhã do sábado e numa mistura de recusa, festa, denúncia, ironia e provocação estendeu toalhas na calçada do hotel Jaraguá e serviu um grande café da manhã coletivo, com direito a frutas, bolachas, pães, bolos, sucos e, claro, café para os passantes, que puderam ouvir o som da Fanfarra do M.A.L  (Movimento Autônomo Libertário), a rádio poste e cenas com personagens ilustres como a ministra Marta Suplicy e Carmem Miranda.

Ao meio-dia, os manifestantes ocuparam o teatro do hotel Jaraguá, onde acontecia o evento oficial. Sem conflitos, apresentaram seu gesto de recusa através das marchinhas compostas pelo grupo, batucada, jogral e até uma rádio novela, produzida especialmente para o ato, “O casamento de Governoso Minquel Pau-Mandado com Bradesca Itaulícia do Patrocínio“. Com o constrangimento causado nos convidados do Seminário, a RECUSA conseguiu deixar seu recado: disposição para experimentar novos formatos de se manifestar sem negar a necessidade de se correr riscos – da ação direta.

A rede em construção

A RECUSA se formou a partir de conversas chamadas pelo Movimento Passe Livre-SP, após a jornada de lutas pela redução da tarifa em São Paulo, com diversos coletivos e grupos culturais em torno da construção de uma rede de articulação e fortalecimento das lutas de trabalhadores, ativistas, agitadores da cultura e movimentos populares. Essa rede está aberta e em construção e terá seu próximo encontro no dia 02 de setembro, no Espaço Cultural Carlos Mariguella, em Guaianases, zona leste.

Veja abaixo o vídeo do ato de sábado.


Ato da Recusa no Novotel Jaraguá from Passa Palavra on Vimeo.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

APOIO À CAMPANHA DE ARRECADAÇÃO - COLETIVO TELA SUJA FILMES

Nosso próximo projeto é o curta-metragem COICE NO PEITO que necessita de uma força para ser realizado. Para colaborar, dê uma olhada no vídeo e contribua, doando quanto for possível até 13 de setembro de 2013. Precisamos arrecadar R$15.000,00. Se não conseguirmos atingir o mínimo possível para realizar este filme, devolveremos todas as doações.
Abaixo do vídeo, mais informações sobre COICE NO PEITO.



“Interiorizam o comportamento mas observam o homem de longe, podendo desmistificá-lo e acabar com todo romantismo.”
(Rogério Sganzerla)
         
COICE NO PEITO é o novo projeto do coletivo Tela Suja Filmes. Nesse filme buscamos pesquisar a linguagem do realismo e as relações sociais numa região do Brasil que junta elementos de nossa contemporaneidade e de nosso passado simples e rural.
Pretendemos abordar a coexistência do velho e o novo. Com o “progresso”, velhas funções como a de charreteiro ainda tentam se reinventar para sobreviver na nova sociedade capitalista avançada, se relocando à serviço do turismo pelo dinheiro de quem dele desfruta.
O filme COICE NO PEITO abordará como DITO, empreendedor charreteiro, lida com uma tragédia pessoal e extraordinária: a morte de seu filho ainda criança; e como esta tragédia revela a tragédia social ordinária a qual DITO está preso.   

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

MÃES DE MAIO E O PRÉ-RANCOR

"MUITA GENTE TEM NOS PERGUNTADO SOBRE O 'FORA DO EIXO'...

Nosso movimento não tem como foco esta polêmica (temos a busca por Amarildos, Ricardos e Justiças como prioridade todos os dias), nem vamos entrar em qualquer onda de denuncismo, de crítica ética-moral ou fulanização da história. Reduzir qualquer crítica social mais profunda, da exploração capitalista e suas lógicas renovadas de lucro, ao tema da “corrupção” é sempre mais interessante para o próprio sistema capitalista – corrupto e corruptor na sua estrutura histórica - do que para os reais interesses de nós trabalha-dores. Temos visto muito essa manobra midiática nas ruas atualmente...

Enquanto movimento social autônomo, achamos que as experiências populares não podem ser capturadas de maneira nenhuma por empresas, ONGs, mídias comerciais, políticos ou outros intermediários de nossa cultura de resistência. Ninguém fala, muito menos capitaliza, em nosso nome! Isso vale para o campo da cultura e comunicação, onde acreditamos que os coletivos de artistas e comunicadores populares devem cada vez mais empoderarem-se e serem fortalecidos diretamente – sem intermediários. Isso vale também para as iniciativas sociais que lutam diretamente contra o genocídio da população preta, pobre e periférica, que sempre foi e continuará sendo nosso foco prioritário, e cuja luta não está à venda.

Autonomia pressupõe empoderamento da própria vida e ação coletiva direta, "Nóis por Nóis", e pressupõe também a liberdade de colocar o dedo em todas as feridas críticas necessárias (a começar frente ao próprio Estado), que a sociedade tem que colocar para a sua transformação radical. Por isso nunca embarcamos nessa história-pra-boi-dormir de "pós-rancor" e de falsa conciliação “amorosa” das lutas sociais que temos no presente, afinal de contas bem pesadas, e, se Nós quisermos, vamos ter ainda mais fortes daqui pra frente.

Como falar de “pós-rancor” em meio a mais de 570.000 dos nossos encarcerados neste momento em todo país?! Como “sorrir” com outras mais de 30.000 crianças e adolescentes penando em FEBEMs por todo território, aprisionando junto suas Mães e familiares?! Como ser “amável” com cerca de 60.000 pessoas do nosso povo assassinadas, mortas ou desaparecidas, todos os recentes anos no Brasil (estamos falando de cerca de 5.000 corpos dos nossos POR MÊS, ou 166 pessoas e famílias destruídas POR DIA), entendeu?! “Pós-rancor”?! É muita treta pra Vinicius de Morais ou Amorais...

Passar um verniz ideológico de “amor” sobre essa dor real que sentimos, produto da exploração e da opressão cotidiana de todo um povo por uma elite civil-militar secular, sempre nos soou como uma manobra oportunista do interesse apenas dessa elite patrocinadora da miséria, da violência continuada, e da sua cínica tentativa de disfarce “cordial e democrático”. Nenhum fim justifica esses meios!

Somos do “movimento pré-rancor” e da "mídia capoeira", e ao invés de entrar nessa mais nova histeria sobre o Fora do Eixo e seus Ninjas, preferimos seguir a construção cotidiana e rancorosa do verdadeiro Amor revolucionário.

Se nos permitirem uma citação, o "Manifesto da Antropofagia Periférica" do Sérgio Vaz, escrito lá no já longínquo ano de 2007: "A Periferia nos une pelo amor, pela dor e pela cor. / Dos becos e vielas há de vir a voz que grita contra o silêncio que nos pune. (...) / Contra o capital que ignora o interior a favor do exterior. Miami pra eles? “Me ame pra nós!” / Contra os carrascos e as vítimas do sistema. / Contra os covardes e eruditos de aquário. / Contra o artista serviçal escravo da vaidade. / Contra os vampiros das verbas públicas e arte privada. / A Arte que liberta não pode vir da mão que escraviza. / Por uma Periferia que nos une pelo amor, pela dor e pela cor."

Nós não somos dessa guerra de memes, nem dessa "paz". Nossa História, nossa Caminhada, nossa Campanha é Otra."

Mães de Maio da Democracia Brasileira

domingo, 11 de agosto de 2013

Os medos do regime (Bertolt Brecht)

.

I

Um estrangeiro, voltando de uma viagem ao Terceiro Reich
Ao ser perguntado sobre quem realmente governa lá, respondeu:
O medo.


II

Amedrontado
O erudito para no meio de uma discussão e observa
Pálido, as paredes finas de seu gabinete. O professor
Não consegue dormir, preocupado
Com uma frase ambígua que o inspetor deixou escapar.
A velha senhora na mercearia
Coloca os dedos trêmulos sobre a boca, para conter
O xingamento sobre a farinha ruim.
Amedrontado
O médico vê as marcas de estrangulamento em seu paciente, e cheios
de medo
Os pais olham os filhos como se olhassem para traidores.
Mesmo os moribundos
Amortecem a voz que sai com dificuldade, ao
Despedirem-se dos seus parentes.


III

Mas também os policiais (camisas-marrons)
Tem medo do homem que não levanta os braços
E ficam aterrorizados diante daquele
Que lhes deseja um bom dia.
As vozes agudas dos que dão ordens
Tem tanto medo quanto os guinchos
Dos porcos, a esperar a faca do açougueiro, e os mais gordos traseiros
Transpiram medo nas cadeiras do escritório.
Impelidos pelo medo
Eles irrompem nas casas e fazem buscas nos sanitários
E é o medo que os faz
Queimar bibliotecas inteiras. Assim
O temor domina não apenas os dominados, mas também
Os dominadores.


IV

Por que
Temem tanto a palavra clara?


V

Em vista do poder imenso do regime
De seus campos de concentração e câmaras de tortura
De seus bem nutridos policiais
Dos juízes intimidados ou corruptos
De seus arquivos com listas de suspeitos
Que ocupam prédios inteiros até o teto
Seria de acreditar que o poder não temeria
Uma palavra clara de um homem simples


VI

Mas esse regime lembra
A construção do assírio Tar, aquela fortaleza poderosa
Que, diz a lenda, não podia ser tomada por nenhum exército, mas que
Através de uma única palavra clara, pronunciada no interior
Desfez-se em pó.


(Bertolt Brecht)

Memes, mentiras e vídeo-tapes

texto publicado originalmente pelo Coletivo Zagaia (http://zagaiaemrevista.com.br/memes-mentiras-e-video-tapes/)

A salada é geral no tubo de imagens. Fora do Eixo com Mídia NINJA, uma combinação explosiva. Seja o novo homem, seja a avatar de Deus, não importa: nada e tudo os representa. Caminhos antigos que recebem uma nova vestimenta digital. E uma logomarca com cara despojada, sem compromisso com nada além, é claro, de editais e regalias empresariais, funcionando no calor da cultura.  De repente, todos aqueles vídeos que qualquer um poderia fazer de seus dispositivos eletrônicos, parecem ganhar uma cara: como se este modo de mostrar diretamente a truculência do Estado tivesse como eixo a face oculta  de um NINJA. 

Cultura? Lugar certo para as metamorfoses ambulantes: o que seria a publicidade dos bancos sem a Lei Rouanet? Como justificar a atrocidade sem os editais públicos que conferem às ONGs de empresas com fins lucrativos um espaço digno em que se gerencia a miséria dos outros? É a cultura o grande canal. E a difusão midiática, sua grande companheira. Pois não se pode fazer os beneméritos sem uma boa campanha de divulgação… 

Eis o sorriso de Monalisa que escancara os beiços e consola os Torturrados! O enigma em forma de arte, desafiando a todos que procuram decifrar seus mistérios. Sabemos que quando o “pobre” Capilé (CEO da empresa Fora do Eixo)  declara publicamente que a margem de lucro da “Fora do Eixo corporation” gira em torno de 3 a 5 milhões não pode estar falando sério. Não há imaginação matemática que explique este volume! 

NINJA e FdE, tudo a ver! 

E os Ninja´s? Não há nome melhor para a sigla. Afinal, todos sabem que estes eram especialistas em infiltração a serviço do governo feudal japonês. Sujeitos nada confiáveis, ao menos para os samurais, que combatiam com alguma honra em um Japão à beira da Modernidade. Em geral, ninjas seguem a onda do poder, qualquer que seja o partido. Basta o pagamento. O que vale é a prática de como se infiltrar nos jogos da cultura e da política, como travar as guerras obscuras e levar o lucro através da esquerda enquanto marca.   

Pois não há fenômeno mais pervertido do que este: uma esquerda que é marca de si mesmo, um empreendimento que não tem medo de fazer seu nome. No fundo, não é o jogo entre esquerda e direita que se trava para os NINJA. Parte dos que se declaram contra os projetos de lei nefastos sobre o corpo da mulher, há um tempo atrás integravam a campanha de Marina Silva, deusa da Natura! 

Mas o que importa mesmo:  tudo acaba tangenciado pela concorrência do capital simbólico que os Ninjas procuram obter. Na cortina de fumaça destes guerreiros sem honra, pouco se disse sobre o que seria uma cobertura militante dos fatos (isso não interessa para ninguém do jornalismo, seja industrial, seja pós-industrial). O modo como os NINJAs se relacionam com os movimentos que registram é extremamente questionável. Bruno Torturra chega a defender um olhar sem comprometimento, de imagens-denúncia dos movimentos em luta. As transmissões são longas e chatas – o próprio Torturra declarou isso. Um mídia-ativismo mesclado a jornalismo sem trabalho algum de reflexão. Afinal, como sempre: é o outro que deve trabalhar (isto é o tal “pós-industrial”). A imagem fala por si (como no antigo princípio de neutralidade do jornalismo). De modo que, se você é a favor do movimento, a imagem tem um significado; se é contra, outro. No fim das contas, nada se altera a partir do relato. Todas as partes ficam satisfeitas. E os NINJAs saem limpos vendendo sua marca: a imagem instantânea de cenas de conflito. 

Isto diz muito da posição dos NINJAs na estratégia FdE: como eles rastejam silenciosos nas sombras deste novo negócio – um capitalismo precarizado, seja no trabalho 24 horas em suas Casas FdE (com arquitetura mais próxima da pós-indústria têxtil que escraviza bolivianos e afins, do que de uma comunidade alternativa), seja na desvalorização do pagamento dos artistas que trabalham mais que Criolo doido (veja a matéria do Passapalavra). No interior disso, os NINJAs representam a base comunicativa desta nova estampa. 

Aliados ao empreendimento cultural FdE, os NINJA absorvem o impacto da comunicação. Comunicação & cultura: lugares explosivos para levar nossos imaginários em uma narrativa descomprometida. E eis o jogo de espelhos que une os dois empreendimentos. É como disse nosso pobre Capilé em recente entrevista ao Roda Viva: não se trata de uma mídia de massas, mas de uma “massa de mídias”: inversão propícia para um capitalismo em crise: no momento de sua agonia, nada melhor do que a multiplicação de suas armadilhas. Inovação que mimetiza, eis a grande oferta dos NINJAS às velhas najas da imprensa brasileira. 

Infelizmente, diante das recentes denúncias, os Ninjas lançam suas estrelas shurikens para todos os lados em defesa do seu feudo. Deprimidos ou raivosos, memetizam seus desgostos, nada falando da abertura de contas disto que se diz novo… Afinal, como sempre fizeram, vale mais captar com um celular os movimentos da grande massa, criar campanhas no facebook, do que entregar o ouro:  

Afinal, como sempre fizeram, vale mais tomar à frente das mídias das campanhas do facebook que, porventura, teriam algum público relevante (numericamente, claro): rachtags  variadas, memetizadas ao infinito pelos twiteiros escravizados (ou melhor, pagos com Cubecard!), segundo recentes denúncias, fazendo da imagem do movimento de protesto uma marca conectada ao lançamento NINJA. Vai que cola? 

Pouco importam os rachtags: Amarildos, Guarani-Kaiowás, AmoremSP, VetaDilma: impávidos, o que vale para os notáveis NINJAs é tornar tudo o mesmo caldo geral. Sorrateiros, não é que os guerreiros podem conquistar aquilo que o capitalismo há muito tenta obter: o coração e a mente da galera conectada? 

Guerrilha Simbólica X Propaganda 

Empreendimento muito diverso de movimentos mais reflexivos, que buscam a narrativa dos movimentos – como o CMI, Passapalavra, Vídeo Popular de Ação Direta – ou de redes de divulgação das lutas e campanhas como as Mães de Maio e o Cordão da Mentira, Rede 02 de Outubro. Movimentos que denunciam a  escravidão e o extermínio pós-industriais. 

No meio disso tudo, não devemos nos ater aos detalhes conhecidos das críticas da velha imprensa aos NINJA. Na hora do bote, Najas e NINJAs chegarão a um entendimento. 

Aliás, já é tempo de não sermos mais reféns de estratégias miúdas dos jogos de guerra da contrainformação. Nada mais contrário à energia criativa que tanto precisamos do que ficar entre uma ou outra bandeirola, seguindo os caminhos seguros, sem os riscos da mudança radical que as ruas demandaram. 

Entretanto, e para além disso, o problema é como sair da armadilha e criar um canal de informação que faça a esquerda se reconhecer sem medo: saber narrar nossas próprias histórias, colocar à prova uma sensibilidade diversa. Despovoar nosso imaginário da ordem privada  das logomarcas sinistras para encontrar uma nova constelação.  Fazer uma guerrilha simbólica não é abraçar o primeiro comando de divulgação de ideias. Nada mais publicitário do que isso. Guerrilha simbólica não é consumo de imagens, mas produzir o próximo passo.