O Coletivo Cinefusão surge, no final de 2008, a partir da iniciativa de trabalhadores de diversas áreas - cinema, jornalismo, publicidade, artes cênicas, filosofia, arquitetura, fotografia -, empenhados em criar primeiramente uma rede colaborativa que pudesse dar conta da junção dessas linguagens e também da possibilidade de abarcar potencialidades em busca de produção artística independente, mas também de reflexões concretas acerca da sociedade. É principalmente sobre este último pilar de atuação política, que o grupo vem, atualmente, pensando o cinema, sempre vinculado a outras expressões artísticas e movimentos sociais.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Panfletos à direita: as tentativas de formação/manipulação ideológica da revista Veja

Em janeiro, a revista Veja lançou uma edição da revista em que há uma espécie de "teste de personalidade" do leitor. Trata-se do leitor responder algumas perguntas, sendo que cada uma delas possui uma pontuação positiva ou negativa. A pontuação positiva define aqueles que se encaixam no perfil da "raposa", a negativa do "ouriço".

Abaixo, antes mesmo de iniciar o questionário, a revista, de maneira pífia, prepara as respostas, definindo o que é bom, o que é ruim, além de citar personalidades que por sua vez desenvolveram sistemas de teoria que colocam em xeque a existência infinita da sociedade capitalista, moralista, etc. como o "tipo ruim".


Depois de todo o aquecimento, a pessoa responde às perguntas - a revista coloca de maneira distorcida, obviamente - divididas da seguinte forma: aquelas que se aproximam das teorias dos dois autores citados como "ouriços" são colocadas como pontuação negativa, e o contrário - a raposa - como bom.






sábado, 9 de fevereiro de 2013

Um carnaval oracular




O processo de expropriação da memória dos trabalhadores não poupa nada, sequer as palavras. A transmissão (corporal e oral) do samba, por exemplo, foi chamada de escola. Ocorreu, porém, o pior que poderia ocorrer às escolas de samba: tornaram-se instituições de ensino, “escolas de verdade”.

Alguns sabem que a razão íntima de toda instituição, no final das contas, é a tentativa de imobilizar processos históricos - num determinado estágio ideal do tempo. Com o perdão da baixeza, mas, dizem eles que... se melhorar estraga. Não é da vida real que estamos falando, obviamente.

A instituição de ensino “escola de samba” possui, ao menos, duas linhas pedagógicas. A primeira diz respeito à estrutura empresarial, o velho time is business; a segunda é a estrutura de colégio militar. Daí deriva o conhecido dualismo do mercado: glória, ou castigo físico; sucesso, ou humilhação; cidadania ou indigência, etc.

A comissão de frente, por exemplo, quando bem executada rende aplausos dos especialistas, fotos no jornal, entre outras coisas. Porém, não sabemos ao certo qual o preço de um simples escorregão em plena avenida. É como se, em meio ao público, houvessem fuzis apontados para o pobre mortal. O princípio do desempenho é fermento do espetáculo.

O carro abre-alas de uma das escolas que desfilaram ontem era um boneco enorme. Misterioso, vindo ao longe, desafiador, monstrengo, impôs ao público uma atmosfera de terror, por milésimos de segundos. Até que, ufa, recomeçou a batucada, recriando mais uma vez a ilusão...

Lembrei do cavalo de tróia. Considerado pelos troianos como um presente dos deuses, guardava a maldição no ventre. Assim funciona, ideologicamente, os enormes bonecos carnavalescos: dádiva oferecida ao povo, mas que, de repente, pode abrir-se à maneira de uma flor chamada Carandiru, revelando seu pólen: meia dúzia de policiais armados no intestino. E sabe-se lá que maldição...

O pressentimento continuou. Pude ver, então, o oráculo: a cabine privilegiada da Rede Globo, construída no alto e no meio da “passarela do samba”, de onde os “narradores” do desfile seriam os sacerdotes que comunicam a mensagem de Zeus-pai (o Capital), aos pobres mortais, nós.

Por falar nele (no deus-dinheiro), o samba enredo da Gaviões da Fiel será a propaganda. Quem sabe uma estratégia para trazer a marca de algum automóvel nos carros alegóricos, ou de um banco estatal, talvez. Outra escola, ontem, vestiu a bateria com fantasia de militares ingleses. Aqueles, de gorro grande e preto, que mais parece uma cabeleira, blusa vermelha, e que não se movem nunca.

Nos dois casos, portanto: empresa e forças armadas, de mãos dadas. Casamento perfeito entre forma e conteúdo. A hipérbole do espetáculo!

O samba vai ao paraíso.

Voltando ao oráculo. Quer dizer: aquela espécie de nave espacial iluminada por néon, que paira acima de nossas cabeças na “passarela do samba”. Pois bem: a confiar na mensagem cifrada dos sacerdotes que moram ali, a história terminaria aqui. Refiro-me a história dos humilhados, evidentemente. Eles dizem: o destino atual do samba é inevitável. Nada melhor poderia acontecer-lhe, e nada melhor acontecerá.

Por falar em história o narrador-sacerdote-chefe, Cléber Machado o nome dele, disse, num dado momento do desfile a seguinte pérola, reveladora dos desígnios míticos do Deus-pai: “a revolução de 64 ...”. Como? Referia-se ao golpe militar, bem entendido.

Engano? Logo a seguir, reiterou: “Mário Lago foi preso pela revolução de 64...”. Ora, como um comunista pode ser preso pela revolução? Aliás, esse mesmo “narrador”, falando da posição política do homenageado, disse apenas que, “Mário Lago, além de artista, era também político”. 

Bolas invertidas. Há outro aspecto do carnaval “oracular” que reforça a adesão total e definitiva ao capitalismo. Refiro-me ao critério na escolha dos temas. É que, no caso, não existem critérios. Chegamos no cume mais alto da história humana.  Assim, do ponto privilegiado do presente perfeito e inigualável, temos, ao nosso dispor, toda a história humana e o melhor de tudo: limpa de contradições.

História em liquidação, queima de estoque: uns falam da propaganda, outros falam do vinho, Mário Lago, a roda, João Nogueira, Revolução de 1964, o parafuso, a invenção da roda, história do estilingue, etc. É um bazar imenso. Mas essa aleatoriedade na escolha do tema (oposta a uma perspectiva épica), traduz, na verdade, a versão dos vencedores sobre a história.

Uma nota pedagógica.

Esta mágica de quinta categoria não é praticada apenas por carnavalescos. Em outras áreas do “conhecimento” ela aparece. Por exemplo, no campo da historiografia sobre a “história do comunismo” (isto é, dos partidos comunistas, já que o comunismo nunca existiu).

Eric Hobsbawm denunciou o procedimento, utilizado por alguns historiadores que trataram sobre o comunismo na Inglaterra. O excesso de dados, estatísticas, etc., diz Hobsbawm, servia para mascarar o verdadeiro conteúdo de um período histórico, isto é, a situação real do PC inglês nos anos vinte:

“É interessante ter-se 160 ou mais páginas sobre a atividade do partido comunista russo de 1920 a 1923, porém o fato essencial sobre este período é o que se encontra registrado no relatório de Zinoviev (...) em fins de 1922, onde se lê, sobre a Inglaterra: ”talvez em nenhum outro país o movimento comunista faça progressos tão lentos””.

Qual a serventia de dados e informações frias? O problema é técnico, e impõe a necessidade de uma mudança na própria função social da técnica. E o carnaval é um exemplo: por trás das escolas de samba estão os especialistas que concentram os meios de produção. As consequências desta expropriação, no longo prazo, são visíveis: o carnaval, ex-festa dos oprimidos (estética e politicamente falando), sofreu um giro de 360° graus, caindo nas garras do capital.

Questão de classe.

Descrever o conteúdo desse processo é relativamente fácil. Mas como expô-lo objetivamente, em todos os níveis? As relações de trabalho, a hierarquia, as operações financeiras, o crime organizado, etc. Por trás do espetáculo se esconde uma máquina de expropriação. Saber dela é pouco: é necessário compreender seu funcionamento, e, finalmente, destruí-la num contexto mais amplo de transformação.

Uma resposta lógica, no caso específico das escolas de samba, seria, naturalmente, o abandono do carnaval patrocinado, isto é, um carnaval que não necessitasse de patrocínio, - retornando, finalmente, para sua matriz: as ruas. Não seria absurdo que os trabalhadores, espontaneamente, tomassem a iniciativa.

Mas, logo adiante, seriam informados, pela polícia, de que lugar de carnaval é no sambódromo. É assim que as manifestações artísticas dos trabalhadores ficam expostas à cisão da sociedade da mercadoria, que rasga e segmenta, ao meio, o próprio espaço urbano.

Ou seja: é assim, por conseguinte, que a questão da “cultura popular” depende, também, da organização política da classe trabalhadora. A ideia plausível, digamos, de que as escolas de samba, ou “comunidades”, amanhã possam confundir-se com os conselhos operários, soviets, é agradável de ouvir.

Enquanto a banda não passa, o que podemos (e devemos) fazer é rir de toda esta imbecilidade administrada. Não é motivo de desespero, e sim de riso: sabemos qual o papel ridículo dos sacerdotes do capital. Os homens, amanhã, não terão a menor vergonha dos dias atuais, mas acharão neles um motivo eterno de riso...

O capitalismo é trágico, mas é também piada-pronta.

Para terminar, a letra do samba retratando a situação do malandro que, a bem dizer, personifica a situação atual do próprio samba:

O Malandro 2

O malandro, tá na greta
Na sarjeta, do país
E quem passa, acha graça
Na desgraça, do infeliz.  

O malandro, tá de coma
Hematoma, no nariz
E rasgando, sua bunda
Uma funda, cicatriz.

O seu rosto, tem mais mosca
Que a birosca, do Mane  
O malandro, é um presunto
De pé junto, e com chulé.

O coitado, foi encontrado  
Mais furado, que Jesus
E do estranho, abdômen
Desse homem, jorra pus

O seu peito, putrefato
Tá com jeito, de pirão
O seu sangue, forma lagos
E os seus bagos, estão no chão

O cadáver, do indigente
É evidente, que morreu
E no entanto, ele se move,
Como prova, o Galileu.  

(A composição é de Chico Buarque, mas o samba se popularizou, até onde sei, pela voz do João Nogueira)




terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Bloco Saci da Bixiga 2013 - O poder popular contra a opressão social




O Bloco Saci da Bixiga completa esse ano o seu terceiro carnaval apenas, mas já consegue arrastar uma pequena multidão atrás de suas marchinhas. No ano passado, foram mais de 3 mil foliões que seguiram o cordão. O bloco percorre as ruas do bairro do Bixiga sempre nos sábados de carnaval e esse ano o tema será: “O poder popular contra a opressão social”. Uma das suas principais características é que o bloco só toca músicas ao vivo com composições próprias e resgate de marchinhas antigas.

Serviço do Boco de Carnaval Saci da Bixiga:
Quando: Sábado de carnaval, 09 de fevereiro, das 16h às 24h.
Concentração: Na rua São Domingos (que fica fechada pelo CET para o bloco) esquina com a rua da Abolição.  
Percurso: rua São Domingos, rua Major Diogo, rua Santo Antônio, rua Manoel Dutra, rua Maria José, rua Conselheiro Carrão, rua Conselheiro Ramalho, rua Manoel Dutra, rua Major Diogo e retorna à rua São Domingos.
Tema: O poder popular contra opressão social.
Foliões: Mais de 3 mil.
Adereços: Touca vermelha do saci e camiseta amarela do bloco que podem ser adquiridas no Ecla (Espaço Cultural Latino Americano).
Cores: Amarelo e Vermelho são as cores do bloco.
Repertório: Marchinhas próprias e resgate de antigas sempre tocadas ao vivo.
Ensaios: Terças, quintas, às 19h, e sábados, às 17h, no Ecla.

O ECLA fica na rua da Abolição, 244, Bixiga.
Para mais informações pelos tels: (11) 3104 7401 com Claudimar ou Vilma, ou ainda, pelo celular (11) 99616 2522 com Marco Ribeiro.

Gullar à deriva!



Ferreira Gullar tenta apalpar, às escuras, o limite de sua própria consciência. Talvez falte até mesmo as paredes onde se apoiar: a defesa aberta do capitalismo, afinal de contas, parece não ter limites.

Mas trata-se, no caso de Gullar, de uma defesa frágil: serve-lhe muito mais o famoso provérbio do fim do mundo em barranco, para morrer encostado. 

A podridão é tão franca que o velho burguês sarcástico dá lugar, aqui, ao ressentimento digno de pena: Ferreira Gullar emburreceu tanto politicamente que não é capaz de perceber que mesmo os defensores do capitalismo, há mais de um século, deixaram de falar seriamente.

Explico: ontem, 03 de fevereiro, o poeta escreveu um texto para o jornal Folha de São Paulo, com o seguinte título: "não basta ter razão". O objetivo é desancar de uma vez por todas o marxismo.

O êxito é alcançado: de fato, qualquer marxista atento que leia o artigo perderá as cadeiras. Mas não pela verdade do conteúdo exposto, e sim pela burrice do autor. 

Quem é capaz de persuadir alguém, através de argumentos racionais, de que o capitalismo é bom?

Nenhum argumento atualmente é capaz de tal proeza. As pessoas não são ludibriadas por argumentos bem construídos. Não se transmite a ilusão através de ideias bem encadeadas: não que elas sejam inúteis, mas são insuficientes. 

É preciso um operário sem dedo! Ou coisa que o valha.

Ao menos no título do artigo há coerência: "não basta ter razão". Como pode alguém admitir, de saída, que não tem razão? O que significa isto? Nada, absolutamente nada, para um religioso.

"Que a sorte me livre do mercado", diz um verso num dos poemas de seu último livro. 

Religiosa é a relação de Gullar com o mercado: ele só não percebe que existe uma diferença entre cordeiro e pastor. O cordeiro é incapaz de defender suas preferências religiosas. A única coisa que ele assimilou do pastor foi a necessidade de acreditar. Nada mais.

Quando pressionado a falar, o cordeiro fica desajeitado, escolhe mal as palavras, é desequilibrada sua entonação. Daí, pronto, esbraveja. Eis aí o novo Ferreira Gullar: um homem que aprendeu (como ele mesmo insinua) a necessidade de defender o capitalismo, mas não as "razões" dessa defesa, isto é,  o jeito "certo" de fazê-lo. 

Podemos compará-lo a Marinetti, que se converteu ao fascismo italiano. Tornou-se um inimigo perigoso. Nesse caso, nós não devemos respeitá-lo, se bem que não se trata de respeito. Gullar é herdeiro de Marinetti, porém bem mais inofensivo. 

Suas mãos tremem demais. Não apalpam a carne. Oferece os dedos para o cumprimento. Chegará dia em que não poderá pegar mais na caneta. 

Que tipo de recuo é este? 

As palavras, finalmente, serão substituídas por borrões pré-alfabéticos. 

Porque, como diz Drummond: "... o medo, com sua física, / tanto produz: carcereiros, / edifícios, escritores, / este poema; outras vidas. / Tenhamos o maior pavor, / os mais velhos compreendem. / O medo cristalizou-os. / Estátuas sábias, adeus. / Adeus, vamos para frente, / recuando de olhos acesos. / Nossos filhos tão felizes... / fiéis herdeiros do medo, / eles povoam a cidade. / Depois da cidade, o mundo. / Depois do mundo, as estrelas, / dançando o baile do medo".

Mas a história, talvez, dirá a homens velhos como Ferreira Gullar: "Estátua sábia, adeus!". 

(Abaixo, o texto na íntegra, para que cada um tire suas próprias conclusões).


Não basta ter razão. 

03/02/2013

Entendo que alguém, que durante toda a vida tenha tido o marxismo como doutrina e o comunismo como solução dos problemas sociais, se negue, a esta altura da vida, a abrir mão de suas convicções. Entendo, mas não aprovo. Tampouco lhe reconheço o direito de acusar quem o faça de "vendido ao capitalismo." Aí já é dupla hipocrisia.

Tornei-me marxista por acaso, ao ler o livro de um padre católico sobre a teoria de Marx. É verdade que o Brasil daquela época estava envolvido na luta pela reforma agrária e pelo repúdio ao imperialismo norte-americano, que se assustara com a Revolução Cubana.

Confesso que meu entusiasmo por um Brasil concretamente mais democrático não me permitiu examinar, ponto por ponto, a doutrina marxista, para nela descobrir equívocos e propósitos inviáveis.
Não ignorava, claro, as acusações feitas ao regime soviético, mas atribuía aqueles erros à fase stalinista que, após a denúncia feita por Khruschov, havia sido superada. A verdade é que essas questões --sobretudo depois que os militares se instalaram no poder-- não estavam em discussão: o fundamental era derrotar a ditadura e avançar na direção do regime socialista.

Com o AI-5, em dezembro de 1968, a repressão aos comunistas e opositores do regime militar intensificou-se, multiplicando-se os casos de tortura e assassinatos.

Tive que deixar o país e ir para a URSS. Convivendo ali apenas com militantes brasileiros e de outros países, pouco pude conhecer da vida dos cidadãos soviéticos, a não ser daqueles que pertenciam à máquina oficial.

De Moscou fui para Santiago do Chile, aonde cheguei poucos meses antes da queda de Allende.
Mergulhado no conflito ideológico que opunha as duas potências antagônicas -URSS e EUA-, não me foi possível ver com maior clareza o que de fato acontecia nem muito menos os erros cometidos também por nós, adversários do imperialismo norte-americano. Isso se tornou evidente para mim, anos mais tarde, quando o sistema socialista ruiu como um castelo de cartas.

Tornou-se então impossível não ver o que de fato ocorria. O regime soviético não ruíra porque um exército inimigo invadira o país. Pelo contrário, foi o povo russo mesmo que pôs fim ao sistema e o fez porque ele fracassara economicamente.

Não obstante, muitos companheiros se negavam a aceitar essa evidência. Passaram a atribuir a Gorbatchov a culpa pelo fim do comunismo, como se isso fosse possível. A verdade é que as pessoas, de modo geral, têm dificuldade em admitir que erraram, que passaram anos de sua vida (e alguns pagaram caro por isso) acreditando numa ilusão.

E, além do mais, é compreensível, uma vez que o socialismo propunha derrotar um sistema econômico injusto e pôr em seu lugar outro, fundado na igualdade e na justiça social.

É verdade também que em alguns países onde o socialismo se implantara muito foi feito em busca dessa igualdade. Não obstante, algo estava errado ali, já que o regime era obrigado a coibir a livre opinião e impedir que as pessoas saíssem livremente do país. A pergunta é inevitável: alguém, que vive no paraíso, quer a todo custo fugir dele?

Tampouco o regime capitalista é o paraíso. Longe disso. A diferença é que, dele, podemos sair se o decidirmos, criticá-lo e, pelo voto, mudar o governante. Mas não é só isso. O capitalismo é dinâmico e criativo porque é a expressão da necessidade humana de tudo fazer para melhorar de vida.

Neste momento mesmo, milhões de pessoas estão inventando meios e modos de criar empresas, realizar empreendimentos que lhes possibilitem lucrar e enriquecer.

Como poderia competir com isso um regime cujo processo econômico era dirigido por meia dúzia de burocratas, os quais, em nome do Partido Comunista, tudo determinavam e decidiam? Isso conduziu o comunismo ao fracasso e levou a China a tornar-se capitalista para escapar do desastre que pôs fim ao sistema socialista mundial.

O capitalismo, por sua vez, é o regime da exploração e da desigualdade, precisamente porque se funda no egoísmo e na busca do lucro máximo. Se deixarmos, ele suga a carótida da mãe.

O grande problema, portanto, é este: como estimular a iniciativa criadora de riqueza e, ao mesmo tempo, valer-se da riqueza criada para reduzir a desigualdade. 

(Ferreira Gullar)




segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Como é duro trabalhar


    

Fui caminhando, caminhando, 
À procura de um lugar.

Com uma palhoça, uma morena 
E um cantinho pra plantar.
Achei a terra, vi a casa, 
Só faltava capinar. 

Mas sem o colo da morena 

Quem sou eu pra me abusar...

E lá vou eu... 
Paro aqui, paro acolá. 

E lá vou eu... 

Como é duro trabalhar.

E vou cantando, tiro moda, 
Faço roda no arraial. 

Busco a morena de olho em calda, 

Cheiro de canavial.

E bico essa, bico aquela, 
Vou bicando sem parar. 

Mas não tem mais moça donzela 

Que mereça eu me abusar.


(Toquinho/ Vinicius)


segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Show de Lançamento - Revista e CD da Cia Antropofágica




SHOW DE LANÇAMENTO
Revista Bucho Ruminante nº0 e CD de Repertório dos 10 Anos de Antropofágica

Amanhã, terça-feira, 29 de janeiro, às 21h

Como parte da Mostra de 10 Anos do grupo, a Antropofágica convida a todos para o Show de Lançamento do CD de Repertório e da Revista Bucho Ruminante nº0, que traz além de artigos e entrevistas com colaboradores, um Dossiê com a trajetória do grupo.
O Show acontecerá no Espaço Pyndorama nesta terça-feira, 29 de Janeiro de 2013, às 21h.

Para ouvir duas amostras das músicas do CD:
https://soundcloud.com/antropofagica/maquinas
https://soundcloud.com/antropofagica/vejamvoces

Espaço Pyndorama 
Rua Turiassú, 481, Perdizes, São Paulo (Próximo ao metrô Barra Funda)
Reservas e informações: 11 3871-0373
Email: contato@pyndorama.com

sábado, 19 de janeiro de 2013

Os Mortos - Ferreira Gullar

os mortos vêem o mundo
pelos olhos dos vivos

eventualmente ouvem,
com nossos ouvidos,
certas sinfonias
algum bater de portas,
ventanias

Ausentes
de corpo e alma
misturam o seu ao nosso riso
se de fato
quando vivos
acharam a mesma graça

 Ferreira Gullar

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

10 anos de Antropofágica – Mostra de Repertório – Janeiro/2013











Como atividade comemorativa dos 10 anos de grupo, a Antropofágica realiza mostra com alguns de seus trabalhos.

Para ver o arquivo de divulgação da mostra, clique aqui.

Sábado, 19 de janeiro
15h – Terror e Miséria no Novo Mundo – Parte I: Estação Paraíso
17h – Entre a Coroa e o Vampiro – Terror e Miséria no Novo Mundo – Parte II: O Império
20h – Terror e Miséria no Novo Mundo – Parte III: A República

Terça-feira, 22 de janeiro, às 20h
Via Crucys à Brazyleira

Quarta-feira, 23 de janeiro, às 20h
Zumbi or not Zumby

Quinta-feira, 24 de janeiro, às 21h
A Tragédia de João e Maria: Teatro da Deformação

Sexta-feira, 25 de janeiro, às 21h
Kabaré Antropofágico

Espaço Pyndorama
Rua Turiassú, 481, Perdizes, São Paulo (Próximo ao metrô Barra Funda)
Reservas e informações: (11) 3871-0373. Estacionamento conveniado no local.
Email: contato@pyndorama.com
Todas as apresentações são gratuitas e fazem parte do projeto Liberdade em Pi(y)ndorama, contemplado pela Lei Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

FRANZ KAFKA (em carta a Oskar Pollak)



“No fim das contas, penso que devemos ler somente livros que nos mordam e piquem. Se o livro que estamos lendo não nos sacode e acorda como um golpe no crânio, por que nos darmos o trabalho de lê-lo? Para que nos faça feliz, como diz você? Seríamos felizes da mesma forma se não tivéssemos livros. Livros que nos façam felizes, em caso de necessidade, poderíamos escrevê-los nós mesmos. Precisamos é de livros que nos atinjam como o pior dos infortúnios, como a morte de alguém que amamos mais do que a nós mesmos, que nos façam sentir como se tivéssemos sido banidos para a floresta, longe de qualquer presença humana, como um suicídio. É nisso que acredito.”

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Sem ligar para convenções

 Matéria Original: http://www.brasildefato.com.br/node/11595

 Sem ligar para convenções


“Nós nos apropriamos de produtos da indústria cultural, mas sem nos apropriarmos positivamente da ideologia que eles carregam. Trata-se de uma apropriação crítica”
16/01/2013

Eduardo Campos Lima,
de São Paulo (SP)

Historicamente, até que os trabalhadores pudessem reivindicar como válidas as formas artísticas que desenvolveram para tratar dos assuntos de seu interesse, todas as obras eram avaliadas com base em critérios estabelecidos pela burguesia. No teatro, as peças tinham que se fundamentar unicamente no diálogo entre personagens que viviam em um universo totalmente autônomo. Diante do público, desenrolava-se uma história com começo, meio e fim, na qual as personagens – dotadas de profundidade psicológica – colocavam em conflito suas vontades e decisões. Quando uma encenação não conseguia obedecer a todas essas exigências, porque tratava de assuntos que extrapolavam a esfera das decisões individuais, por exemplo, não era considerada bom teatro. Nada disso tem valor hoje em dia, uma vez que trabalhadores e artistas consequentes lutaram duramente para conquistar o direito de tratar de política no teatro. Mas muitos críticos e produtores continuam pautando-se por esses conceitos.
    
“Colocamos Maiakovski e Chaves dentro do mesmo espetáculo”,
aponta a atriz Ruth Melchior - Foto: Reprodução
       

A Cia. Antropofágica, que fica em cartaz até 27 de janeiro com Terror e Miséria no Novo Mundo Parte III, rejeita até as últimas consequências as convenções da burguesia para a arte. A exigência de unidade de estilo é a mais desrespeitada pelo grupo, que lança mão de inúmeras linguagens para debater temas ligados à vida política brasileira, de 1889 para cá.

Última parte da trilogia Liberdade em Pi(y)ndorama, iniciada em 2008 – que abordou em seus dois segmentos iniciais o período colonial e o Império –, a peça tem como assunto a luta de classes no Brasil republicano e seus desdobramentos no sistema político, na sociabilidade e na cultura. “A peça é dividida em quadros: cada um remete a diferentes linguagens e exige um tipo diferente de interpretação. Não há um ator principal nem uma fábula única”, explica o diretor Thiago Vasconcelos.

Três eixos

A encenação tem três eixos principais, que se interpenetram a todo instante. O primeiro procura reconstituir os fundamentos da teoria contrarrevolucionária brasileira. O procedimento escolhido para materializar a ideologia da elite é a autópsia: médicos eugenistas promovem um exame do corpo da República, identificando nele células cancerígenas que precisam ser extirpadas – os movimentos sociais. “Por meio da terminologia médica, abordamos o projeto da elite de eliminação dos levantes populares”, aponta Vasconcelos. As teorias científicas racistas do começo do século 20 são relacionadas às políticas higienistas praticadas hoje em dia.

Outra camada da peça aborda as relações entre a construção da República brasileira e o campo da disputa simbólica, dominado pela indústria cultural. “São quadros que, ao mesmo tempo em que falam sobre a situação histórica do Brasil a partir de alegorias, fazem crítica à pasteurização operada pela indústria cultural”, afirma o diretor. Um recurso frequente é a paródia, cujos alvos podem ser desfiles de escola de samba ou filmes de faroeste.

Por fim, há o eixo das alegorias – como o Vampiro, que personifica o próprio capital –, as quais perpassam todos os quadros, de maneira a comentá-los, criticá-los ou relacioná-los à totalidade social. Em todos eles, há o uso de diferentes linguagens. “Usamos de expedientes como delírios poéticos, documentário, teatro de revista, rapsódia e texto autoral, que pode ser tanto diálogo como textos poéticos, produzidos por nós ou montados a partir da obra de Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Maiakovski”, enumera Vasconcelos.

Maiakovski e Seu Madruga

Como o grupo não acata a normatização tradicional do teatro, também repudia as barreiras entre arte erudita e cultura popular, tradicionalmente estabelecidas pelas elites para desqualificar as linguagens artísticas dos trabalhadores. Recusa-se ainda a dialogar apenas com acadêmicos, de modo que toma emprestados gêneros e elementos midiáticos. “Optamos por não cortar o fio das referências populares, as quais hoje vêm da indústria cultural. Dialogamos com o filme Matrix e o seriado Os Simpsons, mas também com a obra de Schoenberg”, argumenta Vasconcelos.

“Colocamos Maiakovski e Chaves dentro do mesmo espetáculo”, aponta a atriz Ruth Melchior. As personagens do seriado Chaves aparecem em um quadro sobre gentrificação. “É uma cena em que a vila do Chaves é destruída para a construção de um condomínio de luxo – um tema da pauta política contemporânea”, explica o diretor Vasconcelos. Enquanto Seu Madruga e os outros moradores do cortiço são despejados, são projetadas em um telão imagens de programas televisivos em que tropas de polícia pacificadora e atores de novela aparecem lado a lado.

Também a alegoria do capital, o Vampiro, vincula-se a elementos da indústria cultural. “Não se trata de uma escolha gratuita colocar um vampiro na peça. Marx diz que o capital é como um vampiro que suga os trabalhadores. Mas essa é uma referência da atualidade, ao mesmo tempo. Os jovens estão acompanhando histórias de vampiros no cinema e na televisão. Queremos dialogar com as pessoas que estão em contato com isso”, analisa Vasconcelos. O grupo opta, dessa forma, por brincar com referências canônicas e não canônicas, com obras que são consideradas artísticas e com produções tidas como lixo cultural. “Nós nos apropriamos de produtos da indústria cultural, mas sem nos apropriarmos positivamente da ideologia que eles carregam. Trata-se de uma apropriação crítica”, completa o ator Danilo Santos.

Construção coletiva
A encenação foi inteiramente construída de forma coletiva. “Por mais que, às vezes, apareça um texto de um ator ou do diretor, tem sempre algo que foi construído por todos. A presença do ator em cena se faz continuamente”, afirma Ruth Melchior.

Os quadros finais têm esse aspecto exacerbado. “É quando o grupo toma partido e demonstra sua posição, por meio do que chamamos de epifanias revolucionárias”, explica Thiago Vasconcelos. A peça termina com uma Santa Ceia, da qual tomam parte todos os monstros alegóricos e as diversas personificações da burguesia, que degustam o corpo da República. “É aí que mostramos desejos e imagens de como o mundo poderia ser”, conta. Tem início uma longa e festiva montagem de versos de Maiakovski, Oswald de Andrade e da Internacional, selecionados e encadeados por todos os membros do grupo. “A Cia. Antropofágica é um grupo de esquerda – de diversas variantes de esquerda. A composição exige que procuremos contemplar a todos, portanto sempre buscamos textos que tenham um caráter anticapitalista, porque o anticapitalismo é consenso entre nós. A discussão parte daí”, conclui Vasconcelos.

A diversidade na formação do grupo talvez seja uma causa da riqueza de formas que a Cia. Antropofágica emprega em suas encenações. O grupo não se contenta com a tradição do teatro político da esquerda – procura, ao contrário, refuncionalizar todos os elementos de que lança mão, de modo a dar-lhes sempre o sentido político que julga necessário.

Serviço
Terror e Miséria no Novo Mundo Parte III
(Liberdade em Pi(y)dorama – A República)
Direção: Thiago Vasconcelos
De 12 a 27 de Janeiro, sábados às 20h e domingos às 19h
Ingressos gratuitos
Espaço Cultural Pyndorama – 40 lugares
Rua Turiassú, 481, Perdizes – São Paulo (SP) – próximo ao metrô Barra Funda.
Contato: (11) 3871-0373 – contato@pyndorama.com

Além da peça, que fica em cartaz até o fim do mês, a Cia. Antropofágica dá início, no dia 19 (sábado), a uma mostra de seu repertório, comemorando 10 anos de atividades.
Programação
Sábado, 19 de janeiro:
15h – Terror e Miséria no Novo Mundo – Parte I: Estação Paraíso
17h – Entre a Coroa e o Vampiro – Terror e Miséria no Novo Mundo – Parte II: O Império
20h – Terror e Miséria no Novo Mundo – Parte III: A República
Terça-feira, 22 de janeiro, às 20h: Via Crucys à Brazyleira
Quarta-feira, 23 de janeiro, às 20h: Zumbi or not Zumby
Quinta-feira, 24 de janeiro, às 21h: A Tragédia de João e Maria: Teatro da Deformação
Sexta-feira, 25 de janeiro, às 21h: Kabaré Antropofágico

Interferência (Ferrez) - Entrevista (Eduardo - Facção Central)






sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

A PALAVRA DOS MORTOS

texto de Jean Wyllys, publicado originalmente em http://www.brasil247.com/+9o5k2


Diz-se que uma imagem vale mais que mil palavras, mas há palavras que mil imagens não traduzem: preconceito é uma delas. Ao contrário: as imagens, sejam quantas forem, podem reforçar aquilo a que se refere a palavra preconceito. Esta palavra também não pode ser traduzida por números nem estatísticas. Estes, porém, sempre atraem ou despertam palavras.

Ontem, por exemplo, no rastro da divulgação, nos principais portais de notícias, das estatísticas do Grupo Gay da Bahia acerca dos homicídios motivados por homofobia (o conjunto dos atos – inclusive dos atos linguísticos - apoiados no preconceito social anti-homossexual, um dos muitos preconceitos socialmente partilhados), vieram muitas palavras: a palavra dos leitores da notícia expressa em comentários publicados logo abaixo da mesma; a palavra dos intelectuais conservadores; as palavras dos políticos reacionários à esquerda e, principalmente, à direita; a palavra dos fundamentalistas cristãos católicos e evangélicos; e até a palavra de um famoso humorista que se diz "politicamente incorreto", mas que, ao fim e ao cabo, apenas põe seu "humor" a serviço da correção e da ortopedia moral que há séculos constrangem e estigmatizam, com violência verbal e/ou física, aqueles "desviantes" da ordem do macho-adulto-branco-heterossexual-e-cristão (ou seja, as mulheres, os negros, os judeus, os indígenas, o povo-de-santo, os gays, as lésbicas, as travestis e transexuais e as pessoas com deficiências; principalmente os mais pobres dentre esses).

Pode-se dizer que as palavras deles (dos leitores da notícia, dos intelectuais conservadores, dos políticos reacionários, dos fundamentalistas cristãos e do humorista) são quase as mesmas - com variações que dependem do grau de instrução e da posição social que cada um ocupa – e têm o mesmo objetivo: silenciar LGBTs e reprimir sua organização política por meio de interpretações deliberadamente equivocadas das estatísticas divulgadas e da conseguinte desqualificação das mesmas.

Não repetirei aqui todos "argumentos" dessa gente – até porque seu preconceito ou má fé não precisa de mais espaço do que já tem! – mas vou destacar um que é recorrente: a estatística de 336 homicídios em 2012 motivados por homofobia (numa proporção de um homossexual morto a cada 26 horas) seria irrelevante já que, no mesmo período, a taxa de homicídios em geral é de mais 50 mil. Ora, os porta-vozes desse "argumento" se não agem de má fé são limitados mesmo. As estatísticas não dizem apenas que 336 homossexuais morreram ano passado. As estatísticas dizem que 336 homicídios motivados por homofobia foram perpetrados em 2012 (o que representa um aumento de 26% em relação a 2011). Ou seja, 336 seres humanos foram assassinados em decorrência de sua orientação sexual ou identidade de gênero; foram mortos apenas porque eram gays, lésbicas, travestis e transexuais ou em circunstâncias em que sua orientação sexual e/ou identidade de gênero contribuiu/contribuíram decisivamente para o homicídio. Esses crimes não podem, portanto, ser dissolvidos nas taxas de homicídios em geral cujas motivações não são a orientação sexual nem a identidade de gênero.

Não conheço até o momento nenhum caso de homem que tenha sido cruelmente assassinado porque era heterossexual, ou seja, apenas pelo fato de que gostava de "comer mulher"; tampouco conheço um caso em que um homem tenha sido morto a pauladas por estar "vestido como homem". Mas posso citar centenas de casos de homens e mulheres que foram mortos apenas pelo fato de gostarem de transar com pessoas do mesmo sexo; e posso citar milhares de caso de pessoas que foram mortas apenas porque estavam vestidas de acordo com sua identidade de gênero. Esses crimes são considerados crimes de ódio porque vitima toda a comunidade à que pertence suas vítimas. Aliás, o fato de se pertencer a essa comunidade é a razão última do crime. Ora, será preciso desenhar para que essa gente entenda o que querem dizer as estatísticas?! Se uma imagem vale mais que mil palavras, talvez eu tente me aventurar pelo desenho pra ver se consigo sensibilizar esses caras (na hipótese de algum deles ser apenas equivocado e não estar agindo de má fé)...

E, por falar em imagem, a que ilustra este texto quer valer mais que as mil palavras não ditas pelo morto retratado. Perdoem-me os mais sensíveis, mas, numa sociedade devota da imagem como a nossa, "educada" pela televisão e pela publicidade, a foto chocante de um homicídio brutal motivado por homofobia talvez sensibilize mais as pessoas do que todas as palavras já ditas até aqui...

Travesti assassinada em Simões Filho, Bahia


Por mais que eu me esforce, não conseguirei expressar as palavras não ditas pelos mortos... Aquelas palavras que sucumbem aos números frios das estatísticas e à tagarelice dos canalhas insensíveis à desgraça alheia; palavras que expressariam o horror diante da crueldade que põe fim às vidas e a dor insuportável dos que perderam seus entes queridos para a violência.

Quem sabe se com essa imagem principalmente o humorista "politicamente incorreto" e sua claque cruel e sem pensamento mas de riso frouxo não percebam que não se pode fazer piada da dor dos outros? Sou um homem esperançado! Mas sou também um ativista: não fico apenas à espera de dias melhores, atuo para que eles cheguem logo; por isso mesmo, questionei e questiono os insensíveis e opressores, mesmo que isso implique em insultos impublicáveis e em injunções ao silêncio do tipo "você tem que trabalhar para o povo brasileiro e não para a sua classe" – injunções que nada mais são do que frutos da ignorância sobre o meu trabalho como parlamentar; da preguiça de se informar mais e melhor; da despolitização em geral e da falta de raciocínio lógico, uma vez que a minha "classe" pertence ao povo brasileiro.

De mais a mais, não vejo ninguém reclamar dos parlamentares ruralistas nem dos evangélicos por defenderem apenas seus interesses em casas legislativas; logo, ainda que eu atuasse para defender só os interesses de LGBTs (o que não é verdade; qualquer pesquisa básica mostrará isso), ainda assim eu estaria honrando o mandato que conquistei no jogo democrático. Não há insulto ou injunção ao silêncio que me detenha ou que me impeça de trazer, à luz, a palavra dos mortos!



segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Tímidos, Recatados, Panfletários [...]

Cada texto publicado, cada debate realizado, cada questão ou pensamento levantado, em nosso tempo - falo do fim do século 20 até os tempos de hoje -, enquanto substância crítica ao mundo (capitalista) que vivemos, mas que ainda se dedicam ao debate das partes, são recorrentes. Mas esta tal recorrência se justifica não pela diversidade, e pluralidade sadia de pontos de vista, mas primeiro porque essas partes do todo são elementos determinantes para o funcionamento dele  -  nascidas e possíveis apenas a partir do universal, de sua superestrutura; por conseguinte, essas partes, na sociedade capitalista são absolutamente fragmentadas, sem perder sua relação de determinação com seu deus ex machina; deste modo, são colocados como problemas mais isolados. No entanto, os mais astutos, entendem que não passa de farsa. No atualíssimo momento, vemos este movimento, no Brasil - não confundimos então que tal movimento não é histórico e universal, enquanto característica matriz do capitalismo -, acontecendo como uma legitimação das lutas individuais, ou de grupos ultra-setorizados, cujo o motor está na ideia de "participação do cidadão nas decisões de sua pátria". Isto só  é possível a partir do momento em que o governo federal é "liderado pelo PT", que, diga-se de passagem,  na luta das partes - e de classes - desapropriou menos terras, e deu passos muito menores, que Sarney, e FHC, por exemplo:

Abre parênteses:

" CC: A reforma agrária é uma prioridade do governo Lula? Anos se passaram sem a atualização dos índices de produtividade da terra (agora, finalmente, minimamente modificados), ainda há pouco se assinou a MP 458, batizada de "MP da Grilagem" etc. etc. Não tem ficado cada dia mais claro que há uma postura evidente de comprometimento com o agronegócio?
 
MS: Temos clareza de que a reforma agrária, no governo Lula, ficou para trás atropelada pelo agronegócio, e nós percebemos isso por uma série de coisas, começando pelo avanço nos últimos anos das transnacionais no país. Elas não se apropriam só da terra, tomam conta de toda a linha de produção do campo, da terra, mas também das sementes, da água, toda a cadeia produtiva do campo. Sem contar os investimentos que essas empresas e os fazendeiros mais atrasados, do latifúndio, têm recebido do governo federal, através do BNDES e de vários programas nos últimos anos. O agronegócio produz 120 bilhões de reais, mas o governo injeta 97 bilhões para isso, em especial pelo BNDES. Então, o que o agronegócio produz para a sociedade?
 
Além disso, o agronegócio usa agrotóxicos, venenos e ainda faz propaganda disso, como se fosse algo bom. Hoje o Brasil é campeão de consumo de veneno no mundo, essa indústria movimenta 7 bilhões de reais por ano. Não há preocupação ambiental, com as derrubadas das florestas, com a apropriação da biodiversidade, e isso tudo durante o governo Lula. 
Há também os transgênicos, estão trabalhando pra empurrá-los. E é uma política patrocinada pelo governo. Então, não há espaço para a reforma agrária.
 
Lula tem falado que fez a maior reforma agrária, mas o que ele fez foi regulamentação fundiária - que tem que ser feita também, mas não se trata de reforma agrária, porque não descentraliza a terra, não mexe na estrutura fundiária. Essa política de reforma agrária é só para evitar os conflitos. O governo federal quer fazer reforma agrária sem conflito, mas isso não existe, uma política de reforma agrária no Brasil, país que mais concentra terra no mundo, tem que ter ofensiva, tem que ter disputa pela terra. Isso que o governo faz é política paliativa, assistencialista, que não destrói o latifúndio, não democratiza, não descentraliza."

(Coordenadora nacional do MST Marina dos Santos em entrevista para o Correio cidadania, após a morte de mais um militante do Movimento de Trabalhadores Sem Terra. Assassinado pela polícia militar do Estado)

Fecha parênteses.

Este lugar, comumente chamado de "cidadania" pelos reformistas e traidores da classe trabalhadora, tem como principal característica a cooptação como força motriz do capitalismo atual, motivada não mais pelo grande capitalista do começo do século 20, mas por  títeres - por diversos momentos ventríloquo - da própria classe trabalhadora. O que por sua vez, dá origem a uma nova camada da eterna volta ao debate das partes: aqueles que teoricamente deveriam se organizar enquanto classe combatente divergem sobre os mais específicos pontos, cabe entender até onde são pontos determinantes de um "racha, ou se não passam de "perfumaria".

Esta seria um introdução para o assunto principal - mesmo achando que o texto será menor que esta primeira parte - de como os artistas-militantes engendrados por essa orgia ideológica - muito mais complexa, é  verdade - produzem sentido nos dias de hoje, seja quais forem suas poéticas, e  linguagens.

Acredito que o primeiro ponto seja o mais importante e comum de todos: Até onde a arte efetivamente transforma a realidade? 

Na medida de em que há humanidade, o homem existe em sociedade, cada ser humano, o mais isolado que seja, vive pois a sua volta há frutos, inclusive ele mesmo, da elaboração e transformação da natureza. O artista, por sua vez, nasce modificando a natureza em primeiro momento, depois olhando sua transformação  invertendo pontos-de-vista, expondo relações, materializando a imaginação, as ideias que quando estão, única e simplesmente na cabeça, não existem até que ganhem forma. Para isto este homem, artista, pois ambos são naturalmente a mesma coisa, vive num espaço e num tempo - histórico e material. Seu ponto de vista e sua forma de estar no mundo são determinados por suas relações, seus movimentos, suas escolhas, e ações dentro deste crivo espaço-temporal.

Ao passo que observa o mundo, suas modificações e pelo o que é regido, seu trabalho também se transforma. Produz obra boas, algumas resistentes ao seu tempo, algumas fugitivas ao seu tempo, apenas consideradas  depois da inexistência física-corporal do autor. 

A estética, então, de cada linguagem - independente da diversidade de ferramentas, procedimentos e poéticas que cada linguagem proporciona, mas que, sim, modificam seus objetos a partir de suas escolhas- é produto de como o mundo se encontra configurado em diversas épocas.

O século XXI, se configura de maneira bastante diferente ao anterior. Se olharmos atentamente para o fim do século XX, por exemplo, veremos uma produção cinematográfica, em sua retomada, com uma produção grande de filmes da boca do lixo, por exemplo, além de ícones do cinema novo que, em parte, começariam a enveredar politica-esteticamente, em sua atividade  específica e em sua participação critica como cidadão do mundo, e por sua vez no lugar onde ambas as coisas não mais se separam, "para o outro lado da força"(infelizmente, o mais forte). De qualquer forma,  a diversidade de produção, ainda se dava pela eterna determinação do sistema econômico, e dos recursos e equipamentos "disponíveis" para execução de projetos, e que consequentemente era um divisor de águas no que dizia  respeito ao que cada individuo ou grupo conseguia produzir enquanto conhecimento a partir do tipo/quantidade/qualidade de formação que teve.

Hoje, o lato sensu é o mesmo, a luta de classes continua existindo, continuamos vivendo numa sociedade determinada pelo capitalismo, onde até as coisas resistíveis se tornam mercadoria - não é a toa que, hoje, o que mais se vê nas propagandas e programas mais capitalistas são os "bad (girls)boys", (as)os "poligâmicos(as)", que, por exemplo, podem ser ao mesmo tempo extremamente religiosos, daqueles que vão à igreja todo o fim de semana. Mas apesar desta semelhança, é inegável que a evolução dos mecanismos de venda de tecnologia lançada em mercado, que funcionam a partir da obsolescência programada universal, mas que ficam sempre, assim como todos os outros setores (habitação, saúde, etc) num movimento de chegada primeiro as camadas mais altas da burguesia e na medida em que se tornam lixo ultrapassado chegam sequencialmente as outras camadas abaixo, é determinante para a produção artística atual.

O número de vídeos, curtas, (e seja lá quais nomes devem receber), em suma de produção audiovisual, atualmente, é assustador. Esta quantidade de material audiovisual cresceu na medida em que dispositivos como os celulares passaram a ter acoplados a eles câmeras de vídeo e/ou foto de fácil conexão a um computador, com conexão de banda larga na internet, e, por sua vez, de portais que possibilitassem o upload dos vídeos.

O mais interessante deste panorama atual, é o de como o senso comum passou a definir e pautar o belo, o estético, o bom, o ruim. Não precisamos, voltar a Grécia Clássica e ao culto aos belos corpos e etc. que mantém uma relação específica com seu tempo, mas não livre de questionamentos críticos  aos seus padrões, como fez Sócrates, por exemplo; assim como não precisamos entender necessariamente o porquê no começo do século XX, a mulheres mais "cheinhas" eram as mais atraentes; não, talvez o mais importante seja saber que independente do padrão determinante de conceituação de beleza, tudo é determinando por interesses estruturais de funcionamento da sociedade, e nosso caso do capitalismo - mas também não me nego a considerar que mesmo não vivendo o capitalismo Sócrates foi morto por ser sábio, e também, entre várias outras acusações, de viver num estado que crê em Deus, e ser, supostamente, ateu. Não podemos inclusive culpar rasteiramente o cinema clássico americano, que em muito, contraditoriamente, contribuiu para a linguagem cinematográfica - vide "O Nascimento de uma Nação" (D. W. Griffith, 1915),  ainda que, neste caso, mais em relação ao nascimento e descobrimento de rumos da linguagem, do que necessariamente rotulado de clássico.

O fato é que a gigantesca história e fatos que determinaram a forma com que o senso comum enxerga o belo hoje leva a uma contradição (comum inclusive entre a própria categoria artística que revindica um mundo não-capitalista) : trata-se de revindicar a clareza do  áudio, a limpeza da imagem, o ultra-realismo das câmeras dsrl (em voga), mas ainda sim ficarem horas e horas assistindo o vídeo de um "gato fumando charuto", cujo o som é inaudível, e imagem extremamente pixelizada, mas absorção é deliciosamente rápida e confortante - só não mais que a cocaína.

( Vale lembrar, que estamos falando de fenômenos de uma sociedade cada vez mais doente, violenta, onde seus indivíduos tendem a se explorar e dar cada vez menos importância à vida uns dos outros, e, não de capar a necessidades de  momentos de pura abstração, ou, simplesmente que o individuo precisa se desligar da racionalidade densa das coisas do mundo)

Este último parágrafo acima, me fez lembrar de um vídeo de um grupo de comediantes, curta-metragistas, que respeito muito enquanto fazedores, de humor muito interessante, mas que em alguns momentos, sem deixar este humor de qualidade de lado, fazem um desserviço à linguagem (necessário para que a proposta se realize, mas que não leva em conta outras camadas de atividade de sua produção, e em alguma medida só se utilizam de alguns privilégios conseguidos dentro do mercado, ou de um espacinho onde pode ser críticos) como no vídeo abaixo:


 
Não que o grupo não seja digno-possuidor de uma irresponsabilidade que admiro muito, mas este pequeno curta sintetiza de forma muito clara a contradição do belo, que falei dois parágrafos acima. Uma vez que, por exemplo, uma série de pessoas que adoraram este vídeo, consideram os dois filmes abaixo ruins, mal-feitos, mal-filmados"amadores", em outras palavras não vislumbram outra forma de narrar:




Esta distorção que nos faz incapaz de ver outras milhares de possibilidades de se abrir a novas experiências, a novos tipos de poéticas, é expressada, por exemplo, pela cotidiana ideia enraizada à forceps no sujeito de que câmera não é uma camada narrativa, mas um mero registro, ou a música com restrita à ambientação e intensificação de emoções e não como uma narradora. Como "Via Láctea", de Lina Chamie, expõe de forma incrível:




Trata-se, então de uma produção quase infinita de vídeos feitos todos os dias, de catástrofes  ficcionais, denunciativos, que expõem contradições etc. e, que, teoricamente, deveriam ter o mesmo efeito que um panfleto rodado nos tempos de ditadura. Mas, artisticamente a elaboração é inexistente, fica mais a sensação de conseguir uma imagem e uma cena limpa semelhante a um filme de grande porte, do que necessariamente a criação a transformação de um ponto de vista, de uma realidade. E, politicamente, mesmo os mais fortes, e não são poucos, tomam uma aparência de ficção compositora de um espetáculo da vida real tão atraente, que a única ação daqueles que assistem é freneticamente compartilhar. No geral, todos se diluem no ar. Ninguém por exemplo mais lembra do que aconteceu na semana passada, por mais absurdo ou injusto que seja.

E mesmo o absurdo é atraente em sua aparência, como num filme de ação o importante é ver o molotov queimando tudo ao seu redor, explodindo; o legal ainda é ver que é real quanto mais real, mais legal, mais atrativo. Como a industria porno - tão violenta e capitalista como qualquer linha de montagem -, que por mais que invista nos novos ultra -realistas filmes em full-hd o que ainda mais atrai o público são as tags: estupro, real, flagrantes, etc. Como no vídeo acima ficam as imagens, mas não a simples indagação: será que isso pode ser fruto de um sistema doente, em que as pessoas são tratadas como lixo em todos os setores: saúde, transporte e, por acaso, no inss, orgão governamental que controla, zela - ou deveria zelar - ,simplesmente, pela segurança social do sujeito.    

Dessa maneira, a produção artística,  hoje, se encontra numa sinuca de bico. As leis audiovisuais reproduzem o movimento que o próprio cinema foi criado, em outras palavras as mesmas formas de reprodução capitalista. Não há muita perspectiva de desenvolvimento de pluralidade saudável na diversa gama de vídeos, filmes, curtas, etc., mas sim uma pluralidade de pontos-de-vista confusos e que se sustentam tanto quanto o "gato fumando charuto", ainda menos, já que no número de pessoas que assistem a um vídeo desse é muito maior que pessoas que assistiram a último filme do Sergio Bianchi, por exemplo, ou mesmo de Almodóvar. 

A maior parte dos filmes feitos e exibidos em festivais atualmente, são fruto de confusas ideias não muito bem estabelecidas, pouco combatentes em seus conteúdo politico-estético e incapazes de captar estrutura crítica dos problemas de nosso tempo. No caso do teatro, sobretudo os grupos de teatro em São Paulo, que tem sua história iniciada lá atrás com o Teatro do Oprimido, tem com toda certeza um avanço estético e militante invejável em relação a todos artistas que pretendem seguir o coerente caminho politico-artístico. Mas não escapam de todo este cenário.    

Talvez enquanto artistas de esquerda, formamos algumas certezas que muitas vezes nos prendem a padrões quase que como manuais de "como fazer uma arte correta e combativa". Não que não tenhamos que nos posicionar e fazer uma arte cada vez mais incômoda, mas há muitos cuidados a se tomar. 

Um deles acredito ser aquele em que analisamos, as vezes unilateralmente "que a forma é a forma do conteúdo". Esta frase tem sido pregada quase como um mantra, e positivada a ponto de que ao invés de tentar expor a complexidade de que são compostas as coisas que anteriormente são empurradas goela abaixo como corretas, moralmente aceitas, normais etc., ela se torna algo tão trivial que se esvazia por completo, quase tão parecido quando fazem o termo "dialética", como escutei certa vez:   

1 - Não entendi o que fulano achou do meu trabalho, não sei se gostou ou não.      

2 - É que ele é dialético.  

O fato é que a tentativa de acabar com o maniqueísmo da pergunta, supostamente interpretado como maniqueísta, de "gostar ou não gostar", coloca a dialética não como uma maneira de analisarmos os "fenômenos [...] não só do ponto de vista de suas relações mútuas e de seu mútuo condicionamento, mas também do ponto de vista de seu movimento, de suas transformações e de seu desenvolvimento, do ponto de vista do seu nascimento e da sua morte”**, mas como um método de alguém que não sabe necessariamente observar algo, é confusa e por sua vez, ambígua. Isto se torna cada vez mais perigoso, na medida em que a arte é um espaço cujo a dialética pode ser explorada intensamente, e é o oque possibilita a exposição das camadas e entranhas que é composta a vida, o homem.

Nesta direção, vemos que ainda temos vícios de prática politico-estético que persistem a capam nosso desenvolvimento humano, e artístico  Assim como muitas vezes acreditamos que a arte é capaz de romper uma superestrutura universal por ela mesma. Estes elementos, as vezes confusos, as vezes confundidos, de concepção de arte combativa, e que se posiciona leva a outros vícios que de um lado nos levar a negar a vida de tradições revolucionárias, quase que como uma postura de negação infantil do tipo : isto não dialoga com o povo mais, é museu, não uso", a síndrome de vanguarda; doutro lado, a crença em modelos que foram eficientes em seu tempo, mantém sua base como coerentes para as épocas seguintes, mas que não são tocados em sua fraquezas, sobretudo suas fraquezas estéticas, elaborativas, imaginativas, poéticas, como o caso de Bertold Becht. Neste caso, recorro a Paulo Leminski e seu texto  "tímidos e recatados", que exporá com toda certeza o pesamento de maneira mais responsável que a minha:

"Só o respeito por seu teatro extraordinariamente inventivo e, talvez, um preconceito ideológico ainda nos fazem ver no alemão Bertold Brecht(1898 - 1956) um grande poeta, no século que produziu exageros bem maiores. Com certeza. A obra poética do gênio teatral que inventou o célebre "distanciamento" não suporta confronto com a obra de Vladimir Maiakóvski, um Valimir Khliebnikov, um Ezera pound, um T. S. Eliot. E. E. Cummming, um Fernando Pessoa. Comparada com a destes gigantes, a poesia de Bertold Brecht é tímida formalmente e pedestre em seus achados. Inútil procurar nela os mergulhos abissais dos futuristas russos nos abismos da linguagem  ou as infratoras aventuras gráficas de um Cummings. 

Não teria sentido procurar na poesia deste comunista ortodoxo as originalidades metafisicas e existenciais que seu credo politico, certamente, repudiaria como alienações burguesas. Não que Brecht fosse adepto do simplismo estético e literário do famigerado realismo socialista. [...] Brecht sempre manteve as mais corajosas posições de vanguarda artística, aliada à militiancia politica de esquerda. Mas isso dizia respeito principalmente ao teatro,arte onde [...]inovou como poucos.  

A lírica brechtiana, porém, sempre se moveu num território muito estreito, indo do primarismo métrico do poema. [...]   

Em Brecht encontramos lucidez e ironia, sarcasmo e relâmpagos críticos. Mas também  momentos ridiculamente retóricos, como nesse O Grande Outubro, poesia celebrativa da pior espécie , ode ginasiana em louvor da Revolução Russa. Ou em poemas como [...] Rapidez da Construção do Socialismo, que parece ter sido encomendado por Stálin.  

Esta edição dos Poemas de Brecht é bem o momento de dizer um "basta" a uma idolatria indevida. Como poeta Brecht não merece a fama que desfruta. É um poeta ocasional, que dedicou seu gênio a outra a arte. O grande poeta de esquerda é Maiakóvski. Esse sim soube ver(e fazer) que "não há arte revolucionária sem forma revolucionária". Brecht, porém, nos suscita uma questão inquietante  A velha questão sobre o que é poesia. E suas brevidades prefiguram certas tendências da poesia do século XX, o registro relaxado de certas vivências, o fragmentarismo da dicção, o coloquial sem nobreza.
 
Em seus melhores momentos, Brecht realiza uma poesia que se sustenta apenas na ideia. No saque. Numa fulgurante intuição, que ilumina a realidade e a vida. E parece que isso foi o que ele procurou atingir enquanto poeta. [...]"
  
A leitura de Leminski é bastante acertada, ao passo que não deixa de considerar a grandeza e genialidade de Brecht no teatro, mas de suas limitações na poesia. Esta leitura pode ser recolocada na nova gama artistas que muitas vezes não se revindicam artistas, mas trabalhadores - que de fato são - que vêem na arte a possibilidade de formar bases politicas, mas que, a coisa é tantas vezes repetida  que, por vezes, julgo sinceramente mais importante que sejam verdadeiramente sujeitos de direcionamento politico onde realmente devem haver funções competentes para encaminhamento e organização politica, em um partido - claro, falo de um partido verdadeiramente revolucionário, o que estamos longe ver -, do que na empreitada da produção poética de sentido. 
 
São engendrados por toda essa salada, qual se propõem a combater, mas as perspectivas são tão nebulosas que caem em algo semelhante ao exemplo de Leminski sobre a poesia de Brecht que sucumbiria a determinações de seu credo ideológico;  passam a ver em qualquer proposta, as vezes, simplesmente bem trabalhada, ou com resquícios metafisicos, subjetivos, uma alienação burguesa.

Não se trata, também, de negar que há um número atraente de coisas sendo produzidas, sobretudo, na cena de grupos de teatro de São Paulo, em menor no número no cinema, e ainda menor nas outras linguagens. E que esta cena muitas vezes é sublimada pela crítica conservadora que insiste em empurrar para fora da história aqueles que se propõem a se movimentar criticamente em relação ao mundo. E as formas de sublimação geralmente são das mais baixas como os rótulos de "panfletário" "clichês". Contudo, não ocorre que panfletário é característica de uma produção que se propõem ser voz de resistência, contrária  combatente, num lugar onde só um lado é escutado e a forma com que esta hegemonia se coloca é sempre violenta. E quanto aos clichês, outro oportunismo barato, uma vez que chamam de clichês problemas que não deixaram de existir, entre eles a opressão capitalista, a exploração do trabalho, em suma, a luta de classes, e por isso mesmo devem continuar a serem colocados.

Ainda, assim como os grupos e artistas militantes tem produzido grandes obras, e que talvez fujam ao seu tempo, no sentido de sua absorção, não podemos negar que nosso tempo também produziu, ironicamente reacionários admiráveis, como o Cetano Veloso, ou Gilberto Gil, politicamente um reformista. O tropicalismo é um retrocesso na proposta politico-ideológica do manifesto antropofágico de Oswald de Andrade, e dos ideias de ruptura dos modernistas, mas seria loucura dizer, que por defender, em certo momento de sua obra, uma concepção de mundo que absolutamente somos contra, Caetano ou Gil são músicos horríveis  poetas fracos, pelo contrário. Assim como a grandeza de "Em Busca do Tempo Perdido" de Proust, não está, necessariamente, em seu posicionamento politico, mas em como materializa literariamente suas memórias.  

É claro, o campo politico tem estado cada vez mais ofuscado por conta da geleia geral que outrora o tropicalismo quis fazer-nos acreditar que era do que se tratava nossa estrutura terceiro-mundista-menino-atrevido-metido-a-ser-grande-capitalista, e por isso, sim, devemos nos organizar, e rever nossa própria forma de ponto-de-vista-critico e de ação, uma vez que ao  voltarmos olhos para o mundo, fica cada vez mais difícil fazer concessões mesmo aquilo identificado como primoroso, ainda que, por diversas vezes, em seu sentido mais amplo, parasita.  

(continua)

Notas:
  
  **Lênin