O Coletivo Cinefusão surge, no final de 2008, a partir da iniciativa de trabalhadores de diversas áreas - cinema, jornalismo, publicidade, artes cênicas, filosofia, arquitetura, fotografia -, empenhados em criar primeiramente uma rede colaborativa que pudesse dar conta da junção dessas linguagens e também da possibilidade de abarcar potencialidades em busca de produção artística independente, mas também de reflexões concretas acerca da sociedade. É principalmente sobre este último pilar de atuação política, que o grupo vem, atualmente, pensando o cinema, sempre vinculado a outras expressões artísticas e movimentos sociais.

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sábado, 30 de abril de 2011

Cineclube Cinefusão exibe "Gadjo Dilo", do diretor argelino Tony Gatlif



No próximo domingo, dia 08 de maio, às 18h30, o Cineclube Cinefusão exibe o belo "Gadjo Dilo", do diretor argelino Tony Gatlif.

O filme narra a jornada de Stéphane, um jovem francês que viaja para a Romênia em busca da cantora cigana Nora Luca, a quem o seu pai ouvia o tempo todo antes de morrer. 

Talvez, Tony Gatlif seja o diretor que melhor se enquadre na nossa proposta de apresentar um ciclo denominado "cinema e culturas marginais". O argelino/cigano se debruça sobre minorias excluídas e propõe uma arte libertária. O seu cinema de deslocamentos é a síntese do artista que também se vê em uma busca angustiante, mas é interrompido pelos hiatos reacionários. 

Portanto, a exibição dá sequência ao ciclo que pretende apresentar um panorama de filmes realizados por cineastas de culturas não tão conhecidas e distantes de um senso comum, marcado pelo ocidentalismo europeu e estadunidense, que produz o cinema comercial que é divulgado massivamente. Assim, serão priorizadas obras que nasceram no âmago dessas culturas ou que abordem o modo de vida delas. Esperamos com o ciclo, trazer uma possibilidade de trocas e, principalmente, à luz da barbárie neoliberal, discutir sem qualquer tipo de preconceitos quais são as motivações que levam as sociedades a concepções de mundo tão distintas. A sessão é gratuita e acontece à rua Augusta, 1239, conj 13 e 14.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

A viagem sensorial de um "road movie"

Após 30 anos de carreira, o diretor argelino Tony Gatlif foi reconhecido pelo seu domínio da linguagem cinematográfica ao receber o prêmio de melhor diretor no Festival de Cannes de 2004. O filme que lhe rendeu a recompensa foi o envolvente “Exílios”, um road movie, no qual um casal de franceses amantes (Zano e Naima) viajam à Argélia, em busca de suas origens.

Logo em seu início – um plano muito fechado, quase nos poros do dorso nu de Zano (Romain Duris), acompanhado de uma bem construída composição sonora – “Exílios” já entrega a proposta de Gatlif: imagem e som no que de mais intenso essa junção possa revelar. Nessa e em outras sequências, o diretor argelino declara o seu amor à imagem e à força que ela pode ter quando unida sensorialmente ao som.

Algumas das críticas negativas que o filme teve diziam respeito a uma necessidade constante de demonstrar domínio técnico da linguagem. Porém, de que serve o domínio que não é revelado? Tony Gatlif é um estudioso do cinema e, com a longa carreira, aprendeu exatamente onde colocar a câmera ou movimentá-la  e como explorar o espaço do plano, pelo menos nos seus filmes. É assim que, em determinado momento, durante uma “ofensiva” de mosquitos que picam Naima, a câmera é colocada na subjetiva do próprio inseto. Experimentamos, por um breve momento, a sensação de flutuar na ânsia pelo sangue de Naima que, inusitadamente, provoca quase que sexualmente o mosquito.


Em outra cena, o diretor escolhe filmar de perto uma gota de suor, de uma desconhecida qualquer, que cai no braço de Naima, representando a incorporação quase que física do elemento estrangeiro, a união de culturas. Mais uma vez, a pele é tida como o significado máximo da experiência sinestésica. Assim, o contato dos personagens com as lembranças perdidas não se limita à afetividade, pois as suas trajetórias lhe impõem a relação corpórea com essa memória. Aliás, essa relação é reforçada por um metáfora óbvia, mas não desncessária, impregnada nas cicatrizes dos corpos dos protagonistas. 

É também a partir desse elemento físico, de busca por uma identidade cultural, que “Exílios”, em diversos planos, atinge, inclusive, uma denotação mais carnal. Porém, todo o excesso é banhado por uma sensibilidade ímpar para lidar com som e imagem e, principalmente, cores. Isso fica claro, por exemplo, em uma inusitada, porém bela, cena de sexo (ver vídeo abaixo, ignorando as legendas), que acontece num pomar, a serviço de uma estética exótica e destoante, que serve à proposta do filme.

Impossível falar de “Exílios” sem mencionar também o impactante e envolvente plano sequência, de mais de 10 minutos, em que Naima passa por um ritual religioso de transe. Para os adeptos do cinema hollywoodiano e comercial essa seria a cena que confirmaria a chatice do filme, pois, além de repetitiva, a sequência é deveras incômoda. Porém, de forma magistral, o diretor argelino traz o seu espectador para dentro desse transe, com uma câmera que acompanha toda a agitação do momento, sem cortes. Entendemos que o cinema também é capaz de nos colocar em transe, em comunhão íntima com aquilo que de mais estrangeiro nos possa ser.

Filho de mãe cigana da Andaluzia e pai árabe, Gatlif viajou 7 mil km para realiazar esse filme, em uma busca que, talvez, seja mais sua do que dos próprios personagens. E, se há defeitos comprometedores em “Exílios”, estes estão todos na sua superficialidade narrativa que, apesar de ir fundo em alguns detalhes culturais, acaba por resolver alguns conflitos de forma simplista e questionável. Porém, difícil não se entregar à primazia visual e sonora dessa extravagante viagem sensorial, que se impõe, de maneira objetiva e sincera.