O Coletivo Cinefusão surge, no final de 2008, a partir da iniciativa de trabalhadores de diversas áreas - cinema, jornalismo, publicidade, artes cênicas, filosofia, arquitetura, fotografia -, empenhados em criar primeiramente uma rede colaborativa que pudesse dar conta da junção dessas linguagens e também da possibilidade de abarcar potencialidades em busca de produção artística independente, mas também de reflexões concretas acerca da sociedade. É principalmente sobre este último pilar de atuação política, que o grupo vem, atualmente, pensando o cinema, sempre vinculado a outras expressões artísticas e movimentos sociais.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

A ENTRADA DAS OPERÁRIAS NAS FÁBRICAS

texto publicado originalmente no blog Ideário Dialético


Reflexões em torno da formação do pensamento político feminino.


O assunto mais detestável, a qualquer mulher onde reina o mínimo de lucidez, é o feminismo. Dentre toda circulação de ideias—vejam, digo circulação com vistas direta ao fator econômico fundante de nossa socialização—as que são atribuídas diretamente a mulher são sempre questões de cunho sensível (arte, artesanatos, família, educação...) ou, em ambientes um pouco mais “avançados” , a concepção de ideias em torno da libertação da mulher também são entregues a ela. Sim, nos legaram o direito de lutar por nossa liberdade, sobretudo material. Agora, restam as questões: em que campo? Com quais armas?

Não raras são às vezes onde se nota um esforço fervoroso da mulher para trazer a si direitos que se equiparem ao do sexo masculino, esquecendo-se, fundamentalmente, que bradar por direitos iguais pressupõe saber ao direito de qual homem a mulher pretende se igualar; a de um trabalhador ou a de um burguês? No caso de um burguês, um empresarial ou um intelectual? E no caso de um intelectual, quer os direitos concedidos ao intelectual de esquerda ou de direita? Ao que tudo indica, senhoras, estamos ainda em uma sociedade cindida em classes e reivindicar um direito prevê saber que a divisão social do trabalho e o Valor, encontram-se diretamente ligados a qualquer crítica que se pretenda. E neste caso, ou a crítica se constitui como crítica materialista, ou não se solidifica em nada.

Recorrentemente, acompanhamos em movimentos feministas aquilo que se tornou a pauta central—principalmente no Brasil!— de qualquer luta política. Uma vez esquecida a luta de classes e seu fundamento diante da história, resta a reforma democrática do sistema numa tentativa quase inofensiva de melhorias aos oprimidos. A luta política de emancipação da mulher deixou de ser política para se tornar moral, assim como a luta do movimento negro, LGBT e dos próprios trabalhadores aparelhados ao movimento sindical. Porém, o salto “inesperado” disso é que as lutas pelos direitos humanos e democráticos são principalmente apoiadas pelo grande capital.


Tanto isto é verdade que a democracia, para qualquer indivíduo um pouco mais atento e com o mínimo de consciência de classes, nunca foi garantia de nada dentro do sistema capitalista. Uma vez a ordem ameaçada e os aparatos militares rigorosamente mantidos ao lado do Estado entram em ação destroçando qualquer tentativa de derrubada desarmada contra o sistema. Mas, ao contrário disso, cair no jogo democrático está diretamente ligado a se afinar as regras legais permitidas a sociedade. Evidentemente, não se quer afirmar com isso que a luta pelos direitos democráticos não deva ser feita, tampouco que este não deve ser um lugar ocupado por aqueles que lutam verdadeiramente pela causa dos trabalhadores. Contudo, é necessário notar com clareza qual é o limite da via legal democrática, e de que maneira alcançar estes direitos não está antes ligado a um avanço estrutural da sociedade e não ao que se modifica sempre com maior retardo, a superestrutura.

Um bom exemplo dessa mudança estrutural, que garantiu o nascimento dos direitos das mulheres, foi a entrada da mulher no ambiente fabril. A necessária chegada da mão de obra feminina no trabalho operário está antes ligada a uma demanda da produção e das trocas mercantis que ao direito da mulher de sair de sua condição de escrava doméstica. Ao contrário, a mulher alcança direitos civis e trabalhistas fora de casa, mas onde o trabalho não é condicionado pelo Valor, ela continua na situação de escrava. A dupla jornada da mulher do final do século XIX demonstra com nitidez que a garantia de direitos aos trabalhadores, vem sempre com a função de manter a todo vapor as máquinas do capitalismo e não de torna-lo mais justo. Com o avanço das forças produtivas e com o advento da Primeira Grande Guerra, as fábricas passam a ter mais lugares vagos a serem preenchidos pela mão-de-obra inferior ao homem: crianças e mulheres explodem como indivíduos necessários para a produção da mercadoria e da guerra. Como em toda reviravolta histórica, as forças propulsoras de mudança ali também foram contraditórias. Ainda que a mulher tivesse que se submeter a precarização total do trabalho e tendo também que se manter enquanto escrava em casa, a entrada no mundo do trabalho assalariado, local absolutamente masculino, faz com que a mulher entre também, definitivamente, como agente política necessária a luta de classes.

Antes de estar inserida na divisão social do trabalho, a mulher tinha que se identificar à luta política como companheira e não como agente histórica. O problema, porém, mantém-se. Na divisão social do trabalho, os cargos de formadores de opinião já são primordialmente lugares ocupados por homens, principalmente vindos da pequena-burguesia branca. Quando uma mulher alcança a emancipação intelectual possível no capitalismo, ela é rapidamente enquadrada em um caráter masculino. Esquecem a biologia, para manter a hierarquia. Então, o que vemos com os gritos que bradam por igualdade entre os sexos é, antes de tudo, o esquecimento da organização da sociedade através da forma mercadoria e do mundo do trabalho, que sempre fora masculino. Neste sentido, não surpreende que qualquer mulher que queira debater ideias esteja cercada de homens e, inclusive, torne-se um. Muito menos surpreende que uma mulher terceirizada em uma empresa de limpeza, trabalhe mais e seja maioria na categoria. Essa é a sua função dentro da igualdade democrática entre os sexos. A violência do trabalho é propulsora de todas as outras violências cometidas à mulher. Como tudo que tem determinação histórica e social, a diferença entre os sexos também é um advento material e não abstrato, como temos tratado por aí.

A violência contra a mulher pressupõe uma violência brutal contida na mercantilização da própria vida. O fato da perspectiva da humanidade estar voltada ao trabalho alienado aliena, também, qualquer possibilidade racional de consolidação das relações humanas. Portanto, como evocar um homem para que este seja menos machista se o sistema de dominação, alienado do próprio sujeito, é consolidado por um fundamento patriarcal violento que perdura há anos?

O que quero dizer é que, não se pode contar com a cisão desse vácuo existente entre os sexos nem mesmo pelos homens de esquerda, estes não são deuses pairando num Olimpo distante do mundo material dos homens. Contar com isso em abstrato equivale a contar com o pote de ouro no final do arco-íris. Ou, para deixar mais concreto, seria como contar que as reformas sociais proporcionadas pelo PT fossem levar o Brasil ao comunismo. Sinto nos informar, mas os privilegiados muito dificilmente abdicam de seus privilégios. Então, ainda é papel da mulher, de maneira urgente, pensar arduamente na destruição do patriarcado através da destruição da sociedade de classes. Mas, para isso, é necessário que nos fundamentemos cada vez mais e ocupemos o lugar de pensadoras da crítica materialista, caso contrário, toda posição que nos aparece enquanto crítica está fadada a degenerar em mera conversa fiada.


Nathalia Colli

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