O Coletivo Cinefusão surge, no final de 2008, a partir da iniciativa de trabalhadores de diversas áreas - cinema, jornalismo, publicidade, artes cênicas, filosofia, arquitetura, fotografia -, empenhados em criar primeiramente uma rede colaborativa que pudesse dar conta da junção dessas linguagens e também da possibilidade de abarcar potencialidades em busca de produção artística independente, mas também de reflexões concretas acerca da sociedade. É principalmente sobre este último pilar de atuação política, que o grupo vem, atualmente, pensando o cinema, sempre vinculado a outras expressões artísticas e movimentos sociais.

sexta-feira, 30 de março de 2012

O dia do Arremesso

Patrão e Empregado em cena:

- "[...]Dino, eu sou um dinossauro grande e poderoso, e você? Você não é nada!"
- "Obrigado Senhor"
- "Devido a minha posição social e o meu cargo, eu posso dizer o que quiser a você, e você em troca só pode me bajular"
- "Ta aí uma observação sagaz e brilhante"
- "Mas a tradição nos dá uma grande nivelador. O dia do lançamento, o dia em que não importa as condições sociais; o dia em que o mais humilde dos humildes poderá ficar ombro a ombro com as pessoas mais elevadas. Beba Dino!"

...

quarta-feira, 28 de março de 2012

Os desafios da dramaturgia sonora

Por Martin Eikmeier

Texto publicdo originalmente no site:
http://www.spescoladeteatro.org.br/noticias/ver.php?id=291

"Uma pequena batida na vidraça, como se qualquer coisa a tivesse atingido, seguida de uma ampla queda leve como grãos de areia que deixassem tombar do alto de uma janela, em cima, e depois a queda estendendo-se, regulando-se, adotando um ritmo, tornando-se fluida, sonora musical, inumerável, universal: a chuva." Marcel Proust

Este curto e precioso trecho do primeiro volume da obra de Proust  Em busca dotempo perdido  narra uma das memórias de seu personagem principal ligada à sua infância. Um dos traços marcantes, e que fazem da obra de Proust uma das leituras mais instigantes e prazerosas da literatura moderna, é a maneira pela qual ele organiza suas memórias explorando e descrevendo experiências que reúnem e articulam todos os nossos sentidos: o prazer de olhar os pilriteiros, os sabores dos pratos preparados por Fançoise, a música ou mesmo a lembrança de uma atenta escuta endereçada ao som da chuva.

Cada um destes momentos define aos poucos o personagem que passamos a conhecer e a nos interessar, compartilhamos e identificamos algumas de suas experiências como sefossem nossas. Como procurou nos mostrar Walter Benjamin em A imagem de Proust há um vínculo que se estabelece com o leitor por meio da semelhança entre a experiência narrada e aexperiência que se supõe ter sido de fato vivida. Proust contribui para que o próprio leitorelabore, ele mesmo, suas memórias na esfera do sonho, completando com a imaginação as lacunas produzidas pelo esquecimento. O som, tal como usado por Proust neste trecho, não tem o poder de produzir um referente preciso como a imagem, solicitando do espectador a tarefa de imaginar, de completar os espaços deixados pela imprecisão. E é justamente nesta imprecisão que está a beleza e a graça desta passagem: Proust nos convida a imaginar os sons a resgatar (ou construir) uma memória semelhante. Neste processo somos submetidos a formar nossos próprios vínculos com esta memória, que diante da relação estabelecida por
aquele personagem com a chuva acaba por se misturar com a dele. Benjamin conclui: "A semelhança entre dois seres, a que estamos habituados e com que nos confrontamos em estado de vigília, é apenas um reflexo impreciso da semelhança mais profunda que reina no mundo dos sonhos, em que os acontecimentos não são nunca idênticos, mas semelhantes, impenetravelmente semelhantes entre si."

Esta é uma lição fundamental para aquele que tem diante de si a tarefa de contar histórias. Como usar a própria memória e a relação que estabelecemos com nossas experiências na construção de uma dramaturgia? Sendo o som um dos elos mais importantes que estabelecemos como mundo à nossa volta, que tipo de escuta pode ser endereçada a um fenômeno como a chuva, por exemplo? Ou ainda, como reorganizar esta escuta no ato de narrar, partindo do pressuposto de que em um universo narrado, ou ainda, na arte há sempre a transformação de episódios cotidianos em algo extraordinário (a própria obra de Proust é uma das mais brilhantes defesas deste ponto de vista).

Em específico para o sonoplasta esta passagem pode ser bastante proveitosa. Longe de ser apenas um recurso narrativo, que nos revela a presença da chuva através de um índice sonoro, em Proust, o som que ela produz ocupa a esfera do simbólico, já que a maneira que ele a nos faz escutar diz também algo sobre quem a escuta. Sabemos, no mínimo, tratar-se de um ouvinte atento sempre pronto a extrair de uma experiência cotidiana como esta, uma contemplação expressiva. Além disso, a incompletude que o recurso literário  o som implica, faz um convite à imaginação estabelecendo ali um vínculo de intimidade entre autor eleitor.

A segunda lição que tiramos de Proust é a dica que ele nos dá a cerca do caráter universal de um som. Diferente da palavra que depende de um interlocutor capaz de decifrar seus códigos (como no caso de uma língua específica compartilhada apenas por aqueles que a conhecem), o universo de ruídos que nos cerca é igual para todos. Com certeza o som da chuva nos trópicos difere daquele que escutamos em outras partes do mundo, mas diante de uma ou outra sabemos tratar-se da chuva. Há, no entanto, as conotações que o som e a memória que ele provoca podem produzir. A mesma chuva pode, por exemplo, conotardesgraça ou salvação. Na construção de uma história a medida de uma ou outra é dada pela relação estabelecida com a experiência de um personagem. Compartilharemos a celebração da chuva com um personagem cuja vida está ameaçada pela seca? Ainda que em nossa própriaexperiência o fenômeno chuva esteja associado a algo contrário; diante do contexto construído para o personagem, somos aliciados à identificação sem, contudo, nos rendermos necessariamente a ela. A fruição se dá na tensão entre a relação que estabelecemos entre um fenômeno e nossa experiência pessoal, e a relação estabelecida pelo outro  o autor.

A terceira lição encontra-se no domínio da prática: Proust nos descreve o som produzido pela chuva usando a areia como recurso. Este é um dos expedientes mais fundamentais para um sonoplasta. Como produzir o som que se associa a um objeto utilizando outro, mais cabível no contexto de um palco ou mesmo de um estúdio? Para isso é necessário endereçar ao mundo a mesma escuta atenta sugerida pelo personagem de Proust. Cascas crocantes de sorvete se transformam em um ovo sendo quebrado por dentro por um animal que ganha a vida, uma tempestade de areia pode chegar aos nossos ouvidos através de um isopor sendo friccionado contra a parede. Esta escuta implica inclusive em extrair do mundo sons de fenômenos aparentemente silenciosos: o medo, a morte, a felicidade. A cada um destes podemos atribuir em nossa experiência pessoal um som respectivo. Este obviamente,só servirá como componente narrativo, se tal como Proust o fez com a chuva para representar o saudosismo de seu personagem pela infância e mais precisamente pela atitude da criança diante das coisas que a cercam, se estiver em um contexto que o explique, que o associeàquele fenômeno e que possa, portanto ser compartilhado com um ou mais interlocutores.

Em uma época onde a oportunidade de se escutar, sejam os sons musicais ou concretos, é infinita, tendo em vista a possibilidade de registro e também de sua circulação facilitada pela tecnologia, a escuta se banalizou. É raro em roteiro de filmes, textos de peças de teatro, ou quaisquer que sejam as formas narrativas onde a presença do som é presumível, encontrarmos referências a algum ruído que não esteja apenas servindo à tarefa de substituirem cena a presença do objeto que o produz. Guerras, tempestades, ambientes dos mais variados possíveis são comportadamente dispostos nas caixas acústicas dos teatros e dos cinemas quando a sua visualização é impossível de ser completamente reproduzida ou mesmo não se faz necessária. Este barateamento das formas de se articular uma trilha sonora em cena se deve a uma série de fatores que orbitam, até certo ponto, em torno de um mesmo problema: a relação de trabalho. Geralmente o lugar do sonoplasta, ou do músico na rotina de produção de uma obra, seja no cinema ou no teatro, se dá no fim de um processo, quando a
história já está pronta para ser apresentada ao público. Como conseqüência é natural que seu trabalho seja desempenhado de forma alienada deste processo, restringindo a possibilidade deste profissional atuar como um colaborador na dramaturgia o que provoca um embotamento criativo, uma inércia que o leva a reconhecer a si mesmo mais como um técnico, ou um especialista do que um artista.

Este é um dos principais desafios do ensino em sonoplastia e trilha sonora: procurar compreender os sons que dispomos em um espetáculo ou filme como um elemento narrativo, ou seja, para além de sua disposição descritiva, para além do efeito formal. É certo que os problemas formais e técnicos, com os quais o artista irá se deparar devem ser dominados por ele. Contudo, é importante que estas tarefas apareçam como conseqüência de uma necessidade anterior a uma ou outra possibilidade técnica que possa vir a ser considerada: contar uma história ou, no mínimo, produzir uma experiência para o espectador. Podemos tirar muitas lições da literatura, da crítica literária, do cinema, dos estudos em narrativa ou em dramaturgia. Neste sentido, a defesa que se procura fazer aqui é a de que o sonoplasta pense para além dos sons, para além da música e que enfrente o desafio de considerar seu trabalho antes de tudo como o de um dramaturgo.

Para concluir vale lembrar uma consideração fundamental que contribui para sustentar este ponto de vista, escrita por Ernst Fischer em A necessidade da arte: "A arte é o meio indispensável para (...) a união do indivíduo com o todo; reflete a infinita capacidade humana para a associação, para a circulação de experiências e idéias."

sábado, 24 de março de 2012

Coletivo Cinefusão convida para Tribunal Popular da Terra

Video-convite para o Tribunal Popular da terra. 
 
Outros trabalhadores, artistas, militantes, também contribuíram com seus vídeos para construção deste importante evento, como se pode ver nos vídeos relacionados no youtube.

Tribunal Popular da Terra
De 20 a 22 de Abril
Local: Sacolão das Artes
Avenida Cândido José Xavier , 577 - Parque Santo Antonio - Zona Sul de SP

sexta-feira, 23 de março de 2012

Insônia. Homero. (Óssip Mandelstam)



tradução: augusto de campos


Insônia. Homero. Velas rijas. Naves:
Contei a longa fila até a metade.
Barcos em bando, revoada de aves
Que se elevou outrora sobre a Hélade.

Uma cunha de grous cortando os céus -
Sobre a fronte dos reis cai a espuma divina -
Para onde seguís? Não fosse por Helena,
O que seria Troia para vós, aqueus?

O mar e Homero - a tudo move o amor!
A quem ouvir? Mas Homero está quieto
E o mar, escuro, declamando, com clamor,
Ruge e estertora à beira do meu leito.

(Óssip Mandelstam)



Poesia da Recusa / Augusto de Campos, / São Paulo : Perspectiva, 2011.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Luminaris


Untitled from Danilo J. Santos on Vimeo.

Primeiro de Maio

Por Mário de Andrade, em Contos Novos

No grande dia Primeiro de Maio, não eram bem seis horas e já o 35 pulara da cama, afobado. Estava bem disposto, até alegre, êle bem afirmara aos companheiros da Estação da Luz que queria celebrar e havia de celebrar. Os outros carregadores mais idosos meio que tinham caçoado do bobo, viesse trabalhar que era melhor, trabalho deles não tinha feriado. Mas o 35 retrucava com altivez que não carregava mala de ninguém, havia de celebrar o dia deles. E agora tinha o grande dia pela frente.  

Dia dele... Primeiro quis tomar um banho pra ficar bem digno de existir. A água estava gelada, ridente, celebrando, e abrira um sol enorme e frio lá fora. Depois fez a barba. Barba era aquela penuginha meio loura, mas foi assim mesmo buscar a navalha dos sábados, herdada do pai, e se barbeou. Foi se barbeando. Nu só da cintura pra cima por causa da mamãe por ali, de vez em quando a distância mais aberta do espelhinho refletia os músculos violentos dele, desenvolvidos desarmoniosamente nos braços, na peitaria, no cangote, pelo esforço quotidiano de carregar peso. O 35 tinha um ar glorioso e estúpido. Porém ele se agradava daqueles músculos intempestivos, fazendo a barba.

 Ia devagar porque estava matutando. Era a esperança dum turumbamba macota, em que ele desse uns socos formidáveis nas ruças dos polícias. Não teria raiva especial dos polícias, era apenas a ressonância vaga daquele dia. Com seus vinte anos fáceis, o 35 sabia, mais da leitura dos jornais que de experiência, que o proletariado era uma classe oprimida. E os jornais tinham anunciado que se esperava grandes "motins" do Primeiro de Maio, em Paris, em Cuba, no Chile, em Madri.  

O 35 apressou a navalha de puro amor. Era em Madri, no Chile que ele não tinha bem lembrança se ficava na América mesmo, era a gente dele... Uma piedade, um beijo lhe saía do corpo todo, feito proteção sadia de macho, ia parar em terras não sabidas, mas era a gente dele, defender, combater, vencer... Comunismo? ... Sim, talvez fosse isso. Mas o 35 não sabia bem direito, ficava atordoado com as notícias, os jornais falavam tanta coisa, faziam tamanha mistura de Rússia, só sublime ou só horrenda, e o 35 infantil estava por demais machucado pela experiência pra não desconfiar, o 35 desconfiava. Preferia o turumbamba porque não tinha medo de ninguém, nem do Carnera, ah, um soco bem nas ruças dum polícia... A navalha apressou o passo outra vez. Mas de repente o 35 não imaginou mais em nada por causa daquele bigodinho de cinema que era a melhor preciosidade de todo o seu ser. Lembrou aquela moça do apartamento, é verdade, nunca mais tinha passado lá pra ver se ela queria outra vez, safada! Riu.  

Afinal o 35 saiu, estava lindo. Com a roupa preta de luxo, um nó errado na gravata verde com listinhas brancas e aqueles admiráveis sapatos de pelica amarela que não pudera sem comprar. O verde da gravata, o amarelo dos sapatos, bandeira brasileira, tempos de grupo escolar... E o 35 comoveu num hausto forte, querendo bem o seu imenso Brasil, imenso colosso gigante, foi andando depressa, assobiando. Mas parou de sopetão e se orientou assustado. O caminho não era aquele, aquele era o caminho do trabalho.  

Uma indecisão indiscreta o tornou consciente de novo que era o Primeiro de Maio, ele estava celebrando e não tinha o que fazer. Bom, primeiro decidiu ir na cidade pra assuntar alguma coisa. Mas podia seguir por aquela direção mesmo, era uma volta, mas assim passava na Estação da Luz dar um bom-dia festivo aos companheiros trabalhadores. Chegou lá, gesticulou o bom-dia festivo, mas não gostou porque os outros riram dele, bestas. Só que em seguida não encontrou nada na cidade, tudo fechado por causa do grande dia Primeiro de Maio. Pouca gente na rua. Deviam de estar almoçando já, pra chegar cedo no maravilhoso jogo de futebol escolhido pra celebrar o grande dia. Tinha, mas era muito polícia, polícia em qualquer esquina, em qualquer porta cerrada de bar e de café, nas joalherias, quem pensava em roubar! nos bancos, nas casas de loteria. O 35 teve raiva dos polícias outra vez. 

 E como não encontrasse mesmo um conhecido, comprou o jornal pra saber. Lembrou de entrar num café, tomar por certo uma média, lendo. Mas a maioria dos cafés estavam de porta cerrada e o 35 mesmo achou que era preferível economizar dinheiro por enquanto, porque ninguém não sabia o que estava pra suceder. O mais prático era um banco de jardim, com aquele sol maravilhoso. Nuvens? umas nuvenzinhas brancas, ondulando no ar feliz. Insensivelmente o 35 foi se encaminhando de novo para os lados do Jardim da Luz. Eram os lados que ele conhecia, os lados em que trabalhava e se entendia mais. De repente lembrou que ali mesmo na cidade tinha banco mais perto, nos jardins do Anhangabaú. Mas o Jardim da Luz ele entendia mais. Imaginou que a preferência vinha do Jardim da Luz ser mais bonito, estava celebrando. E continuou no passo em férias. 

Ao atravessar a estação achou de novo a companheirada trabalhando. Aquilo deu um mal-estar fundo nele, espécie não sabia bem, de arrependimento, talvez irritação dos companheiros, não sabia. Nem quereria nunca decidir o que estava sentindo já... Mas disfarçou bem, passando sem parar, se dando por afobado, virando pra trás com o braço ameaçador, "Vocês vão ver!...” Mas um riso aqui, outro riso acolá, uma frase longe, os carregadores companheiros, era tão amigo deles, estavam caçoando. O 35 se sentiu bobo, impossível recusar, envilecido. Odiou os camaradas. Andou mais depressa, entrou no jardim em frente, o primeiro banco era a salvação, sentou-se. Mas dali algum companheiro podia divisar ele e caçoar mais, teve raiva. Foi lá no fundo do jardim campear banco escondido. Já passavam negras disponíveis por ali. E o 35 teve uma idéia muito não pensada, recusada, de que ele também estava uma espécie de negra disponível, assim. Mas não estava não, estava celebrando, não podia nunca acreditar que estivesse disponível e não acreditou. Abriu o jornal. Havia logo um artigo muito bonito, bem pequeno, falando na nobreza do trabalho, nos operários que eram também os "operários da nação", é isso mesmo. O 35 se orgulhou todo comovido. Se pedissem pra ele matar, ele matava roubava, trabalhava grátis, tomado dum sublime desejo de fraternidade, todos os seres juntos, todos bons... Depois vinham as notícias. Se esperavam "grandes motins" em Paris, deu uma raiva tal no 35. E ele ficou todo fremente, quase sem respirar, desejando "motins" (devia ser turumbamba) na sua desmesurada força física, ah, as ruças de algum... polícia? polícia. Pelo menos os safados dos polícias. 

Pois estava escrito em cima do jornal: em São Paulo a Polícia proibira comícios na rua e passeatas, embora se falasse vagamente em motins de tarde no Largo da Sé. Mas a polícia já tomara todas as providências, até metralhadoras, estavam em cima do jornal, nos arranha-céus, escondidas, o 35 sentiu um frio. O sol brilhante queimava, banco na sombra? Mas não tinha, que a Prefeitura, pra evitar safadez dos namorados, punha os bancos só bem no sol. E ainda por cima era aquela imensidade de guardas e polícias vigiando que nem bem a gente punha a mão no pescocinho dela, trilo. Mas a Polícia permitiria a grande reunião proletária, com discurso do ilustre Secretário do Trabalho, no magnífico pátio interno do Palácio das Indústrias, lugar fechado! A sensação foi claramente péssima. Não era medo, mas por que que a gente havia de ficar encurralado assim! é! E pra eles depois poderem cair em cima da gente, (palavrão)! Não vou! não sou besta! Quer dizer: vou sim! desaforo! (palavrão), socos, uma visão tumultuaria, rolando no chão, se machucava mas não fazia mal, saíam todos enfurecidos do Palácio das Indústrias, pegavam fogo no Palácio das Indústrias, não! a indústria é a gente, "operários da nação" pegavam fogo na igreja de São Bento mais próxima que era tão linda por “drento”, mas pra que pegar fogo em nada! (O 35 chegara até a primeira comunhão em menino...), é melhor a gente não pegar fogo em nada; vamos no Palácio do Governo, exigimos tudo do Governo, vamos com o general da Região Militar, deve ser gaúcho, gaúcho só dá é farda, pegamos fogo no palácio dele. Pronto. Isso o 35 consentiu, não porque o tingisse o menor separatismo (e o aprendido no grupo escolar?) mas nutria sempre uma espécie de despeito por São Paulo ter perdido na revolução de 32. Sensação aliás quase de esporte, questão de Palestra-Coríntians, cabeça inchada, porque não vê que ele havia de se matar por causa de uma besta de revolução diz-que democrática, vão "eles"!... Se fosse o Primeiro de Maio, pêlos menos... O 35 percebeu que se regava todo por “drento” dum espírito generoso de sacrifício. Estava outra vez enormemente piedoso, morreria sorrindo, morrer... Teve uma nítida, envergonhada sensação de pena. Morrer assim tão lindo, tão moço. A moça do apartamento...  

Salvou-se lendo com pressa, oh! os deputados trabalhistas chegavam agora às nove horas, e o jornal convidavam (sic) o povo pra ir na Estação do Norte (a estação rival, desapontou) pra receber os grandes homens. Se levantou mandado, procurou o relógio da torre da Estação da Luz, ora! não dava mais tempo! quem sabe se dá!  

Foi correndo, estava celebrando, raspou distraído o sapato lindo na beira de tijolo do canteiro (palavrão), parou botando um pouco de guspe no raspão, depois engraxo, tomou o bonde pra cidade, mas dando uma voltinha pra não passar pelos companheiros da Estação. Que alvoroço por dentro, ainda havia de aplaudir os homens. Tomou o outro bonde pro Brás. Não dava mais tempo, ele percebia, eram quase nove horas quando chegou na cidade, ao passar pelo Palácio das Indústrias, o relógio da torre indicava nove e dez, mas o trem da Central sempre atrasa, quem sabe? bom: às quatorze horas venho aqui, não perco, mas devo ir, são nossos deputados no tal de congresso, devo ir. Os jornais não falavam nada dos trabalhistas, só falavam dum que insultava muito a religião e exigia divórcio, o divórcio o 35 achava necessário (a moça do apartamento...), mas os jornais contavam que toda a gente achava graça no homenzinho "Vós, burgueses", e toda a gente, os jornais contavam, acabaram se rindo do tal do deputado. E o 35 acabou não achando mais graça nele. Teve até raiva do tal, um soco é que merecia. E agora estava torcendo pra não chegar com tempo na Estação. 

Chegou tarde. Quase nada tarde, eram apenas nove e quinze. Pois não havia mais nada, não tinha aquela multidão que ele esperava, parecia tudo normal. Conhecia alguns carregadores dali também e foi perguntar. Não, não tinham reparado nada, decerto foi aquele grupinho que parou na porta da Estação, tirando fotografia Aí outro carregador conferiu que eram os deputados sim, porque tinham tomado aqueles dois sublimes automóveis oficiais. Nada feito. 

 Ao chegar na esquina o 35 parou pra tomar o bonde, mas vários bondes passaram. Era apenas um moço bem-vestidinho, decerto à procura de emprego por aí, olhando a rua. Mas de repente sentiu fome e se reachou. Havia por dentro, por “drento” dele um desabalar neblinoso de ilusões, de entusiasmo e uns raios fortes de remorso. Estava tão desagradável, estava quase infeliz... Mas como perceber tudo isso se ele precisava não perceber!... O 35 percebeu que era fome. 

 Decidiu ir a-pé pra casa, foi a-pé, longe, fazendo um esforço penoso para achar interesse no dia. Estava era com fome, comendo aquilo passava. Tudo deserto, era por ser feriado, Primeiro de Maio. Os companheiros estavam trabalhando, de vez em quando um carrego, o mais eram conversas divertidas, mulheres de passagem, comentadas, piadas grossas com as mulatas do jardim, mas só as bem limpas mais caras, que ele ganhava bem, todos simpatizavam logo com ele, ora por que que hoje me deu de lembrar aquela moça do apartamento!... Também: moça morando sozinha é no que dá. Em todo caso, pra acabar o dia era uma idéia ir lá, com que pretexto?... Devia ter ido em Santos, no piquenique da Mobiliadora, doze paus o convite, mas o Primeiro de Maio... Recusara, recusara repetindo o "não" de repente com raiva, muito interrogativo, se achando esquisito daquela raiva que lhe dera. Então conseguiu imaginar que esse piquenique monstro, aquele jogo de futebol que apaixonava eles todos, assim não ficava ninguém pra celebrar o Primeiro de Maio, sentiu-se muito triste, desamparado. E melhor tomo por esta rua. Isso o 35 percebeu claro, insofismável que não era melhor, ficava bem mais longe. Ara, que tem! Agora ele não podia se confessar mais que era pra não passar na Estação da Luz e os companheiros não rirem dele outra vez. E deu a volta, deu com o coração cerrado de angústia indizível, com um vento enorme de todo o ser soprando ele pra junto dos companheiros, ficar lá na conversa, quem sabe? trabalhar... E quando a mãe lhe pôs aquela esplêndida macarronada celebrante sobre a mesa, o 35 foi pra se queixar "Estou sem fome, mãe". Mas a voz lhe morreu na garganta.  

Não eram bem treze horas e já o 35 desembocava no parque Pedro II outra vez, à vista do Palácio das Indústrias. Estava inquieto mas modorrento, que diabo de sol pesado que acaba com a gente, era por causa do sol. Não podia mais se recusar o estado de infelicidade, a solidão enorme, sentida com vigor. Por sinal que o parque já se mexia bem agitado. Dezenas de operários, se via, eram operários endomingados, vagueavam, por ali, indecisos, ar de quem não quer. Então nas proximidades do palácio, os grupos se apinhavam, conversando baixo, com melancolia de conspiração. Polícias por todo lado.  

O 35 topou com o 486, grilo quase amigo, que policiava na Estação da Luz. O 486 achara jeito de não trabalhar aquele dia porque se pensava anarquista, mas no fundo era covarde. Conversaram um pouco de entusiasmo semostradeiro, um pouco de primeiro de maio, um pouco de "motim". O 486 era muito valentão de boca, o 35 pensou. Pararam bem na frente do Palácio das Indústrias que fagulhava de gente nas sacadas, se via que não eram operários, decerto os deputados trabalhistas, havia até moças, se via que eram distintas, todos olhando para o lado do parque onde eles estavam.  

Foi uma nova sensação tão desagradável que ele deu de andar quase fugindo, polícias, centenas de polícias, moderou o passo como quem passeia. Nas ruas que davam pro parque tinha cavalarias aos grupos, cinco, seis escondidos na esquina, querendo a discrição de não ostentar força e ostentando. Os grilos ainda não faziam mal, são uns (palavrão)! O palácio dava idéia duma fortaleza enfeitada, entrar lá dentro, eu!... O 486 então, exaltadíssimo, descrevia coisas piores, massacres horrendos de "proletários" lá dentro, descrevia tudo com a visibilidade dos medrosos, o pátio fechado, dez mil proletários no pátio e os polícias lá em cima nas janelas, fazendo pontaria na maciota.  

Mas foi só quando aqueles três homens bem-vestidos, se via que não eram operários, se dirigindo aos grupos vagueantes, falaram pra eles em voz alta: "Podem entrar! não tenham vergonha! podem entrar!" com voz de mandando assim na gente... O 35 sentiu medo franco. Entrar ele! Fez como os outros operários: era impossível assim soltos, desobedecer aos três homens bem-vestidos, com voz mandando, se via que não eram operários. Foram todos obedecendo, se aproximando das escadarias, mas o maior número longe da vista dos três homens, torcia caminho, iam se espalhar pelas outras alamedas do parque, mais longe. 

Esses movimentos coletivos de recusa, acordaram a covardia do 35. Não era medo, que ele se sentia fortíssimo, era pânico. Era um puxar unânime, uma fraternidade, era carícia dolorosa por todos aqueles companheiros fortes tão fracos que estavam ali também pra... pra celebrar? pra... O 35 não sabia mais pra quê. Mas o palácio era grandioso por demais com as torres e as esculturas, mas aquela porção de gente bem-vestida nas escadas enxergando ele (teve a intuição violenta de que estava ridiculamente vestido), mas o enclausuramento na casa fechada, sem espaço de liberdade, sem ruas abertas pra avançar, pra correr dos cavalarias, pra brigar... E os polícias na maciota, encarapitados nas janelas, dormindo na pontaria, teve ódio do 486, idiota medroso! De repente o 35 pensou que ele era moço, precisava se sacrificar: se fizesse um modo bem-visível de entrar sem medo no palácio, todos haviam de seguir o exemplo dele. Pensou, não fez. Estava tão opresso, se desfibrara tão rebaixado naquela mascarada de socialismo, naquela desorganização trágica, o 35 ficou desolado duma vez. Tinha piedade, tinha amor, tinha fraternidade, e era só. Era uma sarça ardente, mas era sentimento só. Um sentimento profundíssimo, queimando, maravilhoso, mas desamparado, mas desamparado. Nisto vieram uns cavalarias, falando garantidos: 

 — Aqui ninguém não fica não! a festa é lá dentro, me'rmão! no parque ninguém não pára não! Cabeças-chatas... 

E os grupos deram de andar outra vez, de cá para lá, riscando no parque vasto, com vontade, com medo, falando baixinho, mastigando incerteza. Deu um ódio tal no 35, um desespero tamanho, passava um bonde, correu, tomou o bonde sem se despedir do 486, com ódio do 486, com ódio do primeiro de maio, quase com ódio de viver. 

 O bonde subia para o centro mais uma vez. Os relógios marcavam quatorze horas, decerto a celebração estava principiando, quis voltar, dava muito tempo, três minutos pra descer a ladeira, teve fome. Não é que tivesse fome, porém o 35 carecia de arranjar uma ocupação senão arrebentava. E ficou parado assim, mais de uma hora, mais de duas horas, no Largo da Sé, diz-que olhando a multidão. 

 Acabara por completo a angústia. Não pensava, não sentia mais nada. Uma vagueza cruciante, nem bem-sentida, nem bem-vivida, inexistência fraudulenta, cínica, enquanto o primeiro de maio passava. A mulher de encarnado foi apenas o que lhe trouxe de novo à lembrança a moça do apartamento, mas nunca que ele fosse até lá, não havia pretexto, na certa que ela não estava sozinha. Nada. Havia uma paz, que paz sem cor por dentro...  

Pelas dezessete horas era fome, agora sim, era fome. Reconheceu que não almoçara quase nada, era fome, e principiou enxergando o mundo outra vez. A multidão já se esvaziava, desapontada, porque não houvera nem uma briguinha, nem uma correria no Largo da Sé, como se esperava. Tinha claros bem largos, onde os grupos dos polícias resplandeciam mais. As outras ruas do centro, essas então quase totalmente desertas. Os cafés, já sabe, tinham fechado, com o pretexto magnânimo de dar feriado aos seus "proletários" também. 

 E o 35 inerme, passivo, tão criança, tão já experiente da vida, não cultivou vaidade mais: foi se dirigindo num passo arrastado para a Estação da Luz, pra os companheiros dele, esse era o domínio dele. Lá no bairro os cafés continuavam abertos, entrou num, tomou duas médias, comeu bastante pão com manteiga, exigiu mais manteiga, tinha um fraco por manteiga, não se amolava de pagar o excedente, gastou dinheiro, queria gastar dinheiro, queria perceber que estava gastando dinheiro, comprou uma maçã bem rubra, oitocentão! foi comendo com prazer até os companheiros. Eles se ajuntaram, agora sérios, curiosos, meio inquietos, perguntando pra ele. Teve um instinto voluptuoso de mentir, contar como fora a celebração, se enfeitar, mas fez um gesto só, (palavrão), cuspindo um muxoxo de desdém pra tudo. 

Chegava um trem e os carregadores se dispersaram, agora rivais, colhendo carregos em porfia. O 35 encostou na parede, indiferente, catando com dentadinhas cuidadosas os restos da maçã, junto aos caroços. Sentia-se cômodo, tudo era conhecido velho, os choferes, os viajantes. Surgiu um farrancho que chamou o 22. Foram subir no automóvel mas afinal, depois de muita gritaria, acabaram reconhecendo que tudo não cabia no carro. Era a mãe, eram as duas velhas, cinco meninos repartidos pêlos colos e o marido. Tudo falando: "Assim não serve não! As malas não vão não!" Aí o chofer garantiu enérgico que as malas não levava, mas as maletas elas "não largavam não", só as malas grandes que eram quatro. Deixaram elas com o 22, gritaram a direção e partiram na gritaria. Mais cabeça chata, o 35 imaginou com muita aceitação.  

O 22 era velhote. Ficou na beira da calçada com aquelas quatro malas pesadíssimas, preparou a correia, mas coçou a cabeça.  

— Deixe que te ajudo, chegou o 35. 

 E foi logo escolhendo as duas malas maiores, que ergueu numa só mão, num esforço satisfeito de músculos. O 22 olhou pra ele, feroz, imaginando que 35 propunha rachar o galho. Mas o 35 deu um soco só de pândega no velhote, que estremeceu socado e cambaleou três passos. Caíram na risada os dois. Foram andando.

terça-feira, 20 de março de 2012

Wolinski: “O humor é de esquerda”

MATÉRIA ORIGINAL:http://blogs.estadao.com.br/luiz-zanin/title-230/



O Amazonas Film Festival prega peças na gente e traz um jurado de nome Wolinski. Quem? Seria Georges Wolinski, o mitológico cartunista francês? Pode ser. Afinal, o homem não larga o caderninho e passa o tempo a desenhar os personagens do festival: colegas de júri, mulheres que vê pela rua, os moradores da cidade, marinheiros do barco – e até o repórter que o entrevista ganha uma caricatura. Com a grife Wolinski. É ele mesmo, o satirista, chamado de erotômano, desenhista maldito, o próprio espírito do maio de 68 francês, o homem que ilustrou páginas do L””Humanité, Libération, Le Nouvel Observateur, além de ser autor de 80 álbuns de quadrinhos.

””O senhor me perdoe, mas é Wolinski, o cartunista?”” Ele mesmo. Convida a sentar em sua mesa. Estamos num barco, uma daquelas tradicionais gaiolas amazônicas, rumo ao encontro das águas, onde o Rio Negro se junta ao Solimões para formar o Amazonas. Wolinski está visivelmente satisfeito com a natureza e as pessoas que o rodeiam, mas não se furta a responder se o clima continua propício para um cartunista na França. Sim, ele diz, Sarkozy (Nicolas Sarkozy, presidente francês) é ótimo tema para um desenhista satírico. ””Ele vive rodeado de assessores e conselheiros, que não o aconselham em nada, porque ele não deixa. É um hiperativo que nada faz, mas isso não se vê.”” Dizem que nem mesmo a mulher do presidente, Cécila, o agüenta. Verdade? ””Pobre Cécilia””, se compadece, irônico.

Pode-se falar horas e horas de política com Georges Wolinski. Afinal, ele mesmo se define como cronista da atualidade, ””do tempo que passa””. Mas exige certa reciprocidade. E, como tal, a cada pergunta sobre a França devolve com outra sobre o Brasil. Quer saber como vai o governo Lula, o que é o mensalão, como a direita reage a um governo de centro-esquerda, etc. Enfim, aplica ao repórter um verdadeiro questionário sobre a história recente brasileira, da época da ditadura até agora. ””Prefiro ouvir um jornalista do que ler livros de história””, resmunga. Diz que de Manaus sabe pouco porque fica isolado naquele hotel cinco-estrelas e não entra em contato com o povo. Mas há alguns anos esteve no Rio e ficou impressionado quando subiu um dos morros da cidade. ””Havia gente com armamento de guerra e tinha-se de pedir licença a eles para passar.”” O repórter pergunta se viu Tropa de Elite, a atual coqueluche sobre o tema. Diz que não, mas fica curioso em conhecer o filme de José Padilha.

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O cineasta francês Jean-Jacques Annaud, no traço de Wolinski

Wolinski é superviajado, conhece o mundo e gosta de ir além das fronteiras da Europa – ele que nasceu em Tunis, em 1933, e foi para a França pequeno. Visitou Cuba várias vezes. E o que pensa da ilha de Fidel? Resposta corrosiva: ””Cada vez tem menos daquilo que eu gosto e mais daquilo que eu não gosto.”” Mas tempera: ””Agora, é preciso compreender Cuba: nunca vi uma criança na rua, elas são cuidadas e têm todo o apoio do governo.”” E alfineta de novo: ””Mas não existe liberdade. Não há jornais livres e isso é o que de pior pode acontecer.”” Liberdade consentida não merece esse nome. Ele lembra de um amigo, argelino, cartunista também, que se diz totalmente livre para fazer seu trabalho, ””desde que não fale do presidente, do Exército e da religião.”” Ri: ””Pode?””

A liberdade é o fundamento. Por isso, por crítico que seja em relação à França, reconhece essa virtude fundamental em seu país: ””Na França, temos um verdadeiro culto à liberdade. Você não vai ver nenhum presidente, de direita, esquerda ou centro, propor o que seja para tolher a liberdade de alguém ou da imprensa. Nenhum deles vai falar em Deus, também, porque temos um outro culto, que é o do Estado laico, e que vem do Século das Luzes.”” Brinca: ””A liberdade é tudo que podemos ter, mesmo porque a justiça não existe.”” Quer uma prova?: ””Se a justiça existisse, todos os homens teriam o pênis do mesmo tamanho.”” Diante dessa constatação empírica da absoluta falta de justiça deste mundo, temos de nos contentar com a liberdade. E já é muito.

A piada abre uma brecha para outra pergunta: e o lado erótico da sua obra? Para Wolinski, não há mistério: ””Simplesmente gosto das mulheres, e amo desenhá-las.”” O resto é conseqüência. Como sua personagem Paulette, uma das musas dos quadrinhos dos anos 60, ao lado da clássica Valentina, de Guido Crepax.

Além de desenhá-las, Wolinski gosta também de falar das mulheres. Elogia suas companheiras de júri: a chinesa Bai Ling, a italiana Caterina Murino e a francesa Joana Preiss. Todas atrizes. E todas ””deliciosas””, segundo o juízo de Wolinski. Ele diz que busca a sensualidade até mesmo nas charges mais sérias. Se há uma mulher em cena, seja uma repórter ou mesmo uma política, busca algum traço sensual, uma transparência, uma saia mais curta, um detalhe do corpo. ””Procuro fazê-las sensuais – como a chinesa””, diz, espichando o olho para Bai Ling, que se refresca no chuveiro do barco, bem à vontade. Aliás, Bai Ling foi uma das modelos recorrentes de Wolinski durante o festival.

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Bai Ling, segundo Wolinski

Coté masculino? O Rambo dos pobres, Aldenir Coti, que andou o tempo todo paramentado como o personagem de Sylvester Stallone.
rambo
Seria Wolinski um misógino? Nada disso. ””Fui talvez o primeiro a desenhar a mulher liberada, aquela que corre atrás do seu desejo e o manifesta para o homem.”” É assim seu álbum, de 1968, Je ne Pense qu””à Ça (Eu só penso nisso). E também sua personagem Paulette, nas histórias que escrevia em parceria com Pichard.

Os desenhos de mulheres saem naturalmente. Basta que uma delas lhe atice a libido, o que não parece tão difícil. Já as outras charges custam um pouco mais. Wolinski diz que há três fases em seu trabalho. Primeiro, a escolha do tema. ””É a parte mais difícil.”” Depois, a busca pela idéia, isto é, a forma de realizar o tema. Finalmente, o desenho – ””e esta é a fase mais fácil, sai num jato””, garante. Não há por que duvidar, vendo a facilidade com que anota o cotidiano à sua volta na implacável cadernetinha.
E o relacionamento com os políticos – ele que é tão crítico em relação a eles? ””Depois de tantos anos, a crítica também parece algo natural, e eles já se acostumaram a mim””, diz. Conta uma história. 

Depois de anos fazendo charges impiedosas de Jacques Chirac, encontrou o então presidente nas Ilhas de Reunião. Ambos em férias. E teve a surpresa de ser cumprimentado calorosamente pelo político, que se disse seu leitor e admirador. ””Qual não foi minha surpresa quando, na volta, ele me concedeu a Légion d””Honneur? Naturalmente, não estou com condecoração aqui””, diz, rindo-se.

O cartunista é sempre da oposição ou pode eventualmente apoiar algum governo? Wolinski responde de outra maneira: ””Essa é uma vasta discussão, que pode ser resumida assim: o humor pode ser de direita?”” Ele acha que não. A direita tem muitas certezas, e uma série de valores a defender. Alguém de direita pode ser bom satirista, nunca humorista. ””O humor é de esquerda, é uma lucidez na maneira de ver a sociedade que a direita não possui, por estar comprometida demais com a ordem estabelecida.””

Wolinski despertou para a política em momento privilegiado da esquerda francesa, o maio de 1968. Sobrou alguma coisa daquela época das barricadas do Quartier Latin? ””Com essa sua pergunta voltamos a Sarkozi, que deseja destruir a memória de 68. Não consigo entender esse ódio ao maio de 1968. Claro, havia aquele negócio maoísta e trotskista, que era mesmo muito chato, pois eram como sacerdotes e suas seitas… Mas o resto…””

E o que era o resto? ””Foi uma época de reflexão, de alegria, de busca da liberdade.”” Incluindo a liberdade sexual, que já vinha de antes e explode em 68. ””Nós nos aproveitamos muito bem da pílula… até que veio a aids. Mas, entre a pílula e a aids, foi o paraíso, uma festa.”” Pelo bom humor de Wolinski, a festa continua. Mais amena, mas festa, ainda assim.
Foto de Rô Caetano

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José Saramago e a Democracia

Family Guy - Bugs Bunny

sexta-feira, 16 de março de 2012

Expresso Leste, Expresso Cego.

Burburinho. No canto do vagão, duas senhoras. Espremidas. Diziam:

  - Meu patrão faz propostas indecentes. Mas costuma pagar a comissão em dia...

A outra afogava-se em abstrações automáticas. Pensava também no patrão, que também fazia propostas decentes, quase-decentes, talvez, ou seriam indecentes? Pensava, talvez, no significado disso tudo.

À frente – o ar da experiência! Olhos que anunciam já tudo terem visto – ou são olhos de sono? Três jovens, entre si fabulam:

  - O sujeito faz três entrevistas, não é admitido. É igual demissão, por justa causa. Não arruma mais nada. Não trabalha, é nunca mais, nesta vida...

Do lado, o custo-benefício:

  - Tem que completar a renda. Bico, ajudante de ajudante, hora-extra... Não dá pra parar.

  - Pois é. Eu, por exemplo, concordo, quer dizer, concerto, nas horas vagas, máquinas de escrever, principalmente aquelas lançadas na década de cinquenta ...

Longe, dois senhores. Adivinhei. Um deles balançava a cabeça afirmativamente. 

Movimentos resignados de pescoço, melhor dizendo: olhos fechados. O da esquerda concordava com o provável diagnóstico que o outro lhe fazia.

Havia didatismo nos gestos. E brilho nos olhos. Promovido, talvez. Ou suprimido.

Acerquei-me. Aproximou-se o homem - um homem é um homem aliás. Pude divisar o tom de denúncia. O homem - que é um homem? - pode divisar a certeza. Ouvi do que se tratava. O homem ouviu. (Já deve ter começado o jogo do corinthians!) Quem ouviu?

  - O capitalismo precisa acabar. A grande conclusão. Basta olhar a sua volta...

Indicou o vagão. Saí para que pudessem contemplar o mesmo espetáculo que eu contemplava minutos atrás.

Meu movimento indicou-lhes que prestava atenção no que diziam. Olharam-me, e a si próprios, com antipatia treinada. Na escola da vida! Ergueram-se e saíram com os cotovelos abertos. Asas, talvez.

Voltei. Vozes lá fora, na rua. Atores gritavam. Tom de denúncia também. Ora! Era tarde. Estava na linha errada. Fim de linha! Zero à esquerda. Extinção. Voltar. Calmamente saí.

João .

quinta-feira, 15 de março de 2012