O Coletivo Cinefusão surge, no final de 2008, a partir da iniciativa de trabalhadores de diversas áreas - cinema, jornalismo, publicidade, artes cênicas, filosofia, arquitetura, fotografia -, empenhados em criar primeiramente uma rede colaborativa que pudesse dar conta da junção dessas linguagens e também da possibilidade de abarcar potencialidades em busca de produção artística independente, mas também de reflexões concretas acerca da sociedade. É principalmente sobre este último pilar de atuação política, que o grupo vem, atualmente, pensando o cinema, sempre vinculado a outras expressões artísticas e movimentos sociais.

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sexta-feira, 15 de junho de 2012

Companhia Antropofágica na Mostra Trabalho de Grupo





Companhia Antropofágica na Mostra Trabalho de Grupo 

Dentro das atividades comemorativas de seus 15 anos, a Companhia do Latão apresenta a Mostra Trabalho de Grupo, que integra o Projeto de Ocupação do Teatro de Arena Eugênio Kusnet. Alguns dos mais combativos grupos teatrais da cidade mostram como trabalham. Sete coletivos de São Paulo abrem seus processos com apresentações artísticas comentadas, seguidas de debate com a plateia.

Companhia Antropofágica, dias 16 e 17 de junho

Sábado às 20 horas. Domingo às 19 horas.

Através de canções, cenas e debates, utilizando uma estrutura épico-didático-revisteira, a Cia. Antropofágica mostra recortes de seus processos de pesquisa e produção. Para tanto serão apresentados fragmentos de espetáculos, estudos e leituras presentes em seus 10 anos de trajetória, entre eles Macunaíma no País do Rei da Vela; A Tragédia de João e Maria; Os Náufragos da Rua Constança; Mas afinal, o que é a Liberdade?; Zumbi or not Zumby; Karroça Antropofágica; Kabaré Antropofágico; O Auto dos 99%; as duas primeiras partes da trilogia Liberdade em Pi(y)ndorama e os atuais experimentos cênicos para a terceira parte.

Tendo como proposta de pesquisa a incorporação da antropofagia como princípio criador e motivador de todo processo artístico, o grupo devora a História do Brasil a fim de debater questões como a indústria cultural e o desenvolvimento da luta de classes, modificando e ressignificando fatos e documentos históricos.



Serviço
Duração: 1h30 (apresentação) 30min. (debate)
Censura: 16 anos
Teatro de Arena Eugênio Kusnet
Rua Teodoro Baima, 94
Entrada Franca

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Atuação crítica: A utopia segundo Chico de Oliveira


Trecho da entrevista com Chico de Oliveira para o Livro "Atuação Crítica", de Sergio de Carvalho e outros colaboradores.


"[...] Na verdade, o que eu estou querendo dizer é o seguinte: no mundo da mercadoria, a pior coisa que pode acontecer a alguém é não ser mercadoria. Não se pode fazer uma análise histórico-sociológica rigorosa que seja despregada do tempo, como se nós existíssemos sem a racionalidade burguesa. Isto seria uma forma de pensamento idealista. Você tem que sentar a bunda e comparar. Se você foi criado pela racionalidade burguesa ocidental, você está imerso nela. É ilusão pensar que a nossa sociabilidade é herdada da tribalidade indígena ou ancestralidade africana. Os elementos que persistiram dessa sociabilidade não estruturam a forma de relação social. Agora, se as categorias de racionalidade burguesa não foram socialmente  construídas no seu interior, esse é o pior pesadelo que pode acontecer. O segundo passo, no qual é preciso prestar atenção, é verificar que não se pode mais alcançar estas categorias. É mostrar que toda vez que se tenta realizar o projeto burguês nas condições em que a periferia foi formada, isso dá em totalitarismo. Numa sociedade que não tem autonomia, que não tem mercado, quando se proclama "a regra agora é a do mercado", tem início o totalitarismo. E por isso se coloca o projeto utópico: a sua obrigação é, por via da racionalidade burguesa, ultrapassá-la. A utopia passa a ser o movimento de dizer que toda vez que a burguesia tenta atender aos interesses de todo mundo  - girando em torno de categorias como lucro, competitividade e iniciativa individual - isso não vai ser possível, e e ela vai se tornar totalitária. Porque as condições concretas da sociedade fazem com que isso seja uma operação de destruição e não de criação. Mas não se dá o segundo passo sem o primeiro. Sem explorar as virtualidades criadas pelo campo do capitalismo, você não tem nem pensamento utópico. Você precisa antes desmontar. Uma coisa é ter pensamento utópico, a outra coisa é ser idealista e apenas dizer "vamos fazer uma mundo melhor". A utopia é sempre uma crítica radical."

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

"O Tao do Marxismo"



(Resenha de Sergio de Carvalho publicada na Folha de São Paulo, 27.02.2000, Caderno Mais, p.5-24, quando do lançamento do livro.)

Certos pensamentos são como os burocratas, teriam que possibilitar a produção, mas, ao invés disso, eles a dificultam. Essa observação de Brecht se refere a tudo o que “O Método Brecht”, de Fredric Jameson, não faz: não se serve de generalidades, não proclama empecilhos, não foge do problema, não hiperestima o estágio atual do capitalismo.

É um trabalho realmente útil porque consegue dar respostas afirmativas à pergunta sobre a utilidade contemporânea de Brecht (1898-1956) e sobretudo porque desmascara um certo comportamento paralisante da crítica de arte atual, presente tanto na despolitização diversiforme dos pós-modernistas multiculturalistas (que, no fundo, escrevem a serviço de uma visão política) como também presente no rigorismo de outros críticos mais lúcidos, que, no compasso da dialética negativa, parecem andar mais interessados no tema do esvaziamento da esquerda do que em realizar a passagem disso para o projeto de um caminho possível para uma sociedade melhor.

O ensaio de Jameson é útil porque examina o procedimento artístico de Brecht do ponto de vista de sua praticabilidade. Filia-se assim ao melhor da tradição crítica brechtiana, não a dos parafraseadores de aspectos isolados, mas a daqueles que tentam reconhecer na obra do poeta alemão um grande processo – o que Jameson chama de “método” – em que cada ato artístico é uma operação concreta que se dá em relação de interlocução momentânea e projetiva e sem que a análise deixe de assumir que ela própria também se inscreve num momento histórico.

Foi nesse sentido que Walter Benjamin desenvolveu o conceito de “produtor” e que Bernard Dort falou em um “sistema” e que José Antonio Pasta Jr. discutiu a classicidade antiburguesa de Brecht como um “trabalho”, operação em que teoria e prática se sintetizam, num estudo, diga-se de passagem, excelente e que chega a observações muito semelhantes às de Fredric Jameson.

O “método” brechtiano não se desenvolve, portanto, do lado de fora da obra, mas sim a organizando e sendo organizado pela materialidade dinâmica da dramaturgia, dos escritos teóricos e da atitude artística em relação aos meios de produção. Numa passagem, Jameson compara o “método” a um manual de mecânica popular, imagem que sugere tanto o antiformalismo dos procedimentos como seu intuito de uma pedagogia destinada a produtores (e não a consumidores) que concebe os espectadores como “atores” no sentido mais original do termo.

O mais inesperado, no entanto, é o modo como apresenta o específico da dialética brechtiana, que, sem abrir mão das categorias tradicionais do materialismo histórico, parece ser movida por uma espécie de “metafísica” chinesa, resultando num “Tao marxista” que atua a partir de contradições não só históricas, mas poéticas, em que o primado do social e do compromisso político se sintetiza em uma ética produtiva.

Com fragmentos do “Me-Ti/Livro das Reviravoltas”, de Brecht, Fredric Jameson demonstra a “operação” brechtiana em três planos: na linguagem, nos modelos narrativos e no modo de pensamento. Estuda o provérbio como padrão de linguagem, entendido como forma portadora da luta de classe, como síntese de experiência dos explorados, visão próxima à dos modos de produção agrários, a que Brecht conjugará os ritmos de tecnologias modernas, como o rádio.

Estuda também o gosto brechtiano pelas formas narrativas que exigem juízos sobre contradições, como a parábola e o “caso” jurídico, concebidas como “gestus” na medida em que concretizam processos sociais característicos. Jameson estuda, em última instância, uma doutrina do estranhamento possibilitadora de uma práxis.

Para quem tomou ao pé da letra a opinião de que o “estranhamento” brechtiano perdeu a eficácia nas atuais circunstâncias históricas porque seu alinhamento automático com o socialismo se tornou ideologia, Jameson propõe um olhar revitalizador. O estranhamento, como técnica de objetualização das formas, é des-objetualizador quando instaura um processo de aprendizagem da história, quando propicia a intervenção conceitual nos acontecimentos.

O crucial desse processo não é oferecer uma teoria positiva das consequências (o melhor do teatro brechtiano está no desvendamento cômico do que não devia ser essa sociedade), mas é sobretudo não evitá-las. Evitar as consequências transformadoras é que se constitui em ideologia. E sem uma meta – que continua a ser a construção do socialismo – o “método” Brecht não faz sentido, e a arte política está confinada à moralidade e ao desespero. Numa época em que a atividade consequente não está na ordem do dia e “o destino parece novamente desconectado da história”, a ativação brechtiana propõe a retomada de um trabalho coletivo, no mínimo o de superar a “idéia de uma situação global que não pode ser mudada”.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

“Se uma sociedade é dividida em classes por que o teatro tem de fingir que somos uma comunhão?"


"E a mesma crise aconteceu com o nosso grupo. Parte dos atores achava que a peça estava marcando demais uma posição crítica contra uma certa fase do pensamento tropicalista (esse que acredita que o capitalismo emancipa). E outra parte do grupo defendia que precisávamos ironizar com mais força essa visão de mundo (a do aderir-criticando e criticar-aderindo) que se tornou vitoriosa no nosso mundinho da cultura. "


“Se uma sociedade é dividida em classes por que o teatro tem de fingir que somos uma comunhão?"





Começei por um trecho do encenador e dramaturgo da "Cia do Latão", que me parece exprimir de maneira categórica a comum dúvida em relação ao teatro e estética política, ou o "teatro como poética política": Deveria a arte "ser politica"?

Não é atoa que ser e politico estão postos entre aspas. Se não mais reduzíssemos política a uma atividade particular de estado, e ainda mais vulgarmente, relacionada, única e simplesmente, às atividades partidárias e/ou burocráticas, obviamente resolveria o problema, já que toda e qualquer atividade em sociedade estaria diretamente relacionada à ela.  

"Ser", de alguma forma, Piscator, Brecht, Augusto Boal, e ainda mais contemporaneamente falando, a cia do latão, representada pela figura de Sergio Carvalho, ou os grupos de teatro atuais que levam a prática brechtiana, ou seja o teatro dialético, nos mostram que não se trata, necessariamente, de "ser politico" mas que ao se  trabalhar artisticamente, seja qual for a escolha estética, há um momento em que a estética não se separa da politica, mas pelo contrário, num processo dialético, compõem o ponto nevrálgico de estruturação dramática, de encenação.

Como se no teatro, a política se tornasse linguagem e linguagem politica, mas se negando e finalmente constituindo um síntese que seria novamente negada. E não se trata, é claro, do sentido alienado da política, talvez pudéssemos ainda dizer que esses grupos retomam o sentido politico próximo de sua significação primeva¹. 

Claro, na citação de Sergio Carvalho há claramente uma relação direta com a vida politica, e o sistema que deturpa e mantém o conceito atual de política - o capitalismo. Contudo, ainda que também um instrumento de debate e embate sobre a sociedade, a politica no teatro se torna poética e crítica, plasticamente. Que ao mesmo tempo não espera a revolução pós-espetáculo, mas que não deixa de desejá-la e fabricar esses sonhos, dentro dessa troca ativa, cujo qual público e encenação se tornam fruto de um único e complexo processo.