O Coletivo Cinefusão surge, no final de 2008, a partir da iniciativa de trabalhadores de diversas áreas - cinema, jornalismo, publicidade, artes cênicas, filosofia, arquitetura, fotografia -, empenhados em criar primeiramente uma rede colaborativa que pudesse dar conta da junção dessas linguagens e também da possibilidade de abarcar potencialidades em busca de produção artística independente, mas também de reflexões concretas acerca da sociedade. É principalmente sobre este último pilar de atuação política, que o grupo vem, atualmente, pensando o cinema, sempre vinculado a outras expressões artísticas e movimentos sociais.
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sexta-feira, 15 de junho de 2012
Companhia Antropofágica na Mostra Trabalho de Grupo
Companhia Antropofágica na Mostra Trabalho de Grupo
Dentro das atividades comemorativas de seus 15 anos, a Companhia do Latão apresenta a Mostra Trabalho de Grupo, que integra o Projeto de Ocupação do Teatro de Arena Eugênio Kusnet. Alguns dos mais combativos grupos teatrais da cidade mostram como trabalham. Sete coletivos de São Paulo abrem seus processos com apresentações artísticas comentadas, seguidas de debate com a plateia.
Companhia Antropofágica, dias 16 e 17 de junho
Sábado às 20 horas. Domingo às 19 horas.
Através de canções, cenas e debates, utilizando uma estrutura épico-didático-revisteira, a Cia. Antropofágica mostra recortes de seus processos de pesquisa e produção. Para tanto serão apresentados fragmentos de espetáculos, estudos e leituras presentes em seus 10 anos de trajetória, entre eles Macunaíma no País do Rei da Vela; A Tragédia de João e Maria; Os Náufragos da Rua Constança; Mas afinal, o que é a Liberdade?; Zumbi or not Zumby; Karroça Antropofágica; Kabaré Antropofágico; O Auto dos 99%; as duas primeiras partes da trilogia Liberdade em Pi(y)ndorama e os atuais experimentos cênicos para a terceira parte.
Tendo como proposta de pesquisa a incorporação da antropofagia como princípio criador e motivador de todo processo artístico, o grupo devora a História do Brasil a fim de debater questões como a indústria cultural e o desenvolvimento da luta de classes, modificando e ressignificando fatos e documentos históricos.
Serviço
Duração: 1h30 (apresentação) 30min. (debate)
Censura: 16 anos
Teatro de Arena Eugênio Kusnet
Rua Teodoro Baima, 94
Entrada Franca
terça-feira, 29 de maio de 2012
quarta-feira, 28 de março de 2012
Os desafios da dramaturgia sonora
Por Martin Eikmeier
Texto publicdo originalmente no site:
http://www.spescoladeteatro.org.br/noticias/ver.php?id=291
"Uma pequena batida na vidraça, como se qualquer coisa a tivesse atingido, seguida de uma ampla queda leve como grãos de areia que deixassem tombar do alto de uma janela, em cima, e depois a queda estendendo-se, regulando-se, adotando um ritmo, tornando-se fluida, sonora musical, inumerável, universal: a chuva." Marcel Proust
Este curto e precioso trecho do primeiro volume da obra de Proust Em busca dotempo perdido narra uma das memórias de seu personagem principal ligada à sua infância. Um dos traços marcantes, e que fazem da obra de Proust uma das leituras mais instigantes e prazerosas da literatura moderna, é a maneira pela qual ele organiza suas memórias explorando e descrevendo experiências que reúnem e articulam todos os nossos sentidos: o prazer de olhar os pilriteiros, os sabores dos pratos preparados por Fançoise, a música ou mesmo a lembrança de uma atenta escuta endereçada ao som da chuva.
Cada um destes momentos define aos poucos o personagem que passamos a conhecer e a nos interessar, compartilhamos e identificamos algumas de suas experiências como sefossem nossas. Como procurou nos mostrar Walter Benjamin em A imagem de Proust há um vínculo que se estabelece com o leitor por meio da semelhança entre a experiência narrada e aexperiência que se supõe ter sido de fato vivida. Proust contribui para que o próprio leitorelabore, ele mesmo, suas memórias na esfera do sonho, completando com a imaginação as lacunas produzidas pelo esquecimento. O som, tal como usado por Proust neste trecho, não tem o poder de produzir um referente preciso como a imagem, solicitando do espectador a tarefa de imaginar, de completar os espaços deixados pela imprecisão. E é justamente nesta imprecisão que está a beleza e a graça desta passagem: Proust nos convida a imaginar os sons a resgatar (ou construir) uma memória semelhante. Neste processo somos submetidos a formar nossos próprios vínculos com esta memória, que diante da relação estabelecida por
aquele personagem com a chuva acaba por se misturar com a dele. Benjamin conclui: "A semelhança entre dois seres, a que estamos habituados e com que nos confrontamos em estado de vigília, é apenas um reflexo impreciso da semelhança mais profunda que reina no mundo dos sonhos, em que os acontecimentos não são nunca idênticos, mas semelhantes, impenetravelmente semelhantes entre si."
Esta é uma lição fundamental para aquele que tem diante de si a tarefa de contar histórias. Como usar a própria memória e a relação que estabelecemos com nossas experiências na construção de uma dramaturgia? Sendo o som um dos elos mais importantes que estabelecemos como mundo à nossa volta, que tipo de escuta pode ser endereçada a um fenômeno como a chuva, por exemplo? Ou ainda, como reorganizar esta escuta no ato de narrar, partindo do pressuposto de que em um universo narrado, ou ainda, na arte há sempre a transformação de episódios cotidianos em algo extraordinário (a própria obra de Proust é uma das mais brilhantes defesas deste ponto de vista).
Em específico para o sonoplasta esta passagem pode ser bastante proveitosa. Longe de ser apenas um recurso narrativo, que nos revela a presença da chuva através de um índice sonoro, em Proust, o som que ela produz ocupa a esfera do simbólico, já que a maneira que ele a nos faz escutar diz também algo sobre quem a escuta. Sabemos, no mínimo, tratar-se de um ouvinte atento sempre pronto a extrair de uma experiência cotidiana como esta, uma contemplação expressiva. Além disso, a incompletude que o recurso literário o som implica, faz um convite à imaginação estabelecendo ali um vínculo de intimidade entre autor eleitor.
A segunda lição que tiramos de Proust é a dica que ele nos dá a cerca do caráter universal de um som. Diferente da palavra que depende de um interlocutor capaz de decifrar seus códigos (como no caso de uma língua específica compartilhada apenas por aqueles que a conhecem), o universo de ruídos que nos cerca é igual para todos. Com certeza o som da chuva nos trópicos difere daquele que escutamos em outras partes do mundo, mas diante de uma ou outra sabemos tratar-se da chuva. Há, no entanto, as conotações que o som e a memória que ele provoca podem produzir. A mesma chuva pode, por exemplo, conotardesgraça ou salvação. Na construção de uma história a medida de uma ou outra é dada pela relação estabelecida com a experiência de um personagem. Compartilharemos a celebração da chuva com um personagem cuja vida está ameaçada pela seca? Ainda que em nossa própriaexperiência o fenômeno chuva esteja associado a algo contrário; diante do contexto construído para o personagem, somos aliciados à identificação sem, contudo, nos rendermos necessariamente a ela. A fruição se dá na tensão entre a relação que estabelecemos entre um fenômeno e nossa experiência pessoal, e a relação estabelecida pelo outro o autor.
A terceira lição encontra-se no domínio da prática: Proust nos descreve o som produzido pela chuva usando a areia como recurso. Este é um dos expedientes mais fundamentais para um sonoplasta. Como produzir o som que se associa a um objeto utilizando outro, mais cabível no contexto de um palco ou mesmo de um estúdio? Para isso é necessário endereçar ao mundo a mesma escuta atenta sugerida pelo personagem de Proust. Cascas crocantes de sorvete se transformam em um ovo sendo quebrado por dentro por um animal que ganha a vida, uma tempestade de areia pode chegar aos nossos ouvidos através de um isopor sendo friccionado contra a parede. Esta escuta implica inclusive em extrair do mundo sons de fenômenos aparentemente silenciosos: o medo, a morte, a felicidade. A cada um destes podemos atribuir em nossa experiência pessoal um som respectivo. Este obviamente,só servirá como componente narrativo, se tal como Proust o fez com a chuva para representar o saudosismo de seu personagem pela infância e mais precisamente pela atitude da criança diante das coisas que a cercam, se estiver em um contexto que o explique, que o associeàquele fenômeno e que possa, portanto ser compartilhado com um ou mais interlocutores.
Em uma época onde a oportunidade de se escutar, sejam os sons musicais ou concretos, é infinita, tendo em vista a possibilidade de registro e também de sua circulação facilitada pela tecnologia, a escuta se banalizou. É raro em roteiro de filmes, textos de peças de teatro, ou quaisquer que sejam as formas narrativas onde a presença do som é presumível, encontrarmos referências a algum ruído que não esteja apenas servindo à tarefa de substituirem cena a presença do objeto que o produz. Guerras, tempestades, ambientes dos mais variados possíveis são comportadamente dispostos nas caixas acústicas dos teatros e dos cinemas quando a sua visualização é impossível de ser completamente reproduzida ou mesmo não se faz necessária. Este barateamento das formas de se articular uma trilha sonora em cena se deve a uma série de fatores que orbitam, até certo ponto, em torno de um mesmo problema: a relação de trabalho. Geralmente o lugar do sonoplasta, ou do músico na rotina de produção de uma obra, seja no cinema ou no teatro, se dá no fim de um processo, quando a
história já está pronta para ser apresentada ao público. Como conseqüência é natural que seu trabalho seja desempenhado de forma alienada deste processo, restringindo a possibilidade deste profissional atuar como um colaborador na dramaturgia o que provoca um embotamento criativo, uma inércia que o leva a reconhecer a si mesmo mais como um técnico, ou um especialista do que um artista.
Este é um dos principais desafios do ensino em sonoplastia e trilha sonora: procurar compreender os sons que dispomos em um espetáculo ou filme como um elemento narrativo, ou seja, para além de sua disposição descritiva, para além do efeito formal. É certo que os problemas formais e técnicos, com os quais o artista irá se deparar devem ser dominados por ele. Contudo, é importante que estas tarefas apareçam como conseqüência de uma necessidade anterior a uma ou outra possibilidade técnica que possa vir a ser considerada: contar uma história ou, no mínimo, produzir uma experiência para o espectador. Podemos tirar muitas lições da literatura, da crítica literária, do cinema, dos estudos em narrativa ou em dramaturgia. Neste sentido, a defesa que se procura fazer aqui é a de que o sonoplasta pense para além dos sons, para além da música e que enfrente o desafio de considerar seu trabalho antes de tudo como o de um dramaturgo.
Para concluir vale lembrar uma consideração fundamental que contribui para sustentar este ponto de vista, escrita por Ernst Fischer em A necessidade da arte: "A arte é o meio indispensável para (...) a união do indivíduo com o todo; reflete a infinita capacidade humana para a associação, para a circulação de experiências e idéias."
Texto publicdo originalmente no site:
http://www.spescoladeteatro.org.br/noticias/ver.php?id=291
"Uma pequena batida na vidraça, como se qualquer coisa a tivesse atingido, seguida de uma ampla queda leve como grãos de areia que deixassem tombar do alto de uma janela, em cima, e depois a queda estendendo-se, regulando-se, adotando um ritmo, tornando-se fluida, sonora musical, inumerável, universal: a chuva." Marcel Proust
Este curto e precioso trecho do primeiro volume da obra de Proust Em busca dotempo perdido narra uma das memórias de seu personagem principal ligada à sua infância. Um dos traços marcantes, e que fazem da obra de Proust uma das leituras mais instigantes e prazerosas da literatura moderna, é a maneira pela qual ele organiza suas memórias explorando e descrevendo experiências que reúnem e articulam todos os nossos sentidos: o prazer de olhar os pilriteiros, os sabores dos pratos preparados por Fançoise, a música ou mesmo a lembrança de uma atenta escuta endereçada ao som da chuva.
Cada um destes momentos define aos poucos o personagem que passamos a conhecer e a nos interessar, compartilhamos e identificamos algumas de suas experiências como sefossem nossas. Como procurou nos mostrar Walter Benjamin em A imagem de Proust há um vínculo que se estabelece com o leitor por meio da semelhança entre a experiência narrada e aexperiência que se supõe ter sido de fato vivida. Proust contribui para que o próprio leitorelabore, ele mesmo, suas memórias na esfera do sonho, completando com a imaginação as lacunas produzidas pelo esquecimento. O som, tal como usado por Proust neste trecho, não tem o poder de produzir um referente preciso como a imagem, solicitando do espectador a tarefa de imaginar, de completar os espaços deixados pela imprecisão. E é justamente nesta imprecisão que está a beleza e a graça desta passagem: Proust nos convida a imaginar os sons a resgatar (ou construir) uma memória semelhante. Neste processo somos submetidos a formar nossos próprios vínculos com esta memória, que diante da relação estabelecida por
aquele personagem com a chuva acaba por se misturar com a dele. Benjamin conclui: "A semelhança entre dois seres, a que estamos habituados e com que nos confrontamos em estado de vigília, é apenas um reflexo impreciso da semelhança mais profunda que reina no mundo dos sonhos, em que os acontecimentos não são nunca idênticos, mas semelhantes, impenetravelmente semelhantes entre si."
Esta é uma lição fundamental para aquele que tem diante de si a tarefa de contar histórias. Como usar a própria memória e a relação que estabelecemos com nossas experiências na construção de uma dramaturgia? Sendo o som um dos elos mais importantes que estabelecemos como mundo à nossa volta, que tipo de escuta pode ser endereçada a um fenômeno como a chuva, por exemplo? Ou ainda, como reorganizar esta escuta no ato de narrar, partindo do pressuposto de que em um universo narrado, ou ainda, na arte há sempre a transformação de episódios cotidianos em algo extraordinário (a própria obra de Proust é uma das mais brilhantes defesas deste ponto de vista).
Em específico para o sonoplasta esta passagem pode ser bastante proveitosa. Longe de ser apenas um recurso narrativo, que nos revela a presença da chuva através de um índice sonoro, em Proust, o som que ela produz ocupa a esfera do simbólico, já que a maneira que ele a nos faz escutar diz também algo sobre quem a escuta. Sabemos, no mínimo, tratar-se de um ouvinte atento sempre pronto a extrair de uma experiência cotidiana como esta, uma contemplação expressiva. Além disso, a incompletude que o recurso literário o som implica, faz um convite à imaginação estabelecendo ali um vínculo de intimidade entre autor eleitor.
A segunda lição que tiramos de Proust é a dica que ele nos dá a cerca do caráter universal de um som. Diferente da palavra que depende de um interlocutor capaz de decifrar seus códigos (como no caso de uma língua específica compartilhada apenas por aqueles que a conhecem), o universo de ruídos que nos cerca é igual para todos. Com certeza o som da chuva nos trópicos difere daquele que escutamos em outras partes do mundo, mas diante de uma ou outra sabemos tratar-se da chuva. Há, no entanto, as conotações que o som e a memória que ele provoca podem produzir. A mesma chuva pode, por exemplo, conotardesgraça ou salvação. Na construção de uma história a medida de uma ou outra é dada pela relação estabelecida com a experiência de um personagem. Compartilharemos a celebração da chuva com um personagem cuja vida está ameaçada pela seca? Ainda que em nossa própriaexperiência o fenômeno chuva esteja associado a algo contrário; diante do contexto construído para o personagem, somos aliciados à identificação sem, contudo, nos rendermos necessariamente a ela. A fruição se dá na tensão entre a relação que estabelecemos entre um fenômeno e nossa experiência pessoal, e a relação estabelecida pelo outro o autor.
A terceira lição encontra-se no domínio da prática: Proust nos descreve o som produzido pela chuva usando a areia como recurso. Este é um dos expedientes mais fundamentais para um sonoplasta. Como produzir o som que se associa a um objeto utilizando outro, mais cabível no contexto de um palco ou mesmo de um estúdio? Para isso é necessário endereçar ao mundo a mesma escuta atenta sugerida pelo personagem de Proust. Cascas crocantes de sorvete se transformam em um ovo sendo quebrado por dentro por um animal que ganha a vida, uma tempestade de areia pode chegar aos nossos ouvidos através de um isopor sendo friccionado contra a parede. Esta escuta implica inclusive em extrair do mundo sons de fenômenos aparentemente silenciosos: o medo, a morte, a felicidade. A cada um destes podemos atribuir em nossa experiência pessoal um som respectivo. Este obviamente,só servirá como componente narrativo, se tal como Proust o fez com a chuva para representar o saudosismo de seu personagem pela infância e mais precisamente pela atitude da criança diante das coisas que a cercam, se estiver em um contexto que o explique, que o associeàquele fenômeno e que possa, portanto ser compartilhado com um ou mais interlocutores.
Em uma época onde a oportunidade de se escutar, sejam os sons musicais ou concretos, é infinita, tendo em vista a possibilidade de registro e também de sua circulação facilitada pela tecnologia, a escuta se banalizou. É raro em roteiro de filmes, textos de peças de teatro, ou quaisquer que sejam as formas narrativas onde a presença do som é presumível, encontrarmos referências a algum ruído que não esteja apenas servindo à tarefa de substituirem cena a presença do objeto que o produz. Guerras, tempestades, ambientes dos mais variados possíveis são comportadamente dispostos nas caixas acústicas dos teatros e dos cinemas quando a sua visualização é impossível de ser completamente reproduzida ou mesmo não se faz necessária. Este barateamento das formas de se articular uma trilha sonora em cena se deve a uma série de fatores que orbitam, até certo ponto, em torno de um mesmo problema: a relação de trabalho. Geralmente o lugar do sonoplasta, ou do músico na rotina de produção de uma obra, seja no cinema ou no teatro, se dá no fim de um processo, quando a
história já está pronta para ser apresentada ao público. Como conseqüência é natural que seu trabalho seja desempenhado de forma alienada deste processo, restringindo a possibilidade deste profissional atuar como um colaborador na dramaturgia o que provoca um embotamento criativo, uma inércia que o leva a reconhecer a si mesmo mais como um técnico, ou um especialista do que um artista.
Este é um dos principais desafios do ensino em sonoplastia e trilha sonora: procurar compreender os sons que dispomos em um espetáculo ou filme como um elemento narrativo, ou seja, para além de sua disposição descritiva, para além do efeito formal. É certo que os problemas formais e técnicos, com os quais o artista irá se deparar devem ser dominados por ele. Contudo, é importante que estas tarefas apareçam como conseqüência de uma necessidade anterior a uma ou outra possibilidade técnica que possa vir a ser considerada: contar uma história ou, no mínimo, produzir uma experiência para o espectador. Podemos tirar muitas lições da literatura, da crítica literária, do cinema, dos estudos em narrativa ou em dramaturgia. Neste sentido, a defesa que se procura fazer aqui é a de que o sonoplasta pense para além dos sons, para além da música e que enfrente o desafio de considerar seu trabalho antes de tudo como o de um dramaturgo.
Para concluir vale lembrar uma consideração fundamental que contribui para sustentar este ponto de vista, escrita por Ernst Fischer em A necessidade da arte: "A arte é o meio indispensável para (...) a união do indivíduo com o todo; reflete a infinita capacidade humana para a associação, para a circulação de experiências e idéias."
segunda-feira, 5 de março de 2012
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
Flores ao burguês..."Lixão", Cia do Latão - Canções de Cena II
"Sobra de garrafa fresca
resto de patês azuis
caco de carniça velha
flores ao burguês"
"Lixão", Cia do Latão - Canções de Cena II from Danilo J. Santos on Vimeo.
resto de patês azuis
caco de carniça velha
flores ao burguês"
terça-feira, 21 de fevereiro de 2012
"O Tao do Marxismo"
(Resenha de Sergio de Carvalho publicada na Folha de São Paulo, 27.02.2000, Caderno Mais, p.5-24, quando do lançamento do livro.)
Certos pensamentos são como os burocratas, teriam que possibilitar a produção, mas, ao invés disso, eles a dificultam. Essa observação de Brecht se refere a tudo o que “O Método Brecht”, de Fredric Jameson, não faz: não se serve de generalidades, não proclama empecilhos, não foge do problema, não hiperestima o estágio atual do capitalismo.
É um trabalho realmente útil porque consegue dar respostas afirmativas à pergunta sobre a utilidade contemporânea de Brecht (1898-1956) e sobretudo porque desmascara um certo comportamento paralisante da crítica de arte atual, presente tanto na despolitização diversiforme dos pós-modernistas multiculturalistas (que, no fundo, escrevem a serviço de uma visão política) como também presente no rigorismo de outros críticos mais lúcidos, que, no compasso da dialética negativa, parecem andar mais interessados no tema do esvaziamento da esquerda do que em realizar a passagem disso para o projeto de um caminho possível para uma sociedade melhor.
O ensaio de Jameson é útil porque examina o procedimento artístico de Brecht do ponto de vista de sua praticabilidade. Filia-se assim ao melhor da tradição crítica brechtiana, não a dos parafraseadores de aspectos isolados, mas a daqueles que tentam reconhecer na obra do poeta alemão um grande processo – o que Jameson chama de “método” – em que cada ato artístico é uma operação concreta que se dá em relação de interlocução momentânea e projetiva e sem que a análise deixe de assumir que ela própria também se inscreve num momento histórico.
Foi nesse sentido que Walter Benjamin desenvolveu o conceito de “produtor” e que Bernard Dort falou em um “sistema” e que José Antonio Pasta Jr. discutiu a classicidade antiburguesa de Brecht como um “trabalho”, operação em que teoria e prática se sintetizam, num estudo, diga-se de passagem, excelente e que chega a observações muito semelhantes às de Fredric Jameson.
O “método” brechtiano não se desenvolve, portanto, do lado de fora da obra, mas sim a organizando e sendo organizado pela materialidade dinâmica da dramaturgia, dos escritos teóricos e da atitude artística em relação aos meios de produção. Numa passagem, Jameson compara o “método” a um manual de mecânica popular, imagem que sugere tanto o antiformalismo dos procedimentos como seu intuito de uma pedagogia destinada a produtores (e não a consumidores) que concebe os espectadores como “atores” no sentido mais original do termo.
O mais inesperado, no entanto, é o modo como apresenta o específico da dialética brechtiana, que, sem abrir mão das categorias tradicionais do materialismo histórico, parece ser movida por uma espécie de “metafísica” chinesa, resultando num “Tao marxista” que atua a partir de contradições não só históricas, mas poéticas, em que o primado do social e do compromisso político se sintetiza em uma ética produtiva.
Com fragmentos do “Me-Ti/Livro das Reviravoltas”, de Brecht, Fredric Jameson demonstra a “operação” brechtiana em três planos: na linguagem, nos modelos narrativos e no modo de pensamento. Estuda o provérbio como padrão de linguagem, entendido como forma portadora da luta de classe, como síntese de experiência dos explorados, visão próxima à dos modos de produção agrários, a que Brecht conjugará os ritmos de tecnologias modernas, como o rádio.
Estuda também o gosto brechtiano pelas formas narrativas que exigem juízos sobre contradições, como a parábola e o “caso” jurídico, concebidas como “gestus” na medida em que concretizam processos sociais característicos. Jameson estuda, em última instância, uma doutrina do estranhamento possibilitadora de uma práxis.
Para quem tomou ao pé da letra a opinião de que o “estranhamento” brechtiano perdeu a eficácia nas atuais circunstâncias históricas porque seu alinhamento automático com o socialismo se tornou ideologia, Jameson propõe um olhar revitalizador. O estranhamento, como técnica de objetualização das formas, é des-objetualizador quando instaura um processo de aprendizagem da história, quando propicia a intervenção conceitual nos acontecimentos.
O crucial desse processo não é oferecer uma teoria positiva das consequências (o melhor do teatro brechtiano está no desvendamento cômico do que não devia ser essa sociedade), mas é sobretudo não evitá-las. Evitar as consequências transformadoras é que se constitui em ideologia. E sem uma meta – que continua a ser a construção do socialismo – o “método” Brecht não faz sentido, e a arte política está confinada à moralidade e ao desespero. Numa época em que a atividade consequente não está na ordem do dia e “o destino parece novamente desconectado da história”, a ativação brechtiana propõe a retomada de um trabalho coletivo, no mínimo o de superar a “idéia de uma situação global que não pode ser mudada”.
sexta-feira, 30 de setembro de 2011
“Se uma sociedade é dividida em classes por que o teatro tem de fingir que somos uma comunhão?"
"E a mesma crise aconteceu com o nosso grupo. Parte dos atores achava que a peça estava marcando demais uma posição crítica contra uma certa fase do pensamento tropicalista (esse que acredita que o capitalismo emancipa). E outra parte do grupo defendia que precisávamos ironizar com mais força essa visão de mundo (a do aderir-criticando e criticar-aderindo) que se tornou vitoriosa no nosso mundinho da cultura. "
“Se uma sociedade é dividida em classes por que o teatro tem de fingir que somos uma comunhão?"
Sergio de Carvalho em entrevista para a revista "Princípios"
Começei por um trecho do encenador e dramaturgo da "Cia do Latão", que me parece exprimir de maneira categórica a comum dúvida em relação ao teatro e estética política, ou o "teatro como poética política": Deveria a arte "ser politica"?
Não é atoa que ser e politico estão postos entre aspas. Se não mais reduzíssemos política a uma atividade particular de estado, e ainda mais vulgarmente, relacionada, única e simplesmente, às atividades partidárias e/ou burocráticas, obviamente resolveria o problema, já que toda e qualquer atividade em sociedade estaria diretamente relacionada à ela.
"Ser", de alguma forma, Piscator, Brecht, Augusto Boal, e ainda mais contemporaneamente falando, a cia do latão, representada pela figura de Sergio Carvalho, ou os grupos de teatro atuais que levam a prática brechtiana, ou seja o teatro dialético, nos mostram que não se trata, necessariamente, de "ser politico" mas que ao se trabalhar artisticamente, seja qual for a escolha estética, há um momento em que a estética não se separa da politica, mas pelo contrário, num processo dialético, compõem o ponto nevrálgico de estruturação dramática, de encenação.
Como se no teatro, a política se tornasse linguagem e linguagem politica, mas se negando e finalmente constituindo um síntese que seria novamente negada. E não se trata, é claro, do sentido alienado da política, talvez pudéssemos ainda dizer que esses grupos retomam o sentido politico próximo de sua significação primeva¹.
Claro, na citação de Sergio Carvalho há claramente uma relação direta com a vida politica, e o sistema que deturpa e mantém o conceito atual de política - o capitalismo. Contudo, ainda que também um instrumento de debate e embate sobre a sociedade, a politica no teatro se torna poética e crítica, plasticamente. Que ao mesmo tempo não espera a revolução pós-espetáculo, mas que não deixa de desejá-la e fabricar esses sonhos, dentro dessa troca ativa, cujo qual público e encenação se tornam fruto de um único e complexo processo.
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
COMPANHIA DO LATÃO ABRE EXPOSIÇÃO SOBRE SÉRGIO BUARQUE DE HOLANDA
FONTE E MATÉRIA ORIGINAL: http://www.facebook.com/notes/companhia-do-lat%C3%A3o/companhia-do-lat%C3%A3o-abre-exposi%C3%A7%C3%A3o-sobre-s%C3%A9rgio-buarque-de-holanda/264165060281096
Amanhã, dia 13 de setembro, às 17 horas, a Companhia do Latão apresenta uma leitura de fragmentos do livro Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda no evento de inauguração da exposição sobre a atualidade do autor no Instituto de Estudos Brasileiros da USP. Após a apresentação do grupo, haverá também uma conferência com o professor Antonio Candido.
A exposição Atualidade de Sérgio Buarque de Holanda é gratuita, aberta a todos e acontece na sala Marta Rossetti Batista, no IEB. Está aberta para visitação de segunda à sexta-feira, das 9 às 18 horas (exceto feriados), do dia 14 de setembro a 3 de fevereiro de 2012.
O IEB fica na Av. Prof. Mello Moraes, travessa 8, 140, Cidade Universitária, São Paulo.
Mais informações: (11) 3091-3247, e-mail colecieb@usp.br, site www.ieb.usp.br
domingo, 14 de agosto de 2011
Breves notas sobre um cinema-defunto
Ontem, ao assistir à peça "Opera dos Vivos"¹ da Cia do Latão, me surpreendi positivamente sobretudo com tamanha qualidade crítica em quatro experimentos independentes: o "teatro (dialética interrompida)"; o "cinema (alegoria trágica)"; a "música(sociedade do espetáculo)"; a "televisão (nação liquidificada)"².
Como adianto, a crítica ao cinema foi o que mais me impressionou. E o engraçado, é que ela não perece ter se dado durante o segundo ato, onde de fato vemos um filme, mas em seu último ato durante a gravação de um telefilme - o que não é lá grande surpresa, já que os modelos de produção são praticamente os mesmos.
Há um momento em que toda a equipe se cala, e olha para cima a figura do produtor. Acompanham seus passos, sem desviar os olhos, sem piscar, sem se mexer. Alegoria?
Não, definitivamente. O cinema sequer teve a chance de conhecer um "outro mundo", ele desembocou direto no capitalismo e incorporou todo seu modo de produção.
Mas o que mais me incomoda nisto tudo é ver que a atividade crítica no cinema, dele sobre ele, desaparece um pouco a cada dia. A reflexão sobre os meios de se chegar à tela - pc, tv, talvez cinema - se tornam "coisa de anacrônico", agora o que vale são perambulações pós-modernas. O legal é o gênio individual - pós moderno? quem é o anacrônico? Já que tal conceito já houvera sido quase extinto muito antes do ser próprio nascimento.
Conheci, trabalhando com cinema, algumas pessoas que sempre farei questão de ter ao lado, como, é claro, o coletivo, mas ao mesmo tempo foi o ambiente que mais me deu acesso a um número tão grande de imbecis.
O cinema de hoje cumpre uma única função: chegar ao set e cumprir o plano de produção. E, para isso, é necessário formar o maior número de idiotas-técnicos, ou técnicos-idiotas - do assistente de som ao diretor(obedeço aqui à hierarquia).
E, assim, esperamos então algumas semanas em cartaz, os próximos editais e algumas palestras de grandes cineastas-fetiche, para que enfim, os dois mil reais que você gastou por mês para se tornar um estúpido valham a pena.
¹ "Ópera dos vivos", Cia do Latão, em cartaz no CCSP (sexta 19h, sábado 18h e domingo 18h)
² Fragmento retirado do programa da peça.
quinta-feira, 4 de agosto de 2011
ÓPERA DOS VIVOS REESTRÉIA NO CENTRO CULTURAL SÃO PAULO
FONTE:http://blog.companhiadolatao.com.br/
ÓPERA DOS VIVOS
Centro Cultural São Paulo
Rua Vergueiro, 1000
Tel. 33974002
Sexta a domingo
Sexta às 19; sábado e domingo às 18
Ópera dos Vivos fica em cartaz no Centro Cultural São Paulo do dia 05 de agosto a 11 de setembro de 2011, de sexta a domingo. Sexta às 19; sábado e domingo às 18 horas.
Os ingressos podem ser adquiridos na bilheteria do Centro Cultural de terça a domingo, das 10 às 22 horas; ou pelo site do Ingresso Rápido: http://www.ingressorapido.com.br/Evento.aspx?ID=16415
ÓPERA DOS VIVOS
Centro Cultural São Paulo
Rua Vergueiro, 1000
Tel. 33974002
Sexta a domingo
Sexta às 19; sábado e domingo às 18
Classificação 16 anos
quarta-feira, 13 de abril de 2011
Circuito de Exibição do Vídeo Popular
FONTE: Informativo de imprensa da Companhia do Latão
15/04 - Sexta Feira - 19h30
Exibição dos vídeos:
Qual centro? (doc.15min./2010)
O vídeo debate o projeto de revitalização da região central de São Paulo através da documentação de uma ocupação num posto de gasolina.
Realização: Coletivo Nossa Tela.
FULERO CIRCO (fic.50min/2010)
Depois de tantos maus tratos, de viver entre os ratos e de achar o absurdo legal, a trupe FULERO CIRCO cruza o Brasil para apresentar as aberrações da história.
Realização: Companhia Estudo de Cena.
Local:
Estúdio do Latão
Rua Harmonia, 931(prox. ao metrô Vl. Madalena)
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