O Coletivo Cinefusão surge, no final de 2008, a partir da iniciativa de trabalhadores de diversas áreas - cinema, jornalismo, publicidade, artes cênicas, filosofia, arquitetura, fotografia -, empenhados em criar primeiramente uma rede colaborativa que pudesse dar conta da junção dessas linguagens e também da possibilidade de abarcar potencialidades em busca de produção artística independente, mas também de reflexões concretas acerca da sociedade. É principalmente sobre este último pilar de atuação política, que o grupo vem, atualmente, pensando o cinema, sempre vinculado a outras expressões artísticas e movimentos sociais.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Centro do Meio



Independentemente de suas prováveis fraquezas, dedico esse pequeno texto à força vital do diálogo. Aos poucos, e raros momentos em que a luz da compreensão e do respeito conseguem ultrapassar a miséria da guerra cotidiana pela sobrevivência. Devemos à camaradagem o resgate diário de nossas energias vitais.

Também dedico esse texto aos habitantes de "Centro do Meio", Maranhão.



Num dos momentos altos de Quarup (Antonio Callado) uma espécie de comitiva sai em busca do centro geográfico do Brasil, no Xingu. Simultaneamente, na capital do país, João Goulart é deposto pelos militares. Para além da simples coincidência (estamos falando de um romance, afinal de contas), notemos como os grandes acontecimentos históricos por vezes encontram explicação fora de sua órbita imediata. 

Assim, o conhecimento dos personagens de Quarup, de suas motivações íntimas - que, supostamente, explicam o desejo de conhecer o centro geográfico do país em plena derrocada de seu centro político -, ensina muitas coisas a respeito do momento histórico em que se vivia. 

Podemos recordar ainda a posição geográfica e temporal de Macondo (Cien Años de Soledad). O não-lugar que - de tão absoluto em sua inexistência - pode ser todos os lugares. Posição dos invisíveis, aquém dos centros de decisão onde o futuro, no entanto, repentinamente ganha corpo. Macondo, em relação à "vida real", encontra-se numa distância que jamais será percorrida. Este o segredo, talvez, da sua verossimilhança.

Seja como for, é notável a vigência temática da relação centro/periferia na literatura latino-americana. Como lembra Antonio Cândido: "As áreas de subdesenvolvimento e os problemas de subdesenvolvimento (ou atraso) invadem o campo da consciência e da sensibilidade do escritor, propondo sugestões, erigindo-se em assunto que é impossível evitar, tornando-se estímulos positivos ou negativos da criação" ("Literatura e subdesenvolvimento"). 

Que se leia, a título de exemplo, o emblemático conto de Borges, "As Ruínas Circulares", ou de seu conterrâneo Cortázar, "A auto-estrada do sul". Exemplos não faltam. À parte a diversidade das soluções formais em cada país, o fato é a permanência instigante (e instrutiva) do problema, que as transformações econômicas e políticas das últimas décadas - a chamada globalização - pretensamente colocam em suspensão, enquanto motor da criação artística. 

Desse modo, em vários contextos, a superação do atraso parece derivar unicamente da "universalização" do acesso à informação, por exemplo. No entanto, a oposição compartilha, com muita frequência, o pressuposto do inimigo, aceitando os termos da discussão: estaria em jogo uma definição mais precisa do verdadeiro poder dos meios de comunicação. Questão real, sem dúvida, mas antecedida por outra. Na verdade, trata-se, mais uma vez e sempre, do próprio conceito de "atraso". Com muita facilidade renegamos o esforço dos mais velhos. 

Talvez devamos, além disso, identificar a defesa positiva da globalização como construto ideológico puro. Ou, de outro modo: olhar a realidade, para ver até que ponto ela desmente a atualidade (formal e política) do problema. O reconhecimento da complexidade da questão, no plano literário (que apresenta saldo objetivo, isto é, formal) atingiu níveis altos, contrastando com as respostas no plano político. No Brasil, por exemplo, a esquerda ainda não extraiu devidamente o saldo político da ditadura.

Qual o balanço da experiência política dos trabalhadores com o regime militar? Há muita especulação em jogo. Ignora-se, sem mais, não a experiência com a miséria, mas a experiência dos próprios miseráveis. E o erro repete-se: atualmente, há uma séria dificuldade em mensurar o alcance dos estragos, e extrair as perspectivas resultantes, da dominação petista.

Evidentemente, a tarefa não é fácil: os desdobramentos históricos do atual esgotamento político não se encontram ao alcance do braço. Porém, a letargia em levantar os braços rumo ao futuro, à ideia de uma nova vida, enfim, paralisa o ímpeto. A esquerda carece de um objeto digno de desejo. 

A dificuldade em escorregar para o ponto de vista dos derrotados, dos invisíveis, beira o desespero. Como diria Mário de Andrade: "Há sempre um jeito de escorregar num ângulo de visão, numa escolha de valores, num embaraço duma lágrima que avolumem ainda mais o insuportável das condições atuais do mundo". 

De outro lado, é possível encontrar o sonho desse deslocamento depositado na experiência literária. Que deve servir de contraste, ou, pelo menos, de meio eficaz para manter intacta as figuras elementares de um velho sonho, constitutivo da dignidade necessária, e desejável, do amanhã. 

Para terminar, fiquemos com um exemplo das últimas semanas, que ilustra a tese inicial: o atual momento histórico, por vezes, encontra explicação fora do alcance de nossas vistas.

No Maranhão, há um povoado chamado "Centro do Meio" (já o nome, na sua quase-redundância, é significativo, ainda mais se pensarmos que, até ontem, praticamente não existia... ), que situa-se no município de Pio XII, em homenagem ao papa eleito 1939. 

Pois bem. No último dia 30/07, domingo, houve um jogo de futebol no povoado "Centro do Meio". O árbitro da partida, rapaz de 20 anos, expulsou um jogador de um dos times. Inconformado, este resolveu acertar contas com o árbitro, que, por sua vez, esfaqueou o rapaz.

Com isso, a família da "vítima" e amigos resolveram apedrejar e lixar o árbitro, e depois o amarraram a uma árvore. 

Aguardaram, até que chegou a notícia: o rapaz esfaqueado pelo árbitro morreu no hospital! O final da vingança encerra o caso, e traz inesperadamente Centro do Meio para o centro dos noticiários. Ocorre que, depois de saberem da morte do rapaz, no hospital, familiares e amigos resolveram esquartejar o árbitro. 

Braços e pernas decepados. Cabeça, idem: pendurada na ponta de uma cerca. 

Já circula fotos na internet, para aqueles que, acostumados ao "espetáculo da vida", necessitem de "mais vivas impressões". Ao que dizem, a brutalidade do ocorrido chocou os moradores de povoados vizinhos, a ponto de cortarem relações com os habitantes de Centro do Meio. Como se, de fato, estivessem enfeitiçados por algum espírito maligno. Eterna noite dos esquecidos.

Já os moradores de Centro do Meio, crianças e velhos, reclamam a mudança no trato: além da brutalidade ocorrida, tem de suportar a exclusão dos vizinhos...  

O evento que marcou o povoado de Centro do Meio, em Pio XII, ocorreu na mesma semana em que o papa Francisco visitava o Brasil. Segundo dizem, Pio XII é conhecido pela sua fria indiferença em relação ao Holocausto. Mera coincidência, enfim.

terça-feira, 30 de julho de 2013

CARTA ABERTA DA ABD-SP AO MINISTÉRIO DA CULTURA E À SECRETARIA DO AUDIOVISUAL

CARTA ABERTA DA ABD-SP (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DOS DOCUMENTARISTAS – SEÇÃO SÃO PAULO) AO MINISTÉRIO DA CULTURA E À SECRETARIA DO AUDIOVISUAL SOBRE A SITUAÇÃO ATUAL DA CINEMATECA BRASILEIRA


São Paulo, 25 de julho de 2013.

Carta aberta à Exmª Sra. Ministra da Cultura Marta Suplicy


Ao Exmº Sr. Secretário do Audiovisual Leopoldo Nunes

A memória audiovisual do país está em grande parte depositada na Cinemateca Brasileira, o maior arquivo de imagens em movimento da América Latina. Além da sua missão primordial de zelar pela preservação desse patrimônio, a instituição tem papel fundamental em todos os setores do audiovisual, da produção à difusão do cinema brasileiro. A Cinemateca foi fundada há 74 anos, e somente em 1984 foi transformada em órgão do governo federal. Na última década, a captação e gestão de recursos pela Sociedade dos Amigos da Cinemateca possibilitou o seu fortalecimento em diversos aspectos. Não era o modelo ideal, mas, independentemente dos prós e contras do arranjo institucional que viabilizou esse crescimento, progressos indiscutíveis aconteceram na Cinemateca nesse período.

Num primeiro momento, a exoneração do antigo diretor Carlos Magalhães poderia ser interpretada como um sinal do desejo do Ministério da Cultura de fortalecer e dar novos rumos à gestão da Cinemateca Brasileira. O que seguiu-se, porém, foi um verdadeiro desmonte da instituição, com a demissão de grande parte dos funcionários altamente capacitados e especializados. A transparência na gestão de recursos públicos é fundamental, mas a realização da auditoria das prestações de contas da Sociedade dos Amigos da Cinemateca pela Controladoria Geral da União não justifica a inação do governo federal diante desse desmonte. O abandono da Cinemateca tem potencial devastador para a cultura do país, e as consequências já estão sendo sentidas.

Atualmente, é quase impossível depositar ou retirar um negativo ou cópia de filme, assim como requisitar uma pesquisa no acervo, prática corrente na produção de documentários. Mostras tradicionais no calendário cultural não estão sendo produzidas, e apenas alguns dos projetos, aprovados antes do congelamento total dos recursos, ainda estão sendo realizados. Eventos cinematográficos perderam seu maior espaço de exibição e debate. Uma das duas salas de projeção está ociosa desde o início do ano. Projetos de difusão de alcance nacional como a Programadora Brasil e Cine Mais Cultura foram interrompidos. Até o final de 2013, se nenhuma providência for tomada, até mesmo as atividades de restauração estarão comprometidas, com graves consequências para nosso patrimônio audiovisual.

A Cinemateca já sofreu perdas irreparáveis, em episódios trágicos como o incêndio de 1957, que consumiu aproximadamente um terço dos filmes e a totalidade da documentação. Mais recentemente, mesmo contando com boa estrutura material e profissional, e sendo considerada um dos principais arquivos cinematográficos do mundo, a Cinemateca Brasileira não consegue trabalhar na escala e ritmo necessários para evitar a perda irremediável de filmes. A deterioração dos suportes físicos é rápida e inexorável. O modelo utilizado até 2012 permitia que grande parte das atividades de preservação se viabilizasse por meio de projetos incentivados que “salvavam” emergencialmente alguns títulos. Mostras e projetos de difusão importantes também foram realizados graças a esse modelo. Por um lado, ele propiciou um aumento notável nos recursos da Cinemateca, e uma melhora na realização de suas atividades, com contratação de pessoal e aquisição de equipamentos. Por outro lado, implicou na incerteza que agora ameaça sua existência, privada dos recursos que permitiam que funcionasse. Implicou também na injusta forma de contratação de funcionários fixos como pessoas jurídicas, portanto sem direitos trabalhistas, agora demitidos. Uma instituição de interesse público como a Cinemateca Brasileira não pode ser dependente de projetos pontuais, com todo o mérito que tenham. A participação do Secretário do Audiovisual em debate da Mostra de Cinema Ouro Preto, em junho passado, era ansiosamente aguardado. Esperava-se a apresentação de propostas do governo federal para solucionar a crise da Cinemateca Brasileira, e para a preservação audiovisual no Brasil de maneira geral, mas o encontro foi cancelado, e desde então nenhum caminho foi apontado.

Para tornar pública nossa apreensão com a gravidade da situação, demandamos ao Ministério da Cultura e à Secretaria do Audiovisual a proposição de um projeto consistente de longo prazo de reestruturação e fortalecimento da Cinemateca Brasileira, e um plano emergencial para a retomada imediata das suas atividades normais. Acreditamos que o Ministério da Cultura tem a responsabilidade histórica de conduzir esse processo, em amplo diálogo com a sociedade, e manifestamos nosso interesse em participar e contribuir da maneira que pudermos no reerguimento em bases mais sólidas da Cinemateca Brasileira.

Cordialmente,

Associação Brasileira de Documentaristas – Seção São Paulo

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Abaixo-assinado pela continuidade das atividades no espaço do Dolores

Para quem não sabe, o Coletivo Dolores Boca Aberta Mecatrônica de Artes configura-se como um grupo de trabalhadores que exerce, entre todos os percalços, o direito de expressar o mundo que lhe atravessa através da arte.

Como trabalhadores, eles se movimentam enquanto classe e assumem as consequências que esta posição política os coloca.

E agora estão com um abaixo-assinado pela continuidade e ampliação das atividades do CDC Vento Leste - Cidade Patriarca, onde realizam suas atividades desde sua formação, e que agora estão ameaçados de perder o espaço. Abaixo, o manifesto de petição por apoio nessa luta:

- Queremos que o mesmo permaneça como espaço cultural-desportivo, assim como tem funcionado há mais de dez anos. E pedimos sua ajuda nessa empreitada!

Nós, do Dolores e dos demais grupos que ocupam o espaço, somos contra as investidas para mudança de uso do local ou fracionamento de seu terreno - que já foi fracionado para a construção de um posto de saúde e de uma escola municipal.

O CDC Patriarca é o único equipamento cultural-desportivo público da região, sendo autogerido pelos grupos ocupantes, com a realização de assembleias públicas quinzenais. É um espaço de lazer e aprendizado para todas as idades e que está se tornando referência em São Paulo.

Ali acontecem peças de teatro gratuitas frequentemente, como foi o caso das quatro temporadas d'A Saga do Menino Diamante - Uma ópera periférica, com média de público de 300 pessoas vindas de toda a cidade e até de outras localidades. Além das peças, acontecem shows, aulas de capoeira, campeonatos de futebol e basquete, oficinas de teatro e música, palestras, reuniões de recuperação para dependentes químicos, aulas de dança de salão para a terceira idade, entre outras atividades.

Em breve teremos também as oficinas de Permacultura (com início para 03 de agosto, num sábado) e Serralheria, além da pista de caminhada, que já está em processo de construção.

No segundo semestre realizaremos o II Festival de Teatro Mutirão e inauguraremos um jardim de esculturas para a comunidade.

Os grupos que ocupam o espaço são:
- Grupo Esquadrão Arte Capoeira;
- Grupo Amigos Para Sempre de Dança de Salão;
- Grupo Teatral Parlendas;
- Coletivo Teatral Albertina;
- Coletivo Teatral Dolores Boca Aberta;
- Comunidade Boliviana; 
- Comunidade Paraguaia;
- Grupo de Recuperação para Dependentes Químicos;
- Banda Nhocuné Soul.

Para assinar, clique no link abaixo e acesse a página da Petição Pública, onde está hospedado nosso abaixo-assinado.


Assine e ajude a divulgar para o maior número de pessoas!

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Mesa Cinema e Luta de Classes

Mesa Cinema e Luta de Classes - Debate com Coletivos de Audiovisual

FESTIVAL LATINO AMERICANO DE CINEMA

DEBATEDORES:
Adirley Queiroz (integrante do CEICINE - Coletivo de Cinema em Ceilândia); 
Diogo Noventa (integrante da Companhia Estudo de Cena e Coletivo Tela Suja Filmes); 
Ana Chã (integrante da Brigada de Audiovisual da Via Campesina e do Coletivo de Cultura do MST). 

MEDIAÇÃO:
Thiago Mendonça (integrante da ABD-SP e do Coletivo Zagaia)

DATA: 12/07/2013 - sexta-feira
HORÁRIO: 19h30
LOCAL: Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo – Anexo dos Congressistas – Memorial da América Latina
ENDEREÇO: Avenida Auro S. De Moura Andrade, 664 – Portão 13 – Barra Funda (ao lado do metrô Barra Funda)

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Mostra no Engenho Teatral

Quem conhece o Engenho Teatral sabe: desde 2005 o mês de julho é reservado para uma mostra com espetáculos significativos, que já se tornou referência para o público, estudantes, pesquisadores, profissionais. Este ano, porém, ela quase foi cancelada por absoluta falta de recursos.

Aí veio a solidariedade. Vários coletivos teatrais se reuniram e avisaram: nós vamos fazer a mostra!

Engenho Mostra um Pouco Do Que Gosta VIII  vai acontecer, sim!

E será obra do apoio, carinho e solidariedade da Cia. Estável, Brava Cia., Trupe Lona Preta, Cia. Antropofágica, Cia. Estudo de Cena, Cia. do Feijão, Folias D’Arte e muitos outros parceiros.

PROGRAMAÇÃO
de 06 de julho a 04 de agosto de 2013
Sábados e Domingos às 19h
Grátis

A EXCEÇÃO E A REGRA (CIA ESTÁVEL)


A Exceção e a Regra, um dos textos mais montados do alemão Brecht, principal autor e formulador teatral do século 20, tem morte, julgamento e razões opostas. A disputa não se dá entre concorrentes mas entre o livre empreendedorismo exemplar e o trabalhador comum. Adivinha quem tem razão? Ou melhor, quem ganha num jogo de cartas marcadas? Quer dizer, qual é mesmo a regra? Qual é a exceção?

Dias 06 e 07 de julho, sábado e domingo, 19:00 horas
Grátis
1 hora de duração – Livre

EXPERIMENTOS CÊNICOS DA BRAVA COMPANHIA




Em duas peças curtas, a Brava Companhia, com seu humor particular, traça uma crítica aguda ao ideário neoliberal e presta uma homenagem ao autor Reinaldo Maia, que em vida militou por um teatro crítico, divertido e socialmente engajado.

QUADRATURA DO CÍRCULO
 Feita para a rua, a montagem mostra a pregação fraudulenta que cultiva a fé no dinheiro e no sucesso.

JÚLIO E ADERALDO – Um dia na vida de dois sobreviventes
Uma dupla de artistas de rua (Júlio, o cego, e Aderaldo, o guia) entra num bar e provoca uma seqüência de equívocos, pois o cego pensa estar num templo religioso.

Dias 13 e 14 de julho, sábado e domingo, 19:00 horas
Grátis
80 minutos de duração – Recomendado para maiores de 12 anos
Não se proíbe a entrada de crianças acompanhadas

O PERRENGUE DA LONA PRETA (TRUPE LONA PRETA)



Durante uma hora, os palhaços Rabiola e Chico Remela reconstroem, de forma divertida, os símbolos pretensamente eternos da ordem vigente. Nada melhor do que um palhaço para tratar de coisas “sagradas” como o “direito” à propriedade privada dos meios de produção e outros símbolos da cultura oficial.

Dias 20 e 21 de julho, sábado e domingo, 19:00 horas
Grátis
1 hora de duração – Recomendado para maiores de 12 anos
Não se proíbe a entrada de crianças acompanhadas


KABARÉ ANTROPOFÁGICO (CIA ANTROPOFÁGICA)



Um banquete cênico-musical com música, poesia e cenas do repertório acumulado pela companhia ao longo dos 10 anos de pesquisa e criação, degustando episódios da história do Brasil desde a colônia até acontecimentos contemporâneos. O carnaval aparente não esconde seu foco: desmonta a história e a visão oficial do país e aponta seu arsenal cênico contra os poderosos.

Dias 27 e 28 de julho, sábado e domingo, 19:00 horas
Grátis
1 hora de duração – Recomendado para maiores de 14 anos
Não se proíbe a entrada de crianças acompanhadas

A FARSA DA JUSTIÇA (CIA ESTUDO DE CENA)


O espetáculo narra o julgamento de um sobrevivente do massacre de Eldorado dos Carajás que se fingiu de morto para garantir a vida. Após o espetáculo, o ENGENHO encerra a mostra apresentando três cenas curtas do seu TEATRO DE BOLSO.

Dias 03 e 04 de agosto, sábado e domingo, 19:00 horas
Grátis
45 minutos de duração (+ 30 minutos com o Engenho)
Recomendado para maiores de 12 anos
Não se proíbe a entrada de crianças acompanhadas



retirado do site http://engenhoteatral.wordpress.com/

Engenho Teatral
Clube Escola Tatuapé – Estação Carrão do metrô
Rua Monte Serrat, 230 – fone: 2092-8865
Estacionamento gratuito no local
eteatral@gmail.com

COMO CHEGAR
O Engenho Teatral é um teatro móvel e no momento está montado na Radial Leste, dentro do Clube Escola Tatuapé (parque da Prefeitura que alguns moradores ainda conhecem como “Sampaio Moreira”).

PARA QUEM VAI DE METRÔ:
Pegue a linha Leste-Oeste e desça na estação Carrão. Passando as catracas, vire à esquerda, siga até o final da passarela que fica sobre a avenida e desça pela última escada à esquerda (você estará no terminal de ônibus, de onde se avista o Teatro à direita, um enorme iglu branco). Terminando a escada, siga em frente até a próxima esquina (Rua Monte Serrat) e vire à direita, contornando o muro do parque, até chegar no portão de entrada. Entre e vire de novo à direita, seguindo as placas de Teatro e Estacionamento.

PARA QUEM VAI DE CARRO
- Sentido Centro-bairro:
Pegue a Radial Leste. Passando o metrô (e Shopping) Tatuapé, mantenha a direita. Debaixo da passarela do metrô Carrão, entre à direita na bifurcação, passe bem ao lado do terminal de ônibus e vire na primeira à direita (Rua Monte Serrat), contornando o muro do parque até o portão, poucos metros à frente. Entre no parque e vire à direita no estacionamento, que fica à frente do teatro. Estacione, tranque o carro e leve as chaves com você. É tudo de graça.

- Sentido Bairro-centro:

Pegue a Radial Leste em direção ao centro. Depois da Av. Aricanduva, mantenha a esquerda. Assim que passar por baixo da passarela da estação Carrão do metrô, faça a conversão à esquerda no semáforo, pegando a Radial no sentido oposto, mas não pela pista principal e sim pela marginal que passa ao lado do terminal de ônibus. Vire na primeira à direita (Rua Monte Serrat), contornando o muro do parque até o portão, poucos metros à frente. Entre no parque e vire à direita no estacionamento, que fica à frente do teatro. Estacione, tranque o carro e leve as chaves com você. É tudo de graça.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

ENTREVISTA COM PAULO ARANTES


Enfim concedida a revogação dos aumentos das tarifas de transporte nas duas principais metrópoles brasileiras, Rio de Janeiro e São Paulo, a tarde de quinta-feira se anunciava como o momento de comemoração para o movimento cívico e apartidário que tomou as ruas do País nas últimas duas semanas. O que se viu, no entanto, foi a expansão incontrolável dos protestos, com mais de 1 milhão de pessoas em cerca de cem cidades brasileiras. E, embora o tom geral das massas de manifestantes se mostrasse pacífico, cenas de conflito e vandalismo foram vistas por toda parte. Em Brasília, três ministérios foram depredados. No Rio, 62 pessoas ficaram feridas. No interior paulista, um jovem manifestante morreu atropelado e, em Belém, uma gari perdeu a vida após inalar gás lacrimogêneo lançado pela polícia.

No calor de acontecimentos que atingem proporções inéditas desde a redemocratização brasileira, o filósofo Paulo Arantes desfia, na entrevista a seguir, as perplexidades do "país do futuro" - que afinal chegou, trazendo consigo antigas contradições. "A vida no Brasil sem dúvida melhorou, e muito, nestas duas décadas de ajuste ao capitalismo global. No entanto, ninguém aguenta mais", afirma o professor aposentado da USP e doutor pela Universidade de Paris X, Nanterre.

Para Arantes, nunca é demais lembrar que o Maio de 1968 na França também eclodiu em um contexto de crescimento econômico, pleno emprego e políticas de bem-estar social. Comparação que, no entanto, para por aí. E que se as "jornadas de junho" nacionais, como o filósofo as chama, referenciam-se de fato em rebeliões altermundistas como a de Seattle-1999 ou de Nova York-2011, encontram no Brasil ambiente ainda mais explosivo, "tamanha a desagregação social em que nos enfiamos". E avisa: para evitarmos o risco de uma derivação autoritária, será preciso que governantes municipais, estaduais e federais deixem de lado suas "cabeças de planilha" e levem a sério a reivindicação radical de cidadania expressa nas ruas.

‘Perplexidade’ foi a palavra mais usada na descrição dos últimos acontecimentos em todo o País. O sr. também ficou surpreso?

É verdade, só hoje de manhã li pelo menos três artigos confessando "perplexidade" diante dessas realmente espantosas "jornadas de junho". Cada um com o seu assombro diante da "mais expressiva, surpreendente e rápida vitória popular de nossa história", nas palavras do cientista político Rubens Figueiredo, que atribui a rendição dos governantes locais, Estado e município, à "potência e capacidade de mobilização das redes sociais". O que os ideólogos da sociedade em rede estão chamando de autocomunicação, Kant falaria em uso público da razão. Seja como for, mais um motivo de espanto. Voltemos às três visões perplexas. O cronista, que admite não estar entendendo nada e exige a mesma franqueza dos demais, da imprensa, dos políticos e dos próprios manifestantes; o correspondente internacional, que talvez tenha vivido anestesiado pela rotina da profissão, cobrindo anos de prosperidade festejada pelos investidores estrangeiros; o veterano do mundo petista agoniado pelos sinais alarmantes de fadiga da estratégia de mudanças sem ruptura, com dez anos de conquistas dentro da ordem e níveis coreanos de aprovação eleitoral arriscando ir para o vinagre à menor gota d’água.

Como entender esses sinais, em um contexto de baixo desemprego e de crescimento, ainda que modesto, na economia?

A vida no Brasil sem dúvida melhorou, e muito, nestas duas décadas de ajuste ao capitalismo global. No entanto, ninguém aguenta mais. Essa a dissonância básica, ainda mais estridente quando o contexto é de baixo desemprego, como você bem lembrou. Não seja por isso. Sei que a comparação frisa o disparate, mas não custa recordar que o maior movimento contestatário da segunda metade do século 20, disparado pelo maio francês de 1968, ocorreu justamente no auge de um ciclo inédito de crescimento econômico, pleno emprego e Estado social a todo vapor, sendo que três meses antes da explosão o mais acatado colunista da época publicara um artigo descrevendo a França como um país entorpecido pela autossatisfação. A herança do Maio, entretanto, já se disse, é uma herança impossível. E a moçada do Passe Livre sabe muito bem disto: onde havia um horizonte de superação, existe uma ratoeira. Essa armadilha é o Brasil do futuro que afinal chegou. Como disse um poeta, "o horizonte sorri de longe e arreganha os dentes de perto". Por exemplo, a brilhante dentadura do PM baixando o porrete no casal de namorados num bar da Av. Paulista.

De que maneira o Passe Livre, que teve início em 2005, se aproxima e se diferencia dos movimentos sociais a que estávamos acostumados no Brasil?

O Movimento Passe Livre, como de resto seus congêneres nascidos da galáxia altermundista, sobretudo os descendentes da velha tradição da Ação Direta, discrepa dos movimentos sociais clássicos, para não falar é claro, dos partidos da esquerda histórica, embora seja igualmente temático como os demais movimentos, e obviamente de esquerda. É filho de Chiapas, Seattle, etc., das lutas contra a OMC, Alca & cia. Sua família é por certo a dos autonomistas. E, embora restrito a um foco único, é maximalista, como estamos vendo agora: a meta é a tarifa zero. Cuja razoabilidade demonstrada nas suas cartilhas de clareza igualmente máxima são exemplares como introdução prática à crítica da economia política. Pelo tênue fio da tarifa é todo o sistema que desaba, do valor da força de trabalho a caminho de seu local de exploração à violência da cidade segregada rumo ao colapso ecológico. Simples assim, por isso, fatal, se alcançar seu destinatário na hora social certa, como parece estar ocorrendo agora.

Daí a ressonância de uma causa como a da ‘tarifa zero’, tida como inviável?

Exato. E são tão afiados no manejo do melhor argumento contra a aberrante insensatez do atual modelo de transporte coletivo - e socialmente convincentes, como estamos vendo -, que, em contraste, as planilhas dos governantes parecem, elas sim, cifras fantasiosas ornamentando o jogo das concessionárias que se conhece. Mas de tanto levarem às cordas essas raposas das planilhas criativas, a expertise adquirida no processo foi aos poucos colando, num só personagem, o libertário e o gestor ideal de políticas públicas "igualitárias". Não estou insinuando que cedo ou tarde esses jovens estarão operando do outro lado do balcão - como já o fazem no âmbito da cultura digital, no qual a livre associação de livres produtores revelou-se o melhor caminho para gerar empreendedores shumpeterianos e novos formatos de negócios, como se diz no jargão do capitalismo cognitivo. Não à toa, demonstra-se por a+b que a circulação urbana planejada à luz de uma tarifa zerada exponenciaria a performance econômica de uma cidade, e estenderia o direito à cidade. Uma ruptura de época está nos arrastando para uma outra praia não menos conflagrada e na qual os europeus já vivem há tempos: onde em torno dessas famigeradas políticas públicas de gestão de um presente congestionado - da segurança à moradia - um grupo se amotina e as correspondentes instituições coercitivas fecham o cerco. Por isso na Av. Paulista um dia é pau outro dia é flor.

Além da reivindicação ‘irrealista’ da proposta de tarifa zero, fala-se muito sobre o ‘caráter difuso’ dos protestos. O sr. concorda?

Me parece muito mais insensata a hipótese contrária, de que centenas de milhares de pessoas ganhem as ruas para pedir a Lua. O engenheiro Lúcio Gregori, secretário de Transportes na cidade de São Paulo no governo Luiza Erundina, tem dito para quem quiser ouvir que só a horrenda política tributária no Brasil impede a gratuidade no transporte coletivo, tão viável quanto o SUS, escolas públicas e coleta de lixo. Quanto ao "caráter difuso" das demandas, trata-se de um bordão pejorativo porque, em sua infinita variedade, além de serem de uma espantosa precisão - nada menos do que tudo, como o Terceiro Estado em 1789 queria tudo por não ser nada -, elas sugerem um limiar que no fundo ainda não se ousou transpor.

Muitos têm dito também que as manifestações são o equivalente brasileiro de movimentos como o da Primavera Árabe e o Occupy Wall Street. A comparação procede?

A Primavera Árabe são outros quinhentos. Salvo a tática de ocupação de um local emblemático e o ímpeto do enfrentamento, nada a ver. Da geopolítica - estão no olho do furacão de uma guerra pela ordem mundial - à mescla de trabalhadores pobres e populações destituídas com uma religião militante e suas violentas divisões sectárias. Já o similar do Occupy americano reproduziu-se por aqui há dois anos, mas passou desapercebido, encoberto pela melhora dos índices de Gini no País. Na Turquia sim, um par de analogias salta aos olhos, porém não mais do que isso, pois estamos falando de um país-membro da Otan e implicado numa guerra civil no vizinho árabe: também um estopim com cara de causa menor, a desfiguração de uma praça entregue à especulação imobiliária, do outro lado da barreira, um governante com altos índices de aprovação e por isso mesmo acometido da apoteose mental que conhecemos bem, enterrado até o pescoço em megaprojetos para lá de duvidosos. Quanto aos Indignados espanhóis, é inegável o ar de família, menos quanto ao desfecho conservador, embora ninguém saiba qual será o nosso, tamanha a desagregação social em que nos enfiamos: uma imponderável deriva à direita pode ocorrer a qualquer momento. O fato é que há mesmo muita "indignação" de um tipo novo nas ruas brasileiras em ebulição, tão nova essa indignação que ousou tocar no santo dos santos, a Copa. E olhe que acompanho futebol desde 1950, nunca vi ninguém se atrever a tamanha profanação. O papa não perde por esperar...

A imagem de estádios de Primeiro Mundo em contraponto a serviços públicos de terceiro deu força à tal ‘revolta da catraca’?

O estopim da tarifa também passou por aí, e para além do importante movimento dos atingidos por megaeventos, alcançou a imaginação da massa infeliz condenada à catraca: queremos tarifa com padrão Fifa - bem como hospitais, escolas, creches, no mesmo padrão Fifa de qualidade. Humor popular direto ao ponto, porém um tantinho inquietante: então seria esse o metro da "cidadania social" a que se aspira? Luxo e apropriação direta dos fundos públicos? A proximidade com os Indignados europeus dá mesmo o que pensar. Fica no ar a dúvida: e se tivermos ingressado finalmente na era dos protestos desengajados - como os qualificou um sociólogo britânico -, quando protestar se tornou uma questão estritamente pessoal, e o ativismo, a rigor, um estilo de vida? Em fevereiro de 2003 1 milhão de pessoas foram às ruas na Grã Bretanha em protesto contra a iminente invasão do Iraque. Recolhidos cartazes e bandeiras, não deixaram nenhum rastro social ou político pelo caminho, salvo a palavra de ordem famosa "não em meu nome", isto é, não me envolvam nessa barganha de sangue por petróleo. Na mesma linha, outro conhecedor da cena inglesa observou que os europeus que promovem festa e casamento durante os protestos o fazem porque sabem que as demonstrations só demonstram para os próprios demonstradores. Quando a maré virou, e a vara de condão da PM "transformou" vândalos em indignados pacificamente distribuídos por nichos genéricos de demandas, a narrativa midiática dos acontecimentos não precisou forçar a mão para desviar-se do gatilho do movimento - e apresentar a manifestação como um fim em si mesma. Essa a moldura do imortal "está lindo vocês nas ruas".

Essa alternância entre vandalismo e cidadania foi o que tornou os protestos tão difíceis de decifrar?

Acho que há menos mistificação do que supõe a socióloga da FGV Silvia Viana, ao notar, num ótimo artigo, que são tantas as negativas - "não são só os 20 centavos, não é só o transporte, não é só a Copa..." - que o movimento parece um protesto por nada. Mas não é o que diz uma jovem manifestante, ao ser indagada sobre as motivações de sua presença no ato: "Olha, eu não consigo imaginar uma razão para não estar aqui". O teórico alemão Wolfgang Streek traduziria um pouco à la bruta: vim consumir política, no caso, repudiar um sem-número de "produtos", a saber tais e tais políticas públicas que não me satisfazem. Se não me engano, foi esse o ponto da entrevista do professor José Garcez Ghirardi (Em Trânsito", 16/6), domingo passado neste mesmo caderno. Alguém observou que muitas palavras de ordem nos protestos decalcavam slogans publicitários, a começar pelo "Grande Despertar" de uma marca de uísque.

E o próprio ‘vem pra rua’, da propaganda de uma fábrica de automóveis...

Puro agitpub: o autor da boutade acrescentou que se tratava menos de ouvidos treinados por jingles do que casos de detournement espontâneo à maneira dos situacionistas franceses. Mas, e se não for bem assim? À notícia da capitulação, o bom senso tático da esquerda tradicional recomendaria uma pausa para consolidação das conquistas. Parece não ser mais o caso. Nas palavras de um ativista, não só em solidariedade às outras cidades que ainda estão na luta, mas porque uma pauta puxa a outra, "a mobilização não pode parar, a cultura da mobilização não deve parar". Mas precisamos, sim, parar para pensar, antes de celebrar o que quer que seja, salvo a derrota acachapante dos reis da planilha. Um coletivo de estudiosos e militantes da questão social no Brasil poderia muito bem dizer que essa mobilização permanente tem menos a ver com a mobilização total de uma sociedade de consumo do que com a implicação, e o "engajamento", das pessoas arrastadas pelo novo assalariamento vulnerável, que estão ralando e padecendo e no entanto engajadas em duas frentes, a do trabalho que ninguém gosta de ver estropiado por chefias despóticas e avaliações espúrias e a do senso do vínculo social a ser reconquistado que decorre dessas engrenagens desenhadas para infligir sofrimento. Quem sabe não virá também dessa outra fonte de energia social o som e a fúria que se vê nas ruas?

Do ponto em que estamos, já é possível vislumbrar em que isso tudo vai dar?

Até agora mais ou menos cem cidades com manifestações marcadas ou já ocorrendo. Era de 70% de aprovação no Datafolha, segundo consta, o índice do Movimento das Diretas no seu começo. Como lhe dizer que estou entendendo o que seria inconcebível dez dias atrás? E olhe que o povo lulista - na acepção precisa que lhe deu o cientista político André Singer - mal começou a dar o ar de sua graça: tarifa zero dentro da ordem seria demais para o seu "horizonte de desejo", para usar a ótima expressão de Wanderley Guilherme? E quando o desemprego voltar com o tremendo arrocho fiscal pela frente? Deixará de lado a saída empreendedorista pela ação coletiva? Como reagiria a classe média, que até agora extravasou seu ressentimento atávico contra um pouco de tudo, na hora em que a gente diferenciada deixar de ser apenas uma ameaça virtual? Salvo a Copa, o consenso em torno do Brasil emergente ainda não foi arranhado. Se em algum momento se sentir sob ataque, reagirá como de hábito, cerrando fileiras em torno de um campo popular ad referendum, os cenários pré-64 sairão das gavetas mais uma vez, etc. Muitas dissonâncias portanto nessa unanimidade toda, além do mais fabricada pelos âncoras transmitindo ao vivo o impensável na pasmaceira dos últimos anos.

Na sexta-feira, já ficava clara não só a apreensão da Fifa em relação à Copa do ano que vem, mas a do Comitê Olímpico Internacional sobre a Olimpíada de 2016 no Rio de Janeiro. São preocupações fundadas?

A Copa do Mundo não está indo para o vinagre apenas porque está ficando cada vez mais claro o engodo da redenção urbana operada por megaeventos do gênero. A ficha que caiu agora é o escândalo do seu tremendo custo público alavancando lucros privados inconcebíveis. Temos um ano pela frente, num cenário de retrocesso econômico, de volta à ortodoxia do primeiro mandato de Lula, tempo suficiente para que amadureça a percepção pública do real significado da Lei da Copa, essa sim uma verdadeira lei de exceção. Veremos de perto, entre outras derrogações e violações, o exercício da soberania corporativa sobre territórios e populações. Não faltarão gatilhos para outra onda de manifestações em cascata: tem muita gente com coceira nos dedos.

O sr. disse certa vez que o pensamento crítico brasileiro encontrava-se em ‘coma profundo’. Parafraseando um dos slogans mais cantados nos atuais protestos (‘o povo acordou’), acha que ele pode despertar agora?

Vasto assunto. Como o dito pensamento crítico brasileiro prestou relevantes serviços à inteligência nacional, por que não deixá-lo descansar em paz? 

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Encontro de Coletivos de Audiovisual Paulista

A ABD-SP, em parceria com o FESTIVAL DE CINEMA LATINO-AMERICANO DE SÃO PAULO, convoca os Coletivos de Audiovisual Paulistas para o encontro que fará parte das comemorações de 40 anos da entidade junto ao festival. 

Em reunião realizada no dia 28/05/2013 no Espaço Cultural Latinoamericano (ECLA), em São Paulo, foi deliberado entre os integrantes da entidade e dos coletivos presentes, que o Encontro de Coletivos de Audiovisual Paulista, a ser realizado nos dias 13 e 14 de Julho de 2013, terá a seguinte programação:

Dia 13 de Julho de 2013 – Sábado
Apresentação dos Coletivos
Cada coletivo terá 5 minutos para se apresentar, seguido de projeção de uma obra audiovisual de curta duração realizada pelo coletivo. 

Os coletivos deverão confirmar presença até o dia 10/07/2013 (quarta-feira), através do link: https://docs.google.com/forms/d/1OckAenuziBTsqfB6RzzTvYtOlbdf81CHJozzoRjItHA/edit

Em caso de dúvidas deverão entrar em contato pelo e-mail abdspgestao@gmail.com, informando no assunto “Encontro de Coletivos”.

A apresentação do coletivo e o filme deverão conter até 20 minutos de duração.

Em caso de um número grande de confirmações de exibição, enviaremos um informe encerrando as inscrições para exibição, porém os coletivos deverão e poderão participar do encontro.

Fórum Estética e Política
Sensibilizados pelas obras apresentadas, poderemos discutir os aspectos estéticos, éticos, políticos e simbólicos das produções dos Coletivos de Audiovisual Paulistas.

Dia 14 de Julho de 2013 - Domingo

Fórum Formas de Organização e Produção dos Coletivos.

Fórum Autonomia e Representatividade dos Coletivos. 

Serviço
Local: Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo – Sala dos Espelhos – Memorial da América Latina
Endereço: Avenida Auro S. De Moura Andrade, 664 – Portão 13 – Barra Funda (ao lado do metrô Barra Funda)
Horário: 14h as 20h
E-mail para dúvidas: abdspgestao@gmail.com

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Estréia Trylogia Terror e Miséria no Novo Mundo

Habilite as imagens.
Fruto de 5 anos de pesquisas sobre a história do Brasil e experimentações cênicas, a Cia Antropofágica apresenta a Trilogia; Terror e Miséria no Novo Mundo Partes I, II & III. 

Inspirada no livro Pau Brasil de Oswald de Andrade, a Trilogia passa pela história nacional devorando, modificando, e ressignificando fatos e documentos históricos dos períodos Colônia, Império e República. Uma devoração metonímica do Brasil permeia as três peças, onde uma profusão de quadros, acontecimentos, personagens reais e ficcionais misturam-se para contar episódios relevantes da história do Brasil. 

Utilizando-se de recursos épico-revisteiros, e orquestrado por uma trilha sonora original, o material histórico pesquisado aparece não apenas para refletir sobre o passado, mas para construir uma reflexão crítica quanto aos seus desdobramentos no contemporâneo.

de 18 de Maio à 21 de Julho de 2013

Sábados18h - Terror e Miséria no Novo Mundo – Parte I: Estação Paraíso
20h - Entre a Coroa e o Vampiro – Terror e Miséria no Novo Mundo – Parte II: O Império
Domingos19h - Terror e Miséria no Novo Mundo – Parte III: A República
 Ingressos Gratuitos

Espaço Pyndorama 
Rua Turiassú, 481, Perdizes, São Paulo (Próximo ao metrô Barra Funda)
Reservas e informações: 11 3871-0373.
Email: contato@pyndorama.com
 





sábado, 11 de maio de 2013

"O Dragão da Maldade" Do esquema sensório motor à imagem ótica e sonora pura e a questão da literalidade em Deleuze

Por Danilo J Santos
(Trabalho apresentado na Universidade Federal de São Paulo)

I


RESUMO: O presente trabalho visa à análise dos conceitos desenvolvidos por Gilles Deleuze, em "Cinema II, A Imagem-Tempo", em movimento com a obra "O dragão da Maldade", de Glauber Rocha, bem como a questão da literalidade em Deleuze, sob a ótica de François Zourabichvili.


   A abordagem considera o cinema uma experiência, não só a obra em si, mas em relação com o público, ou aqueles a interpretarão. Deste modo, cabe a este trabalho tentar expor como o filme quebra com o esquema do cinema clássico, ideológico e aprisionado, para dar um salto de qualidade na recepção da obra e desenvolvimento do pensamento através da experiência. Mas como se dá essa experiência? Uma vez rompido o esquema clássico, o espectador tem contato direto e “verdadeiro com a obra”? Como é a leitura da obra? Carregada de juízos prévios ou é possível ler a obra de forma quase que exclusiva aquilo que ela mostra? Em outras palavras seria possível a leitura imanente de uma obra em detrimento de visão metaforizada?

II

   Ao descrever a ação da empregada no filme “Umberto D.”, de Vittorio De Sicca, Deleuze introduz um novo ponto de vista sobre o neorrealismo, em que sua construção não mais estaria sendo atribuída, unidimensionalmente ao seu conteúdo político, mas a critérios rigorosamente estéticos, onde se extraíra um novo entendimento, ou registro de realidade, ou como diria Bazin um “mais de realidade”.

    Tendo como fio condutor o cinema neorrealista, Deleuze trará à tona o conceito de imagem ótica e sonora pura em detrimento do esquema sensório-motor no cinema - este, por sua vez, integrado, sobretudo, ao cinema comercial, onde a necessidade de circulação e venda das obras se sobrepõe ao aprimoramento estético, à experimentação, fazendo com que resultasse nas mais comuns e banais situações do cotidiano, ou ainda o clichê. As situações banais do cotidiano também podem ser óticas e sonoras puras, como o próprio exemplo da empregada. 

   Para tanto, a imagem ótica e sonora pura surgirá, não mais como simplesmente um aprimoramento estético, mas algo que fosse além de nossas próprias – e, também em relação aos próprios personagens - capacidades sensório-motoras:

... a jovem empregada entrando na cozinha de manhã, fazendo uma série de gestos maquinais e cansados, limpando um pouco, expulsando as formigas com um jato d'agua… E quando seus olhos fitam sua barriga de grávida, é como se nascesse toda a miséria do mundo. Eis que, numa situação comum ou cotidiana, no curso de uma série de gostos insignificantes, mas que por isso mesmo obedecem, muito a esquemas sensório-motores, o que surgiu foi uma situação ótica e sonora pura (Deleuze, 1985, p. 10). 

      Essa nova imagem possibilita que esse mais de realidade seja efetivado, superando não só nossas capacidades sensório-motoras em relação a nós mesmos, mas agora em relação à obra e à sua poética, assim trazendo à tona uma nova forma de observar nossa própria realidade.

     Apropria-se de uma suposta realidade, questionável, coloca-a em linguagem, estética, e cria uma nova realidade, para além daquilo que é comum, cotidiano, e dessa nova realidade se extrai uma imagem, que não será decifrável a priori, quiçá, outrora, será decifrável. Mas, por essa imagem ser, por muitas vezes, tão intensa em sua proposta ao trazer esta “realidade” em seu estado imagético e sonoro puro - seja por sua desconcertante beleza, ou na violência do que a compõe – que despertará algo novo, sobretudo no espectador em relação à sua percepção e leitura da realidade.

        O cinema mundial, em seu processo de reformulações, novos critérios estéticos, políticos e, sobretudo dentro de sua busca formal/conceitual, gerou resistências em relação aos esquemas sensório-motores, para então dar vida em suas obras à imagem ótica e sonora pura. No Brasil, movimentos como o cinema marginal, cinema novo, de onde surge a obra eixo deste trabalho e atualmente o cinema moderno brasileiro tendo como um dos pioneiros desse novo momento, filmes como Central do Brasil (1998) de Walter Salles, Se nada mais der certo (2009) de José Eduardo Belmonte, A Casa de Alice (2007) de Chico Teixeira, além de muitos outros. 

   Passa-se a repensar o cinema enquanto não mais um meio de se chegar a uma identidade cultural e artística, mas, sobretudo como um “despertador revolucionário”, através do choque imposto por suas imagens em seu mais novo e puro estado.  O bom cinema deveria buscar o choque, aquele contido numa imagem para além do que é sensório-motor, no cinema ruim, o corpo meramente figurativo, coberto por sangue e lugares comuns, onde a violência estaria ligada ao extrapolar dos movimentos mecânicos cotidianos, e na não-superação destes, em detrimento de uma nova imagem.

   A imagem cinematográfica, segundo Deleuze, faz o próprio movimento, torna ele automático, e faz surgir em nós um autômato espiritual, que, por sua vez, reage sobre ele*. Assim: produzir um choque no pensamento, comunicar vibrações ao córtex, tocar diretamente o sistema nervoso e cerebral*. 

    Em outras palavras, o choque a partir da obra cinematográfica teria a função estabelecer uma ponte entre espectador e obra, efetivando um distanciamento crítico, capaz de reavaliar sua condição no mundo e da obra que vivencia.   

Segundo Deleuze:

"Todos sabem que, se uma arte impusesse necessariamente o choque ou a vibração, o mundo teria mudado há muito tempo, e há muito tempo os homens pensariam. Por isso essa pretensão do cinema, pelo menos nos seus grandes pioneiros, hoje em dia faz sorrir. Eles acreditavam que o cinema seria capaz de impor tal choque, e de impô-lo às massas, ao povo (Vertov, Eisenstein, Gance, Elie Faure...). No entanto, pressentiam que o cinema encontraria, já encontrava todas as ambiguidades das outras artes, iria revestir-se de abstrações experimentais, palhaçadas formalistas” e figurações comerciais, sexo ou sangue. O choque ia se confundir, no cinema ruim, com a violência figurativa do representado, ao invés de atingir essa outra violência de uma imagem-movimento desenvolvendo suas vibrações numa sequência móvel que se aprofunda em nós "(Deleuze, 1985, p. 190). 

III

          Em Dragão da Maldade, podemos observar já em seus dez primeiros minutos, diversas camadas narrativas que se opõem ao que chamamos de esquema sensório-motor. O primeiro momento que devemos nos ater é seu início, cujo qual a história começa por ser contada através de um letreiro, que informa o espectador daquilo que está prestes a assistir: 

“A
Os cangaceiros, bandidos místicos desapareceram do Nordeste do Brasil em 1940. O mais célebre de todos foi lampião que capitaneou uma luta de 25 anos contra o governo. 

B
Ainda hoje de tempos em tempos, surgem bandos de cangaceiros que tentam recuperar a lenda de Lampião.

C
São Jorge é o Santo católico mais popular do Brasil. Há uma divindade análoga na religião negra de origem africana, Oxóssi. São Jorge e seu duplo Oxóssi são chamados pelo povo de “Santo Guerreiro". 

D
Este filme se inspira na lendária Guerra do "Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro".

E
Jagunços são Matadores de aluguel

Coronéis são grandes proprietários de terra

Beatos são comunidades de camponeses miseráveis e místicos

Santa é a pessoa que dirige espiritualmente essas comunidades “

     Na música clássica, em diversos momentos de sua história, obras foram criadas iniciando-se com um tema, e seguindo-se de variações sobre o ele. Em Dragão da Maldade, podemos observar semelhante gesto, uma vez que a primeira imagem do filme visa apresentar os personagens que dão a direção dos conflitos e contradições que serão expostos no filme, e já em cenas muito próximas vemos variações cujo quais não estão contidas na exposição do tema: 

1. Uma câmera fixa mostra uma paisagem árida, com plantas secas, e tomadas pela claridade de um sol forte. Surge Antônio das Mortes, de maneira imponente, atira, não vemos seus oponentes. Uma trilha que se assemelha a um disco colocado de trás para frente é base-integrante dos gritos dos homens feridos por Antônio das Mortes. Só então, após travessia de Antônio pelo quadro fixo, até desaparecer, vemos um cangaceiro que após perambular pelo solo seco entre gritos e mal conseguindo manter-se de pé, deixa sua baioneta cair, e sobre o chão repousa, morto.

2. O professor, rodeado de crianças, faz perguntas como "Quando foi o descobrimento do Brasil", "Proclamação da República", "A morte de Lampião", e reforça - repetindo - didaticamente as respostas que as crianças dão.

3. O povo junto às duas lideranças religiosas e aos cangaceiros de baionetas erguidas promovem um cortejo em forma ritualística em que a música não se pode ser chamada de alegre, mas há a presença de vozes, há o canto coletivo, até um corte brusco da celebração. A trilha agora é composta por instrumentos em sua maior parte de sons metálicos em contraponto graves potentes e de tons ameaçadores, juntos quase como anúncio de algo que está por vir, um confronto. Trata-se de um plano aberto, onde o cangaceiro dirigente do grupo se encontra mais a frente, logo atrás as duas figuras espirituais e o povo em massa sentado mais ao fundo. Em meio a tudo o professor, o delegado e o coronel cego acompanhado de seu servo, que faz o papel de seus olhos, surgem notando a presença daquele bando. 

        Notamos que já nesses três momentos iniciais temos variações sobre temas já suscitados que obviamente terão sua clareza estabelecida no decorrer da obra, como quando, no exato momento seguinte, o cangaceiro anuncia: 

       "Eu vim aparecido. Não tenho família, nem nome. Eu vim tangendo o vento pra espantar os últimos dias da fome. Eu trago comigo o povo desse sertão brasileiro. E boto de novo na testa um chapéu de cangaceiro. Quero ver aparecer os homens dessa cidade. O orgulho e a riqueza do Dragão da maldade. Hoje eu vou embora, mas um dia eu vou voltar. E nesse dia, sem piedade, nenhuma pedra vai restar. Porque a vingança tem duas cruz: a cruz do ódio e a cruz do amor. Três vezes reze o padre nosso, Lampião nosso senhor."

      Tal discurso determina agora aquilo que havia sido mencionado no letreiro inicial, cujo qual o cangaço, e a lenda de Lampião que estaria viva em outros homens. Essas palavras ditas diretamente para a câmera são anunciadas logo após um plano médio - consequência do plano-sequência imediatamente anterior, citado no item 3 - do coronel e seu criado que o carrega pelo braço. Já de inicio: Antônio das Mortes liquidando um cangaceiro; o cangaço novamente vivo junto ao povo, ou ainda os beatos, e seus líderes espirituais em oposição ao coronel.

      Mais a frente Antônio das Mortes, junto ao delegado acalentado por uma mulher, relembra e narra, enquanto personagem, as lembranças dos confrontos contra o cangaço, quase como um transe, e admite: "Lampião era meu espelho". Antônio é jagunço, portanto é matador de aluguel, ganha a vida semeando a morte para colher um pouco de vida em troca de algum dinheiro, mas nada disso pode determiná-lo como um personagem mal, ou bom, mas contraditório. Sobretudo no momento em que se encontra, ainda que aceite a tarefa de acabar de uma vez por todas com o cangaço, assume ser uma tarefa ligada a seu “orgulho”, e poderíamos dizer completude de sua função enquanto matador.

       Novamente Antônio executando cangaceiros, com uma trilha que integra tal retorno representado por um disco que insiste em seguir de seu fim para o início como um circulo vicioso, que por sua vez prepara a volta de outros homens que representarão o povo, o cangaço e suas contradições e belezas místicas. O personagem de Antônio é tomado então por tal circulo, e se encontra claramente em conflito consigo mesmo, e mesmo assim ainda decide dar prosseguimento, já não mais pelo dinheiro, mas pelo fim imediato dele.

       O que veremos durante a continuidade do filme é que todos estes personagens, e os outros que surgirão, já não tem necessariamente mais controle sobre a história - e sobre a estória - enquanto indivíduos, nenhum deles carrega em si a mudança, mas ao contrário só em momentos de união popular, coletiva, ainda que repleta de contradições, é que há possibilidade de alguma saída afirmativa para aqueles condenados. Todos os personagens concentram contradições insuportáveis: o coronel cego nega o desenvolvimento agrário, tentando manter um tipo de vida negado até pelo personagem do delegado contrário ao cangaço e ao movimento popular, mas a favor da reforma agrária, tanto que propõe a Antônio das Mortes um último massacre, depois uma vida tranquila, o jagunço como já vimos em transe quase absoluto; o povo por sua vez, vaga entra a miséria e por sua vez a dor que representa ao mesmo tempo sofrimento e possibilidade de força para o enfrentamento, e a devoção religiosa, bela e aprisionadora, que também carrega força de mantê-lo em pé ainda que miserável, mas muitas vezes acomodado a ponto de aceitar sua condição de explorado.

        A obra acontece, os personagens revisam seu passado, anseiam um futuro, mas suas ações são quase nulas, se atracam uns contra os outros, por vezes contra seus pares, fazem surgir germes revolucionários, mas logo os matam. Suas ações violentas desesperadas são combatidas com violência, farinha e carne seca.

        Ainda que represente um personagem que não tem mais controle que seus pares da situação, uma vez que foi responsável, inclusive, por grande parte da morte - literalmente - de possibilidades de lideranças revolucionárias, Antônio das Mortes representa uma camada onirico-desejante do filme, a possibilidade, ilusória, de um herói redimido, uma vez que se colocando contra os poderosos, liquida praticamente sozinho, quase um exército inteiro, mas ao mesmo tempo marcha contra o progresso - em cena final quando caminha contra os caminhões que levam as mercadorias.

        A importância de se entender esta camada onírico-desejante de Antônio das Mortes é que na medida em que todo o filme é construído através de relações concretas e literais, que produzem experiências, é através do choque entre real e onírico-desejante que se estrutura a obra. As relações entre personagens destruídas pelo capitalismo, figuras de poder, vingança, solidariedade do explorador, os torna, e torna suas ações, cada vez mais ineficazes, mas, sobretudo explicita-se o movimento e as razões da ineficácia, por trás da concretude das relações e de suas aparente normalidade, se sobrepõem um mais de realidade. Como quando o coronel, entregando farinha e carne seca ao povo, que jogado ao chão, devora o alimento em latas de leite "Ninho" com as mãos, a voz do coronel ressoa insistentemente: "Eu sou bom. Dêem farinha e carne seca para todos. Eu sou bom. Diga ao povo que sou bom. Farinha e carne seca para todos. Abra o armazém." Aquele alimento sana a necessidade momentânea - e eterna - daquele povo, é também paliativo e objeto de aprisionamento à figura do coronel que aparentemente é solidário, mas como qualquer bom capitalista, mantém seus empregados de pé para lhe servirem, e extrair deles a mais-valia em tempo-dinheiro; há ainda a necessidade humana, de um homem cego pelo poder que ainda necessita sentir-se bem consigo e para os outros, e que acredita que é bom, na medida em que faz a ação analgésica.

   Como diz Bergson "Nós não percebemos a coisa ou a imagem inteira, percebemos sempre menos, percebemos apenas o que estamos interessados em perceber, ou melhor, o que temos interesse em perceber, devido a nossos interesses econômicos, nossas crenças ideológicas, nossas exigências psicológicas. Portanto, comumente, percebemos apenas clichês. Mas se nossos esquemas sensório-motores se bloqueiam ou quebram, então pode aparecer outro tipo de imagem: uma imagem ótica e sonora pura, a imagem inteira e sem metáfora, que faz surgir a coisa em si mesma, literalmente, em seu excesso de horror ou de beleza, em seu caráter radical ou injustificável, pois ela não tem mais de ser "justificada", como bem ou como mal… O ser da fábrica vem à tona, e já não se pode dizer "afinal, as pessoas precisam trabalhar…" pensei estar vendo condenados: a fábrica é uma prisão, a escola é uma prisão, literal, não metaforicamente." (Guilles Deleuze. Imagem-Tempo; página 33, Editora Brasiliense, 2009).

           Da mesma forma é impossível dizer em Dragão da Maldade “afinal as pessoas precisam comer".

    Contudo, uma vez que entendemos que habitualmente estamos de fronte à matéria, ao mundo, que por sua vez, percebemos através de nossas categorias sociais, econômicas, religiosas, etc. como poder acessar essas imagens em sua literalidade? A experiência cinematográfica existe na medida em que a obra finalizada é exibida e posta em relação. O filme poderia ter morrido na cabeça do autor, ou ainda na geladeiras em rolos de filme jamais postos em experiência. Portanto consiste em experiência de cinema, o público entrar em contato a partir do todo até as relações colocadas nas diversas camadas narrativas do filme. 

   Mas se no que tratamos aqui, a superação do esquema sensório-motor, a fim de se chegar a tal literalidade da imagem, o que não determina o sentido pleno das relações expostas, uma vez não atingido este objetivo poderíamos dar o nome de experiência ao que percebeu o espectador? 

   Eis a importância de trabalharmos a ideia de literalidade em Deleuze, a partir do ponto de vista da experiência cinematográfica. 

IV

"[…] se aprender é uma experiência que envolve todo o ser, e não a troca entre um sábio e um ignorante, o ensino ajusta-se às condições da aprendizagem, desde que ele próprio seja uma experiência; este requisito será satisfeito caso se coloque a atenção nos problemas e na diferença dos problemas." (Zourabichvili, François. Pag 1312. Educ. Soc, . Campinas. 2005)

 Em “Deleuze e a questão da literalidade”, Fraçois Zourabichvili aponta três temas cujo quais seriam possíveis organizar uma teoria do ensino:

1. a aula tem a ver com o que buscamos e não com o que sabemos

2. Não sabemos por quais signos um estudante aprende ou torna-se bom em alguma coisa

3. A atividade de pensar, e também o verdadeiro e o falso relativamente a essa atividade, começam quando traçamos os problemas mesmos

         E em consequência dos três, a questão da literalidade.

    Segundo F. Zourabichvili, para “acessarmos” ou percebemos uma obra - em seu texto ele usa precisamente a compreensão sobre um filósofo - devemos acreditar nela. Por acreditar, François não propõe aderir à obra, mas deixar que seu movimento real aconteça e seja percebido no momento da leitura.

“[...] não separar nunca, seus conceitos do desvio, do deslizamento ou do deslocamento, dos quais eles são, por assim dizer, os casos. Isso supõe que o próprio fazer seja enunciado, indicado em palavras. O filósofo faz ao dizer, mas porque ele diz o que faz, não apenas para nos indicar isso, mas também porque fazer, em filosofia, não tem outro elemento a não ser a linguagem: trata-se de uma mudança prática da linguagem”

     Para Deleuze o sentido existe na medida em que há relação, tudo está no mundo, encadeado e em movimento, e, por sua vez, todas as coisas no mundo sofrem contaminações móveis umas das outras: a extinção do ser em prol da relação, ou do devir, segundo Zourabichvili.

     Como já frisado, junto a criação de sentido através da relação a obra deve ser percebida com certa crença:

“[...] Crer é um acontecimento, uma síntese passiva, um ato involuntário, que se confunde com a abertura de um novo campo de inteligibilidade.”

       E, por fim, a toda experiência é cristalina. Para Deleuze trata-se de um cristal, uma estrutura que foge ao padrão, ou precisamente o clichê, e gera uma nova imagem: nas palavras de Zourabichvili a do reconhecimento orientado para a ação.

“[...] Europa 51. A heroína, assim como todos, sabe o que é uma fábrica. Em outros termos, a fábrica tem um lugar no horizonte de seus possíveis: enquanto ma grande burguesa , ela sabe reconhecer um operário, sabe que ele não pertence ao mesmo mundo que ela, etc. Mas eis que um acontecimento de família desarranja sua vida e seu espírito bem arrumados. Ela vai, uma dia, a uma fábrica, fica transtornada , e volta para casa dizendo: “acredito ter visto condenados”. Deleuze comenta: não se trata de um sonho [...] Trata-se, pois, da visão renovada de uma experiência da fábrica: ela viu a fábrica e a viu como uma prisão.” (Zourabichvili, François. Pag 1317. Educ. Soc, . Campinas. 2005)

       Em outras palavras a fábrica outrora “despercebida” pela heroína passar a existir na medida em que é vista como uma prisão. Podemos compreender que neste caso a heroína teve uma experiência.

     Diversos filme do cinema novo brasileiro, neo-realimos italiano, surrealismo, cinema marginal, cinema americano de arte pré-70, ou ainda autores modernos como David Linch, e em nosso objeto de análise O Dragão da maldade, expõem cristais tanto na concepção totalizante do filme, como em seus fatos e relações desencadeadoras e formadoras desse todo. E sobretudo, não falamos aqui só de cristais expostos diegéticamente, mas da relação com o espectador, ou aquele que em relação ao filme será ou não confrontado com a experiência.

        No plano ideal, e primevo, o ato de se dar comida de graça a outro é um ato bom. Contudo, o filme deve ser visto sobre todas as suas relações. O personagem que deu comida aos pobres é um coronel cego, grande proprietário de terras, que teme a reforma agrária, o levante do povo, a chegada do jagunço e do cangaço, portanto quer manter toda sua riqueza, e em qualquer outro momento tendo seu armazém repleto de comida não o ofereceu. Então, literalmente o mesmo povo que marchava em cortejo-ritual junto ao cangaço, e que carregava em si a dor e o germe revolucionário , ajoelhou sobre o chão perante o coronel para aliviar sua fome.

           Parece-me que ainda que muitas imagens sejam perfeitamente concretas, quando vistas através de suas relações nos levam as situações opostas em relação a literalidade sobre uma obra: 

- De um lado vemos a obra colocando, previamente nossas categorias sobre ela
- Por outro, nos entregamos tanto a seu movimento, que esquecemos que para se chegar a percebê-la, também fomos frutos de relações no mundo

          A tarefa não parece fácil, tanto que não é a toa a estrutura musical clássica de o “Dragão da Maldade” quando um tema é apresentado, e no decorrer dele vemos suas variações. Mas não podemos dizer que apreensão de suas variações, após a exposição do tema é mais confortável. Quando partimos do que hoje rege o mundo e suas relações, o senso comum, o desafio parece cada vez mais distante. O filme, a arte, nunca concentrará em si a solução de todos os problemas do mundo.

     Mesmo em sua relação com um público mais “intelectualizado” o cinema passa por momentos difíceis - herança da indústria cultural -, cujo quais suas camadas narrativas e suas capacidades críticas são cada vez mais suprimidas para dar lugar a história propriamente dita. Não se vê mais potencial narrativo na música, na câmera, direção de arte, no som, no corpo e voz dos atores - ou seja, a contradição que podem trazer através de gestos, por exemplo. Atualmente, o que mais vemos são teses sobre o enredo do filme, mas nunca sobre seus elementos narrativo-criticos totalizantes.

         Nos tempos atuais a literalidade não é impossível, pelo contrário é possível e necessária, mas de forma alguma facilmente ao alcance das mãos. Uma vez que vivemos em um mundo que cada vez mais suprime o tempo e as capacidades narrativas do homem, e o coloca na posição a todo instante no povo de O Dragão da Maldade, alimentando-se parcamente para manter-se em pé. A literalidade acima de tudo necessita de tempo, tal qual sempre necessitou a filosofia.







terça-feira, 16 de abril de 2013

"Rua Florada, Sem Saída" em cartaz no Engenho Teatral


Está em cartaz  o espetáculo "Rua Florada, Sem Saída", do grupo Casa da Tia Siré.

O espetáculo narra trajetória e o crescimento de quatro crianças dentro de um mundo onde crescer não é só um percurso natural , biológico, mas uma determinação da sociedade de consumo - ou simplesmente do capitalismo. Aos poucos absorvidos por este mundo, o que restam deles?

Está em cartaz no no espaço do Grupo Engenho teatral, bem ao lado do metrô Carrão.

Um infanto-juvenil completamente necessário para todas as idades.

A entrada é gratuita!

Sábados e Domingos, ás 15h, no Engenho Teatral: Rua Monte Serrat, 230 - fone: 2092-8865
Estacionamento gratuito no local.
Estação Carrão do Metrô