O Coletivo Cinefusão surge, no final de 2008, a partir da iniciativa de trabalhadores de diversas áreas - cinema, jornalismo, publicidade, artes cênicas, filosofia, arquitetura, fotografia -, empenhados em criar primeiramente uma rede colaborativa que pudesse dar conta da junção dessas linguagens e também da possibilidade de abarcar potencialidades em busca de produção artística independente, mas também de reflexões concretas acerca da sociedade. É principalmente sobre este último pilar de atuação política, que o grupo vem, atualmente, pensando o cinema, sempre vinculado a outras expressões artísticas e movimentos sociais.
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quinta-feira, 9 de junho de 2011
domingo, 17 de abril de 2011
Um Panorama da Barbárie
Após a chacina na do realengo, que, por caso, repercutiu de forma incontrolável e muitas vezes irresponsável, tanto por conta da mídia "datenista", que, infelizmente, forma massivamente o olhar de grande parte da população, como também o senso comum, que não é formado apenas por esses educados por pastores e fascistas engravatados, mas também por organizações, por exemplo, de defesa aos animais que ao saber que Wellington (atirador) disse num vídeo, durante os planejamentos da barbárie, que doaria sua casa para alguma instituição que prestasse serviços de cuidado aos animais, a resposta foi " Não aceitamos doação de um assassino", não me admira tanto a visão maniqueísta dos citados, mas enfim, de teimoso, insisto em discutir.
Como iniciei mal o parágrafo anterior, usando um "após" que parecia dar continuidade ao assunto, me redimo agora: Abaixo, fiz um compilado, com uma pequena resenha que escrevi sobre o Filme Elefante de Gus Van Sant e a tragédia de columbine, um ótimo artigo de Daniel Feldmann que fala diretamente sobre a chacina da semana retrasada no Rio de Janeiro e "americanização da violência", e por fim, uma parte do documentário sobre o Ônibus 174 - claro, com todas as ressalvas de nosso bipolar José Padilha.
Bom, a humilde, porém pretensiosa, empreitada, aqui, é trazer à tona uma discussão para além de uma visão maniqueísta e extramamente particular, um recorte de um problema muito maior - claro, que, como maior parte de todas as pessoas que acompanharam o caso, e outros ao redor do mundo de similar situação,também estou horrorizado; bom, o desafio não é fácil.
" 'Projeto pretende ensinar americanos a não errar tiros'
Com o lema 'envolva-se em sua vida', proposta defende que o tiro é fundamental para a identidade do país. Além das aulas de tiro, participantes ainda recebem informações históricas sobre América colonial."
Essa matéria foi publicada no uol exatamente no mesmo dia em que assisti ao filme "Elefante", dirigido, roteirizado e editado por Gus Van Sant. Coincidência ou não, achei interessante o fato, já que a crítica na obra é muito mais próxima da matéria citada, do que propriamente o atentado cometido pelos dois garotos - que entraram na escola armados de bombas e metralhadoras, após um cuidadoso plano para execução de alunos, profesores, funcionários, etc.
No filme, cada um dos personagens, todos jovens durante o colegial, é retratado sob uma câmera parecida com aquelas de games como "007", onde os personagens são seguidos ou perseguidos, definindo-os como "terceira pessoa", em longos planos-sequência. Isso possibilita nossa observação sobre eles, sem que saibamos suas personalidades por completo, se são"essencialmente maus", como o atleta popular ou ainda extremamente oprimidos, como a nerd. Isso não importa de fato.
Portanto, a obra não busca traçar a linha entre burros e inteligentes, brancos e negros, democratas e reacionários, nerds e descolados. E nem tenta justificar o atentado dos dois garotos pelo seu comportamento junto ao colégio ou em família. Mas sim, e daí o principal motivo da citação à matéria, o filme desenha o perfil de um país obsessivo pelas armas e que ainda acredita ser o imã centrípeto do mundo.
A TRAGÉDIA DE REALENGO E A “AMERICANIZAÇÃO” DA VIOLÊNCIA
Daniel Feldmann
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"Mas todo o drama é que o sonho americano não existe sem a sua contraface de pesadelo: uma sociedade que, a despeito de sua vitalidade e de suas virtudes, tem claros sinais de paranóia e senilidade, frutos dos valores capitalistas..."
Antes de ficar marcado pela horrível tragédia em que Wellington Menezes de Oliveira matou doze crianças e feriu outras doze e depois foi baleado por um policial na Escola Municipal Tasso de Silveira, o bairro do Realengo no Rio havia sido imortalizado na célebre canção de Gilberto Gil “Aquele abraço”:
“O Rio de Janeiro continua lindo
O Rio de Janeiro continua sendo
O Rio de Janeiro fevereiro e março
Alô, alô Realengo, aquele abraço...”
Depois da chacina é inevitável que os versos de Gil soem um tanto datados e contraditórios. Em “Aquele Abraço”, o cantor celebrava a alegria, a simpatia e o caráter amistoso do povo brasileiro, em especial do povo carioca. “Aquele abraço” é uma espécie de hino que exemplifica aquilo que o historiador Sérgio Buarque de Holanda caracterizava como o “homem cordial” brasileiro em seu livro Raízes do Brasil. Nosso “homem cordial” teria valores e atitudes opostas à da cultura anglo-saxônica protestante, marcada pela impessoalidade e distanciamento nas relações humanas. Já o brasileiro, segundo Sérgio Buarque, seria caracterizado pela “lhaneza no trato, a hospitalidade, a generosidade, virtudes tão gabadas por estrangeiros que nos visitam, que representam, com efeito, um traço definido do caráter brasileiro (...)”
Seria um erro supor que o “homem cordial” brasileiro seria sempre alguém pacífico e pacato. Como ressalta o próprio historiador: “Seria engano supor que estas virtudes podem significar `boas maneiras`, civilidade. São antes de tudo expressões legítimas de um fundo emotivo extremamente rico e transbordante.” Ou seja, “cordialidade” implica em “agir com coração”, o que pode significar bondade mas também raiva e ódio.
Todavia, sob nenhuma hipótese, a idéia de “homem cordial” é compatível com o massacre do Realengo, brutalmente frio e totalmente impessoal. É necessário, portanto, uma reflexão adequada. A que ponto chegamos? Como o Realengo de Gil se transformou em 7 de abril de 2011 no Realengo de Wellington?
Numa primeira aproximação, poderíamos dizer que Wellington seria um produto de uma “americanização” da violência. Afinal, é dos EUA que sempre recebemos notícias de assassinos e psicopatas que invadem escolas e metralham indiscriminadamente estudantes, como nos mostra o ótimo documentário “Tiros em Columbine” do diretor Michael Moore.
Tal abordagem não deixa de ter seu apelo. Afinal, se incorporamos as mercadorias e a cultura de massa dos EUA, porque também não incorporaríamos suas neuroses e traumas? Todavia, isso ainda não é suficiente para explicar a tragédia do Realengo. Pois o que precisamos urgentemente entender é porque a sociedade brasileira, ela mesma teve de passar por tal tragédia.
Leon Trotsky enfatizou em sua vasta e rica obra o caráter desigual e combinado do capitalismo. Ao mesmo tempo em que o capitalismo reproduz um padrão técnico universal de acumulação do capital, ele convive com formas mais arcaicas de produção, como temos visto na história de países de passado colonial como o nosso. Poderíamos ainda acrescentar que o desenvolvimento desigual e combinado do capitalismo no plano dos valores suscita uma universalização de certos padrões (consumismo, competição, individualismo, etc), ao mesmo tempo em que consegue até certo ponto conviver com padrões culturais específicos dos diferentes países (como caso brasileiro, a “cordialidade”).
Pode-se dizer ainda que nosso país, nas últimas décadas, incorporou profundamente tais valores negativos do capitalismo, ao mesmo tempo em que não alcançamos as condições materiais que poderiam generalizar um dado padrão de vida e de consumo tal qual existe nos países desenvolvidos. Isto, somado à difusão praticamente universal da televisão no Brasil, traz como resultado o fato de que vivemos numa sociedade que é diariamente bombardeada pela propaganda daquilo que não pode possuir e iludida com aquilo que não pode ser. Bombardeio esse que com certeza tem um eco mais forte na nossa juventude. Daí a nossa violência urbana, certamente uma das maiores do mundo, que não se explica apenas pela pobreza de grande parte da população, posto que países mais pobres que o nosso tem um índice de violência muito menor.
“Sim, ganhar dinheiro, ficar rico enfim” como diz o rap dos Racionais. Consumir, competir, ser alguém. Nossa “americanização” tem como pano de fundo um país subdesenvolvido onde muitas das mínimas condições de dignidade (educação, saúde, moradia, empregos decentes, etc...) ainda estão ausentes para enorme parcela do povo. Como se já não bastasse a exclusão que nosso próprio capitalismo produz, nossa juventude tem incorporado recentemente outro “americanismo”, o bullying. Jovens que por qualquer motivo não se enquadram no perfil do “vencedor” (são feios, gordos, homossexuais, estranhos, etc...) sofrem agressões de grupos no bairro ou na escola.
O governador do Rio, Sérgio Cabral, se apressou em dizer que a tragédia do Realengo era fruto da atitude de um “monstro”, de um “animal”. Certo, quem poderá negar a monstruosidade e animalidade da morte covarde de crianças? Entretanto, reconhecer a inegável insanidade e maldade de Wellington, não responde por si só à questão mais importante: por que é que a nossa sociedade tem criado Wellingtons? Para Cabral, trata-se apenas de isolar os “animais” e “monstros”, como se casos como o de Wellington fossem meros raios em céu azul e não produtos de algo muito mais profundo e preocupante. Pensarmos a tragédia do Realengo sem indagarmos os rumos que a sociedade vem tomando é - além de inútil - uma atitude leviana.
Quem era Wellington? Pouco sabemos, além do fato de que era filho adotivo e depois órfão dos pais, portador de HIV, desprezado na escola, depois desempregado, e que recentemente teria aderido a seitas religiosas. Se é verdade que sua extrema violência e loucura é um caso único e inusitado, por outro lado, quem pode negar que Wellington também era o retrato de uma juventude sem perspectiva, em parte apologista e em parte vítima da “americanização” e dos “bullying”, uma juventude embrutecida pela frustração pessoal do capitalismo ultra-competitivo desse século 21?
Por fim, uma última reflexão sobre o Brasil contemporâneo. É fato que durante o governo do PT houve uma melhoria nas condições de vida de boa parte do povo brasileiro. Não entraremos no mérito da questão aqui, mas é fato que a eleição de Dilma expressa o apoio do povo contra o elitismo do PSDB e a favor de um sentimento geral de que o PT representa melhor os anseios do povo mais pobre e dos trabalhadores em geral.
Ao mesmo tempo, o próprio Lula se gaba de ter promovido no Brasil “um choque de capitalismo”. Ele mesmo afirmou recentemente que, a despeito de suas origens socialistas, seu governo foi o mais capitalista da história brasileira. Ele tem razão, mas ao mesmo tempo, não tirou a nosso ver as conclusões do que realmente está em jogo.
Pois, se é verdade que hoje certos padrões de consumo, antes inacessíveis, fazem parte da vida do brasileiro médio, e se também é verdade que a pobreza diminuiu, o que sem dúvida é positivo, por outro lado, nosso “choque de capitalismo” também tende a reproduzir consigo todos os efeitos perniciosos de um sistema que estimula o consumismo, a exploração, a alienação, a ausência de valores sociais, a competição e o individualismo, ainda mais quando pensamos na fase atual de um capitalismo cada vez mais desregulado, incontrolável e voraz.
Desse ponto de vista, tem razão o historiador britânico Perry Anderson que em texto recente afirmou que os governos do PT até certo ponto têm sido responsáveis pela tentativa de se reproduzir aqui o “sonho americano”. Não é à toa, aliás, que o governo tem feito referência ao crescimento de uma classe média de massas brasileira, tal como a dos norte-americanos.
Mas todo o drama é que o sonho americano não existe sem a sua contraface de pesadelo: uma sociedade que, a despeito de sua vitalidade e de suas virtudes, tem claros sinais de paranóia e senilidade, frutos dos valores capitalistas que já mencionamos. Wellington, ironicamente até em seu nome, pode ser nosso elo trágico com tal pesadelo americano. E o resgate do melhor de nossa cordialidade, exige que pensemos num outro sistema econômico que permita o florescimento de outros valores, mais solidários, humanos e elevados: o socialismo.
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
sexta-feira, 12 de novembro de 2010
O analgésico e a ilusão da cura
Uma das principais atrações do 14º É Tudo
Verdade 2009, o mais recente documentário de José Padilha, “Garapa”, teve sua
estreia internacional no Festival de Berlim do mesmo ano, na mostra “Panorama”,
com sala lotada. Na capital alemã, o público recebeu o filme em silêncio
profundo e isso não foi diferente durante o curto período em que o filme esteve
em cartaz em poucas salas brasileiras. “Garapa” mostra o cotidiano de três
famílias cearenses – duas delas do sertão e uma da periferia de Fortaleza -,
vítimas da fome e que vivem numa situação de miséria difícil de ser imaginada.
Essa recepção emudecida reflete, talvez, o modo
como Padilha compõe a sua visão documental, impedindo que o espectador tenha
qualquer margem para imaginar algo, pois não há, num primeiro momento, qualquer
tipo de intelectualização. Por isso, o diretor optou por retirar tudo o que não
fosse essencial a essa maneira de filmar. A fotografia é em preto e branco,
bastante granulada, obtida com um câmera super 16mm, quase sempre utilizada na
mão. Além disso, o som é direto, não há música nem efeitos digitais.
Todo essa aridez visual e sonora força o
espectador a ter uma experiência imersiva de contato com esses seres humanos e
remete principalmente ao “Vidas Secas”, de Nelson Pereira
dos Santos, que também tem semelhanças temáticas com “Garapa”. Além de
contribuir para uma questão estética do filme, a ausência de cores parece ter
sido uma opção narrativa de Padilha, na medida em que não há cor possível, num
ambiente tão miserável e sombrio. Da mesma forma, não há como musicar as
situações mostradas.
O
título “Garapa” se refere à mistura de água e açúcar que as mães dão aos filhos,
em substituição ao leite e outros alimentos para mascarar a fome e dar energia
durante o dia. Não há comida, mas também não há higiene, não há saúde e não há
condições para uma vida digna. O filme se resume a brutalidade dos fatos e são
eles que denunciam a miséria social dessas famílias. A aproximação se dá no
âmbito emocional e o espectador compartilha a sensação terrível de sentir fome,
que é repetida à exaustão. “Garapa” não é um filme leve ou agradável e,
igualmente, viver as situações mostradas passa ao longe de ser agradável.
Apesar de não ser nenhuma novidade o que está colocado na tela, mostrar de maneira enfática e atirar a pobreza na cara das pessoas representa, talvez, uma revolta de Padilha com a atitude de distanciamento que mantemos em relação a esses problemas. O documentário nos força a abandonar a inércia filosófica e sentir quase que fisicamente a intensidade dessa indigência. Assim, a câmera de Padilha chega a ser cruel ao mostrar detalhes que impedem qualquer tipo de glamourização da miséria.
É impressionante também como as três famílias aceitam
viver normalmente na presença da câmera. Claro que há encenações, como em
qualquer outra filmagem com proposta documental, mas os personagens de “Garapa”
sentem-se à vontade para serem observados e até brigam entre si, em determinado
momento do filme. Assim como o Sandro, de “Ônibus 174” (primeiro documentário
de José Padilha), essas pessoas encaram as câmeras, talvez, como uma
possibilidade de abandonarem a invisibilidade, com a qual sempre conviveram,
nem que seja por apenas algumas horas.
Indo ao encontro da proposta do filme, José
Padilha faz algumas intervenções pouco elaboradas, mas eficazes ao questionar a
obviedade de alguns fatos como, por exemplo, a insistência dessas famílias em
terem filhos, sendo que o aumento da prole é diretamente proporcional ao
aumento das dificuldades de vida. Em outra situação, o diretor revela que
influenciou diretamente à realidade filmada ao dar um analgésico a determinado
garoto que sofria com dores nos dentes e, em seguida, vem uma tentativa do
diretor de explicar ao pai do menino que a dor melhorava com o remédio, mas o
problema dentário continuava.
São essas interferências que denunciam que a
miséria não é somente social, mas também intelectual, pois não há como existir
um discernimento mental correto em condições tão adversas de sobrevivência. As
poucas alternativas que essas pessoas têm para combater a pobreza – os
programas governamentais como, por exemplo, o “Fome Zero”, que apenas uma das
três famílias recebe – são vistas como dádivas por aqueles que as usufruem.
Porém, além de não se estenderem a todos que necessitam, funcionam exatamente
como o analgésico que Padilha se esforça para explicar: melhoram os sintomas,
mas não curam. Uma metáfora simples, mas que tem força e, talvez, explique a
clara intervenção do diretor.
Enfim, “Garapa” não propõe soluções, mas
demonstra, da maneira mais simples possível, o quão urgente algo precisa ser
feito. Em tempos de Big Brother, Padilha faz o seu próprio “reality show”, este
sim fiel à realidade, pois, em “Garapa”, ninguém pode, por exemplo, pular
amarelinha ou participar de gincanas para ganhar a sua comida. Simplesmente não
há alimento. Que bom seria se esse “reality show” tivesse tanto público como o
Big Brother ou se “Garapa” fosse tão discutido e tão assistido como “Tropa de
Elite 1 e 2”, do mesmo José Padilha.
José Padilha troca o violento Rio de Janeiro pelo miserável agreste nordestino
Texto enviado pelo colega Itamar Cardin e publicado na Revista Paradoxo
Filmar a fome não é dos
mais nobres ou tranqüilos desafios. Primeiro, há um problema de ordem
quase técnica: como materializar em imagens uma questão tão
universalmente debatida sem ao mesmo tempo recair em um didatismo
televisivo, em um pieguismo adocicado, em um reducionismo ligeiro do
próprio problema da fome? E, da própria opção em se filmar a fome,
decorre uma segunda questão: é ainda legítimo fazer cinema político?
Antes de se aventurar no premiado e polêmico Tropa de Elite, e após ser alçado ao estrelato por Ônibus 174, o cineasta José Padilha filmou um documentário sobre a fome. Garapa, que
somente agora estreará em circuito, filma o dia-a-dia de três famílias
cearenses miseráveis, e que sofrem com o problema da fome. As
peculiaridades de cada uma, presentes logo no começo do filme, ajudam
identificá-las com distinção.
Duas dessas famílias vivem no sertão, ambas possuem
muitos filhos. Em uma delas, no entanto, onde as crianças sempre
aparecem brincando, a conversa com Padilha é mais fluente; na outra, a
fala pausada dos pais geralmente é cortada pelo choro das crianças. De
Fortaleza, a terceira é atormentada pela loucura do pai, que passa o dia
profetizando e ameaçando trocar a comida da casa por bebida.
Padilha faz claras opções na condução do filme. Os
princípios do cinema direto - gênero de documentário onde se busca a
captação direta da realidade, sem intervenção - são seu cerne principal.
Poucas perguntas são feitas e a rotina das famílias corre livremente
aos olhos do espectador. Também não há a utilização de cor [é inevitável
pensar na semelhança com o Cinema Novo], trilha sonora e zoom, o que,
nas palavras de Padilha, foi uma tentativa de representar ao espectador o
vazio deixado pela fome.
Não necessariamente pela falta de cor ou de som, mas é
exatamente este vazio que sempre predomina. As três famílias parecem
viver em uma realidade à parte, em um nó obtuso onde o sistema de
políticas públicas jamais conseguirá chegar ou entender. Não se trata
apenas de passar fome. O que se vê é um buraco desconhecido, que por
desconhecido pouco pode ser preenchido.
Em uma das intervenções de Padilha, ele
pergunta ao pai dos brincalhões quanto tempo dura a cesta enviada
mensalmente pelo Fome Zero. O patriarca, consultando a mulher, responde
que mais ou menos doze dias. O diretor quer então saber o que é feito no
resto do mês. Ninguém responde. Em outra cena, a mãe de Fortaleza leva a
filha a uma assistente social, para verificar como anda a subnutrição
da pequena. A disponível funcionária ouve, dá recomendações sobre a vida
conjugal, critica o marido louco, pergunta sobre a escola. Por fim,
orienta sobre como alimentar melhor a menina e contornar os danos da
fome. A mãe responde que o alimento solicitado não existe em casa. A
funcionária tenta a segunda e a terceira opção. Nada. “Você não tem nada
do que peço. Assim, não poderei te ajudar”, conclui.
Cenas que parecem meio
surreais, quase inverossímeis ou produzidas, mas que ganham força pela
opção de Padilha. Começa aí o grande acerto do filme: a opção quase
naturalista ao se falar da fome. Há pouco a ser dramatizado ou
acrescentado quando a realidade é irrefutável. O filme transcorre quase
como que em uma exposição, árida e agreste, tentando canalizar a força
da imagem para representar um problema de proporções históricas e
devastadoras.
Ao longo dessa exposição, nota-se também um notável
trabalho de montagem. A passagem de uma cena para outra muitas vezes
parece linear, como se as famílias fossem as mesmas, como se os
problemas enfrentados por indivíduos tão distintos fossem sempre os
mesmos.
A tônica é a mesma no início, no meio e no fim, como
um pêndulo, em imagens que vão e voltam sempre. Repetição que acaba
criando um mapeamento abrangente e universal da fome e da miséria:
desemprego, falta de chuva, alcoolismo, homens omissos, mulheres
batalhadoras, crianças doentes, falta de planejamento, desesperança.
É, aliás, nessa desesperança das famílias que reside
uma das sensações mais angustiantes do filme. Os dias, salvo
provavelmente quando aparecem os serviços temporários, parecem
idênticas, cansativas repetições um dos outros. Não há novos desejos,
novos futuros, novos medos. É sempre a fome.
Longe da violência carioca, que marcou seus dois
grandes sucessos, Padilha faz aqui seu filme mais necessário. Obra que
universaliza e materializa um problema tão complexo, que tem a
força devida para reavaliar certos fantasmas nem tão mortos assim. A
fome, afinal, é um pêndulo. Um moto-contínuo.
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
Cineclube Cinefusão exibe "Garapa", de José Padilha
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domingo, 31 de outubro de 2010
ENSAIO: O Excesso de Segurança em Tropa de Elite 2 ou Nosso Holocausto Particular
Passadas semanas após a estreia de Tropa de Elite 2, debates com Padilha e Wagner Moura e muitas críticas, análises, resolvi fazer um ensaio sucinto sobre aquilo que acredito ter sido pouco discutido. Que é não mais a corrupção pela corrupção ou ainda uma falta de um programa de segurança pública eficaz, mas agora o excesso de segurança.
O que mais se ouve, de todos os lados, entre críticos, público e afins, é a segurança pautada por aquilo que escutamos durante todo o filme através do protagonista e narrador Capitão Nascimento, o sistema. Este, por sua vez, corrupto.
Contudo, o que vejo e acredito que tenha sido deixado de lado, tanto na obra quanto por aqueles que se arriscam a escrever sobre ela, é que o problema já não é a “falta de um programa de segurança pública” - como disse Padilha em debate organizado pela Folha de São Paulo, quando perguntado sobre as eleições, ele se posicionou contra PSDB e PT dizendo que ambos prometeram um programa de segurança e não cumpriram. E é aí que precisamos inverter o jogo e entender a conjuntura em que nos encontramos. O que acontece é exatamente o contrário. O que pauta esse sistema é o excesso de segurança e não a falta dele.
Ora, aparato técnico não nos falta – repare que ao dizer “nos” estou “nos” incluindo ao sistema. Vivemos em uma sociedade pautada pelo medo. Estamos rodeados por câmeras de segurança nos trens, metrôs, ruas, universidades e afins. Na televisão, Datena, Jornal nacional fazem os papéis mais importantes no que diz respeito a manutenção dessa silenciosa barbárie. O espaço público é marginalizado. Os muros crescem. Temos policias, muitos, armados, violentos e dispostos a exercer essa violência. Temos um exército. Além é claro de cercas, alarmes, lanças, portões elétricos, etc.
Nosso momento histórico é diferente àquele que anunciava um dos personagens de “NOTICIAS DE UMA GUERRA EM PARTICULAR”, de João Moreira Salles. Ele dizia que os traficantes, no momento em que percebessem o como funcionava o sistema de segurança, no caso no Rio de Janeiro, eles desceriam e dominariam tudo, pois teriam poder para isso. A situação, hoje, está claramente invertida. A policia, o estado, a elite tem aparato técnico e humano suficiente para aniquilar com tudo aquilo que tem por torto, errado.
E antes de prosseguir com o raciocínio, levanto duas questões “Qual a vantagem do estado em aniquilar com o tráfico?”; e “Para nos proteger do que, é necessário um programa de segurança pública?
A primeira questão. É através do tráfico e de todo esse movimento torto, que não é composto apenas pelos chamamos bandidos mas também por policiais, que é propiciado o lento desaparecimento de toda uma camada da sociedade, ou seja os pobres. Logo, mais fácil que sujar as mãos, que deixem eles se destruírem aos poucos – palavras do estado ou “sistema”. E essa destruição no submundo é silenciosa, pois é lá que acontece, em meio aos seus guetos. Estão controlados, policia e crime “organizado”. O Estado tem o poder de criar uma policia que está para garantir a injustiça, da qual a própria policia também é vitima. A policia assim como o tráfico, é uma organização criada, já desde cedo baseada na autodestruição, mas que o material humano é quase infinito. Morre um, sobe outro.
É claro, que esse tal holocausto particular do submundo, por vezes ameaça incomodar as estruturas das outras classes sociais. Volta e meia haverá um Sandro Nascimento, um revolucionário ou ainda um ser enlouquecidamente revoltado, que ousará sair de seu gueto e dizer: “Eu estou aqui, me vejam”. E ainda assim morrerá, pelas mãos de um oficial da PM, BOPE, ROTA, CIVIL, etc. E isso não terá grande importância já que para, principalmente, nossa classe média, média alta o único problema a ser discutido será a demora em executar o meliante – assim como escutei algumas vezes pelas bocas de “estudantes” de “cinema” em São Paulo, em relação ao caso do ônibus 174.
E vale ressaltar mais um ponto, em que tanto o filme quanto todos nós parecemos ignorar. Esses traficantes, agora falando estritamente do Brasil, e poderíamos até explanar apenas sobre o Rio de Janeiro, são como quaisquer empresários de corporações de caráter privado – acredito que não digo nenhuma novidade. Porém o que gostaria de ressaltar, que está esquecido, é que toda a linha de produção tecnológica para produzir e transportar a droga não está no morro. Ou alguém acha que esses traficantes tem helicópteros que pousam em telhas, prestes a cair, no morro da alemão ou na rocinha? E que possuem barcos, grandes carros? E ainda mais como a segurança de qual falava antes, cheia de cameras, homens, possibilitam a entrada dos produtos? Seja lá qual via for.
Estado, corporações, empresários estão de braços dados ao tráfico direta ou indiretamente. E essa é uma das garantias para que o sistema de segurança funcione. Com o tráfico funcionando, eles se matam, não nos preocupam. Isso também possibilita uma real diferença entre “eles” e “nós”. Sem que haja esse diferencial de miséria e violência para “conosco” cidadãos bons, honrados e que arcam com seus impostos, qual seria “nosso” critério de diferenciação? Além disso há outro importante ponto, não se ativa de uma vez por todas a aniquilação das tais camadas inferiores, por conta de um código de conduta moral que proíbe aquilo que poderia ser chamado de genocídio, o que para cidadãos bons e honrados de classes superiores seria um problema. Imagine só, sermos comparados a nazistas?
A segunda questão vai de encontro aos que disse anteriormente. Estamos pedindo por um sistema de segurança eficaz contra nós mesmos. Pois a quem a policia deve proteger – o estado, a elite – já é bastante eficaz.
Sucintamente podemos dizer, o sistema de segurança atual funciona e está organizado. Porém o sistema econômico que vivemos torna óbvio para quem é destinado o programa de segurança. E é direcionado para aqueles que podem comprá-lo. E é nesse sentido que discutir se esse programa de segurança é competente ou não, é besteira. Pois é claro que é competente. Com exceção de alguns casos, que não podem ser chamados de frequentes, aqueles que devem ser protegidos frente ao crime, nesse sistema, estão sendo.
Portanto, a revindicação que o próprio Padilha diz “esperar por um bom ou competente programa de segurança pública” não é possível, pois nessa lógica em que vivemos, ele já o é. Não há o que revindicar dentro disso. Acaba-se por revindicar reformas e o discurso, nesse sentido, fica vazio.
A mantença junto a manutenção dessa conjuntura, pautada pelo grande capital, não trará nenhum avanço e a revindicação por reformas é pífia. Ou buscamos o novo, o “renascer”, sair da lógica que por tanto tempo estamos amarrados, ou nos resta esperar lenta e pacificamente por um fim cinza em nosso holocausto particular, o do terceiro mundo – ou emergente, como preferir.
Os valores dessa sociedade estão dados. E nesse sentido o sistema funciona e é, mais do que nunca, extremamente competente.
terça-feira, 12 de outubro de 2010
Exibição gratuita de Tropa de Elite 2 e Debate com Wagner Moura e José Padilha
O diretor, José Padilha, e o ator protagonista, Wagner Moura, do filme “Tropa de Elite 2” participam de debate aberto ao público, às 20h desta quarta-feira, dia 13, no Cine Livraria Cultura.
O debate será logo após a exibição do longa. As senhas podem ser retiradas na bilheteria do cinema a partir das 19h do dia do evento. O filme é classificado como não recomendado a menores de 16 anos.
O evento é uma realização do jornal Folha de S.Paulo em parceria com o Cine Livraria Cultura.
Tropa de Elite 2
Quando: Qua 13/10 às 20:00 Confira todas as datas
Qua 13/10 às 20:00
Quanto: $ Grátis $
Onde: Cine Livraria Cultura
Endereço: Av. Paulista, 2.073 - Cerqueira César - Oeste.
Fonte: Catraca Livre
quinta-feira, 7 de outubro de 2010
Capitão Nascimento na praça outra vez
Ano de eleição. Após o primeiro "Tropa de Elite" - que teve grande repercussão, principalmente através de sua pré-estréia no comércio pirata -, a segunda versão já tem data para estrear, será no próximo 8 de outubro (sexta), logo após as eleições. Não me arrisco a dizer que isso seja mais uma estratégia de divulgação do filme, e se for não pretendo rechaçar ou legitimar a ação, dado que o cenário de produção e difusão de filmes no Brasil é vergonhoso. Não me surpreende que novas tendências de promoção cinematográfica se mantenham constantes, para o bem ou para o mal.
Bom, resolvi rabiscar algumas palavras aqui, pois nessa semana revi a primeira parte da obra na TV record - outro fato "interessante": os filmes que tem sido exibidos na grandes emissoras de TV, ainda que em horário reservado para "intelectuais insônes". De qualquer forma, assisti e, dessa vez, tomando cuidado para entender, de uma vez por todas, o porquê de o filme dirigido por Padilha ter feito tanto barulho. Já fazia tempo que a discussão sobre ser ou não um filme facista me incomodava, principalmente por não saber responder a questão. O fato foi que o assisti, atenciosamente. Cada plano me fazia analisá-lo friamente. Diga-se de passagem, todos esses planos são muito bem feitos, tecnicamente falando. "Tropa de Elite" tem uma boa fotografia, atores ótimos e um roteiro muito bem amarrado, que inclusive utiliza de recursos que não são novos, como os flash backs, que potencializam a ideia de "não tempo", vivida por homens que estão constantemente no limite de suas vidas.
E me perguntava "Qual o problema desse filme?". Como já disse anteriormente, não podemos negar toda a qualidade técnica do filme, no qual cada elemento de arte, som, fotografia, roteiro são, de fato, muito bem trabalhados. Logo, o problema, talvez, esteja em como todo esse competente aparato técnico foi "amarrado" e o que ele viria a representar, no que diz respeito a sua estrutura macro, a forma final, o filme. Primeiro, caso paremos apenas no que diz respeito aquilo que é técnico no filme, efeitos especiais, tiros, trilha que cresce junto a saga de cada personagem, estaríamos somente reproduzindo o discurso do "cinemão" hollywoodiano. E o filme iria da "arte pela arte" para o alienado e vazio entretenimento.
Talvez, a crítica que acredito, no momento, ser mais eficaz é que independente daquilo que o filme contextualiza ou tenta contextulizar - sendo ele marxista ou facista -, sua forma dialoga diretamente com o conservadorismo e a caretice de muitos blokbusters. E é essa forma que serviu muito mais para a comercialização do filme do que necessariamente para o exercício artístico. Até por isso que fica cada vez mais complexo denominar o filme facista ou não. O filme não demoniza ou endeusa diretamente traficantes ou policiais. Mas critica ferozmente uma burguesia que necessita sentir-se culpada pela miséria que as rodeia. Pela varanda do apartamento enxergam apenas as cabeças rolando pelo submundo. E a partir daí fundam ou se associam às ONGS, exercendo o seu papel social.
Apesar disso, ao tentar ser mais comercial do que didático-artístico, "Tropa de Elite" toma o rumo de investir em cenas de violência explícita, por exemplo, como forma de incentivar a nós, público brasileiro, que nos preparamos, sofremos, mas gostamos dessa bárbarie. E claro para o dito 1º mundo que de nós aqui - emergentes - querem mais é ver a destruição interna, como numa briga de insetos, muito mais do que grandes artistas, filósofos, trabalhadores e afins.
Antes de encaminhar uma conclusão é importante lembrar que crítica se faz diretamente ao como a obra se mostra, para mim. Pois, como demonstrado logo depois de Tropa de Elite, Padilha é de fato um grande artista e prova isso em "Garapa".
Posso lançar um olhar otimista sobre o filme, pensando talvez que ele trata de uma guerra - fato - que já nasceu perdida, onde explorados lutam entre si e a única coisa que está em jogo é o poder sob algo que por fim é apenas um micropoder, já que o que eles tem não será potencializado. Ou seja, traficantes conseguiram dominar seu morro, sua comunidade, talvez algumas outras, porém não sairão disso. O estado e a democracia estão muito bem amparados e estruturados para contê-los. O mesmo serve para os policiais que talvez consigam subir de patente mas serão eternos lacaios e defensores da elite. Policias e traficantes se digladiam por uma democracia burguesa. O povo está em meio a isso. E é nesse ponto minha maior crítica ao filme. Apesar de não ser obrigado a isso - por talvez não ser sua proposta -, a obra parece esquecer a massa trabalhadora, a classe pobre. Passam despercebidos, inexistentes, quietos. Talvez pudéssemos lançar mais um olhar otimista e dizer que isso era parte da proposta do filme, no qual o povo estaria inerte a tudo isso. Mas, pelo contrário, não consigo acreditar nesse fato e o filme acaba por não apontar para lugar algum.
De fato, o lado dos traficantes é cercado por homens sujos, mal encarados, tortos. Já os policiais, apesar de carrancudos, corruptos e mesquinhos em grande parte, possuem um carisma único que seja talvez o que provocou tanto sucesso com o personagem de Wagner Moura. Mais um filme que de fato não passará em branco, continuará e será ainda alvo de muitas discussões, críticas, elogios. Eu mesmo não posso dizer o que direi daqui a dois anos sobre ele. Mas fica uma sensação, após assisti-lo e tentar exprimir em palavras o que vi, senti, ouvi; o cinema brasileiro, apesar dos "investimentos" na área e os novos editais, parece regredir junto ao vaso sanitário da globo filmes e tenta criar um cinema doutrinador e cada vez mais próximo dos enlatados americanos. Que pena.
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