O Coletivo Cinefusão surge, no final de 2008, a partir da iniciativa de trabalhadores de diversas áreas - cinema, jornalismo, publicidade, artes cênicas, filosofia, arquitetura, fotografia -, empenhados em criar primeiramente uma rede colaborativa que pudesse dar conta da junção dessas linguagens e também da possibilidade de abarcar potencialidades em busca de produção artística independente, mas também de reflexões concretas acerca da sociedade. É principalmente sobre este último pilar de atuação política, que o grupo vem, atualmente, pensando o cinema, sempre vinculado a outras expressões artísticas e movimentos sociais.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

PRIMAVERA TUPINAMBÁ

Todo apoio ao projeto "Primavera Tupinambá". Colaborem e ajudem  a trazer 15 lideranças Tupinambá de Olivença para São Paulo.





De 27 de agosto à 7 de setembro, ocorrerá, em São Paulo, a Etapa Paulista do Seminário Índio Caboclo Marcelino. O evento, criado e gerido pelo Povo Tupinambá de Olivença/BA, está em sua 7º edição.

Esse ano, 15 lideranças desejam ir à capital paulista para promover sua luta e contar suas histórias. Isso só será possível se conseguirmos custear as passagens, hospedagens e alimentação. Ajude-nos a tornar isso realidade e venha participar das nossas atividades!

A história da luta do Povo Tupinambá por suas terras e tradições, como de todos os índios brasileiros, advém da invasão portuguesa ao Brasil em 1500. Neste processo, os Tupinambás foram historicamente e sistematicamente perseguidos – até os dias de hoje. Tornou-se comum ler e ouvir que este Povo não existe mais.

No entanto, mesmo com as tentativas de extermínio, os Tupinambás continuam a existir através de diferentes formas de vivências e não abandonaram o seu território. Resistiram aos portugueses, ao poder dos grandes proprietários e à atuação depreciativa do Estado. Um exemplo, neste sentido, foi a chamada Revolta do Índio Caboclo Marcelino, entre as décadas de 1920-1940, contra o processo de espoliação. Na década de 1980, novamente a resistência Tupinambá ganhou maior visibilidade, com muitas pessoas valorizando seu sangue e sua alma indígena, retornando a suas terras e a seus parentes. Esta resistência indígena foi um dos elementos fundamentais no processo de Reconhecimento Étnico, em 2002, e da Demarcação Territorial, em 2009.

Entretanto, após relatório expedido pela FUNAI baseado nesses dados, aumentou a situação de difamação, perseguição e repressão sobre os índios. Reintegrações de posse tentaram desmanchar comunidades inteiras, diversos índios foram presos e até mesmo mortos por resistirem. O auto-reconhecimento étnico passou a ser ainda mais perigoso. Parece mesmo que a situação não muda quando envolve os direitos indígenas. 

O conjunto destas ações reflete um quadro de arbitrariedade, intolerância e racismo que sofrem os Tupinambás de Olivença. Ser um líder de um Povo é ser criminoso. Retomar nosso Território Tradicional, visto o Estado não cumprir com seu compromisso, virou esbulho possessório. Agir coletivamente, marco tradicional de todos os povos indígenas, virou formação de quadrilha. Lutar por nossos direitos negados pelo Estado Brasileiro virou exercício arbitrário das próprias razões. Somos um Povo Guerreiro. Temos nossa tradição e nossa forma diferenciada de ser e agir - e queremos ser respeitados como tais.

Para combater a violência imposta à comunidade, a Associação Beneficente de Cultura Sustentável e Promotora da Pesca e do Artesanato dos Índios Tupinambás de Olivença – APAITO; a direção, os discentes e docentes da Colégio Estadual Indígena Tupinambá de Olivença - CEITO; e alguns discentes e docentes da Universidade Estadual de Santa Cruz – UESC criaram o  Seminário Internacional Índio Caboclo Marcelino, que em 2015 chega a sua sétima edição. O evento, que ocorre nas Aldeias Tupinambás de Olivença, em Ilhéus/Bahia, promove troca de saberes entre diversos Povos indígenas e não-indígenas solidários à luta.

Este ano, além do evento tradicional que ocorrerá entre os dias 23 à 28 de setembro, faremos a Etapa Paulista do VII Seminário Internacional Índio Caboclo Marcelino. Devido ao grande contingente de apoiadores da luta tupinambá na cidade de São Paulo, faremos, na capital paulista, uma série de atividades de troca de saberes, confraternizações e manifestações, além da divulgação do evento em Olivença. Isso ocorrerá entre os dias 27 de agosto e 7 de setembro de 2015.

Traremos 15 lideranças do Povo Tupinambá de Olivença à São Paulo. Já contamos com a ajuda de pessoas que voluntariamente estão colaborando na preparação e divulgação deste trabalho, mas ainda buscamos formas de financiar o transporte, alimentação e estadia dos 15 Tupinambás. 

É por isso, que agora precisamos de você. Apoie a realização e participe do nosso seminário!

MAIS INFORMAÇÕES E LINK PARA CONTRIBUIR COM O PROJETO: 

sexta-feira, 12 de junho de 2015

LANÇAMENTO ONLINE DO EXPERIMENTO #5 DO LABORATÓRIO CINEFUSÃO

EXPERIMENTO #5 - UM PLANO PODE BASTAR



Neguemos o tempo do cinema-lebre. O cinema-lebre na verdade filmou a famosa  fábula onde a tartaruga vence a corrida, na busca da integridade moral e perseverança para com o labor. O cinema-lebre é norte-americano, quer o tempo aprisionado na circulação mercadológica. O espectador não pode sentir nada a não ser uma leve emoção dramadrástica, materializada nos animaizinhos pacíficos que sofrem com o desmatamento. O cinema-lebre escolhe seus planos para aproximar ao máximo o espectador de uma ‘’vida real’’, que se tratando de cinema é uma bobagem. Sejamos sinceros, a burguesia é anti-artística há muito tempo. 

Como então provocar o contrário? Partir de uma negação radical (ainda que a negação radical só possa vir com a tomada dos meios de produção) ao elaborar um exercício estético, no qual inclusive o tempo possa ser indeterminado, não esquecendo os seus donos-permanentes: o burguês-níquel. Pelo contrário, por conhecê-lo, nega-lo. Um plano por tempo indeterminado.

Narrar uma reflexão que se depare de forma crítica com o cinema-lebre. Ou seja, provocar em um plano uma meditação da própria necessidade de se fazer um só plano. Isso já é por si só a obstrução criativa. O exercício traz consigo uma temática-formal que nem de longe é formalista, atua como força política numa metalinguagem necessária para tempos onde o cinema-lebre se reproduz sem muitos contraceptivos, principalmente na sem sucesso fornicação industriosa-nacional.

Poderão ser usados atores, bem como não atores, vozes do próprio realizador, apenas imagem e silêncio. Enfim, dessa vez a liberdade é total dentro de um só plano, sem cortes e elipses de tempo, movimento é permitido. 

Seremos as tartarugas fogosas, com a crítica prévia ao esforço do trabalho como redenção dos pecados.

Regras estabelecidas:
- tudo é permitido dentro de um único plano
- vídeo sem cortes
- não há limite de duração









quarta-feira, 10 de junho de 2015

A atual função da Universidade: produzir desemprego em massa

Publicamos, abaixo, uma importante contribuição do camarada, escritor e professor de filosofia Bruno Henrique de Souza Soares. O artigo tem a imprescindível objetividade dialética para colocar a questão concreta do problema da educação. Sem cair em abstrações econômicas, faz uma síntese necessária sobre a situação dos estudantes-trabalhadores e desvela o uso político ideologizante dos projetos reformistas. 

A atual função da Universidade: produzir desemprego em massa 



Por bruno henrique de souza soares 

Se hoje o slogan “Pátria Educadora” é marcado por cortes econômicos na área da Educação – desde o MEC até estados e municípios, cortes esses respondido por greves em todo o Brasil, pelos trabalhadores tanto da educação básica como do ensino superior, lutando por melhores salários e condições de trabalho e portanto, contra os cortes que recaem nas costas dos trabalhadores da Educação – que poderíamos dizer do antigo slogan governista: “educação para todos”, “democratização do ensino” e outras expressões do mesmo gênero, tão agradáveis aos ouvidos, mas de eficácia social questionada. . 

Ora, o governo do PT, que capitalizou os anseios dos movimentos sociais e populares por uma inclusão social na educação básica e no ensino superior, foi capaz de transformar essa reivindicação legítima num projeto de conciliação de classes, produzindo a ilusão na imensa maioria da população pobre de que finalmente fariam parte dessa camada alfabetizada, intelectualmente desenvolvida e com possibilidades de crescimento pessoal, profissional (e salarial), mas que na prática, tão só aplica as diretrizes do capital internacional por um ensino quase que puramente técnico na maioria dos casos, e cada vez mais rebaixado do ponto de vista da formação do estudante, e dessa forma, busca enriquecer os bancos e os capitalistas da educação. 

Isso se dá através de programas como FIES e PROUNI – no caso do ensino superior privado –, ou com o surgimento de Universidades sem estrutura, nem planejamento, muito menos condições de permanência – no caso do REUNI – ou, se tratando do ensino público na educação básica, cria um sistema de ensino que na prática busca apenas administrar o controle físico e ideológico do jovem, acostumando-o a receber ordens e acatá-las, adaptá-los à vida social através de salas superlotadas, e porque não apontar a semelhança estrutural do ponto de vista físico, operacional e nos hábitos instituídos, das escolas públicas com o regime de quartel da fábrica e a violência repressora do sistema prisional em nosso país. 

E para essa imensa juventude que frequenta a escola pública básica, nas atuais condições, qual é a perspectiva desta de adentrar o Ensino superior, sendo capaz de passar pelo funil do vestibular – mesmo que este se chame ENEM – e assim, possa se tornar essa minoria que adentra o ensino superior?  

Para alguns, essa questão começou a ser resolvida com os programas que citamos a pouco (FIES, PROUNI, REUNI), dando o nome de “políticas públicas”. Contudo, se olharmos mais de perto, pode-se perceber, sem grande dificuldade, que tais programas simplesmente transferem o dinheiro em posse do governo – que não é senão o nosso próprio dinheiro – para esses magnatas do capital que tratam a educação como uma mercadoria, como outra qualquer [1], e, portanto, não visa estruturar, do ponto de vista de “políticas públicas” um cenário que pudesse ampliar, efetivamente, o acesso e as condições de permanência em instituições educacionais. Além disso, também podemos reconhecer que tais medidas só foram possíveis, pois o Brasil passou por uma conjuntura economicamente favorável, momento este que se esgotou. 

Um fato digno de nota sobre a finalidade última de programas como PROUNI e FIES, é o apontamento da Controladoria Geral de União (CGU), noticiado na Folha de São Paulo (notícia: Auditoria encontra alunos já mortos e de alta renda no sistema do Prouni, 25/05/2015 [2]), sobre a existência de “alunos-fantasmas”, angariando somas volumosas de dinheiro público até mesmo para estudantes que não existem. Os dados analisados pela CGU correspondem entre os anos de 2005 a 2012, e constatou a existência de 47 estudantes mortos como beneficiários do programa PROUNI, assim como 4.400 bolsistas com rendimento superior ao que permitido. Isso sem falar na quantidade de estudantes que, através do FIES, quando conseguem se formar, ficam endividados, ou nem conseguem se formar, e permanecem com dívidas insustentáveis [3]. E segundo notícia veiculada em
2010 pelo jornal Folha, informa que dos 250 mil contratos em fase de pagamento na época, 50 mil estavam em dívida, como podemos ler (notícia: Caixa cobra 37 mil fiadores de universitários [4]). 

E visto que, em primeiro lugar, fica implícito que a Universidade, como instituição que teria por função ser o espaço de pesquisas, estudos, da liberdade do pensamento, ao menos no Brasil ela deixou esse papel a âmbitos tão reduzidos que beiram a inexistência, e em substituição, assumiu o papel de que a Universidade serve hoje tão somente para a formação para o mercado de trabalho, isto é, preparação formal e técnica para a força de trabalho medianamente especializada em diversas áreas de atuação.

Sendo assim, cabe questionar se ao menos esse papel a Universidade, no Brasil, tem levado a cabo. E pelo cenário geral, pode-se constatar que ela tem feito um trabalho ruim, visto que muitos concluem o curso com dificuldades elementares: seja na sua capacidade cognitiva, no uso da língua nativa, o português – quando não há casos de sujeitos que se formam na condição de analfabetismo funcional –
e até mesmo nas capacidades técnicas na sua área de atuação. 

E em segundo lugar, exatamente devido a essa alteração descrita, cabe questionar que, se o mote de tais pretensas “políticas públicas” de democratizar um ensino que se tornou pura e simplesmente formação para o mercado de trabalho, isto então significaria maior capacidade, para o país, de incorporar tamanha força produtiva de milhares de jovens e adultos que, ao adentrarem a universidade, sonham em seus futuros empregos e carreiras? 

Vemos que é exatamente o oposto o cenário de quem concluiu seus cursos universitários. A perspectiva é o desemprego. Portanto, o que parecia, à primeira vista, como um programa social que favoreceria a imensa maioria da população pobre com o slogan “democratização do ensino” se mostra, em verdade, como socialização do desemprego, da miséria de milhares de profissionais diplomados sem nenhuma perspectiva no futuro imediato – claro que, sem antes enriquecer os monopólios do ensino superior privado e das empreiteiras que superfaturam centenas de obras nas universidades públicas.

Das universidades particulares às públicas, dos cursos mais humanitários aos mais voltados ao mercado, do norte ao sul do Brasil, a Universidade cumpre essa miserável função, de formação em série, periodicamente, sem cessar, de um volumoso exército de desempregados diplomados. 

Se esse cenário, que foi construído nas duas últimas décadas, se deu numa conjuntura economicamente favorável, as perspectivas são muito piores, quando a crise econômica mundial se manifesta no Brasil, depois de sacudir países à beira da falência como Grécia, Egito, Espanha, Portugal e outros. Portanto, se o cenário era ruim, ou péssimo, ele, atualmente beira a catástrofe..

É desse ponto de vista que a juventude e a classe trabalhadora no Brasil podem – e ouso dizer, necessitam – tirar lições das tarefas que se colocam atualmente, e permite, inclusive, uma unidade articulada de estudantes – que serão futuros trabalhadores na imensa maioria, quando já não o são – e a classe trabalhadora contra o horizonte do desemprego em massa, da miséria econômica e social, fruto do sistema capitalista de produção. 


[1] Cabe notar que, para eles, ao tratar a educação (e em última análise, o diploma, diga-se de passagem) como mercadoria, acontece o mesmo com qualquer outra mercadoria, o único objetivo é vender, realizar o valor de troca (dinheiro pela mercadoria), e não importa o uso, isto é, o valor de uso dessa mercadoria. Sendo que, seja qual for a matéria que se torne mercadoria, que ela possa ser trocada no mercado por dinheiro. Tanto faz se o objeto da venda são batatas ou diplomas.


[3] Conferir: G1. (Estudante de medicina fica sem FIES e acumula divida de quase R$ 20 mil) - http://g1.globo.com/educacao/noticia/2015/05/estudante-de-medicina-fica-sem-fies-e-acumula-divida-de-quase-r-20-mil.html 

quarta-feira, 3 de junho de 2015

II Feira Antropofágica de Opinião no Memorial da América Latina

É com enorme satisfação que o Coletivo Cinefusão estará, ao lado de 40 grupos convidados, na II Feira Antropofágica de opinião. Exibiremos um vídeo-experimento no domingo, dia 07, às 19h. Ressaltamos a importância de somarmos forças neste evento, que tem a papel histórico de colocar o debate estético e político na ordem do dia.




São 40 grupos de teatro em quatro dias de eventos. São músicos, poetas, artistas plásticos e coletivos de cinema. Todos em torno de uma pergunta: “O que Pensa Você do Brasil de Hoje?” Este é o mote da II Feira Antropofágica de Opinião produzida pela Companhia Antropofágica, no evento que acontece de 04 a 07 de junho, das 14h às 22h, no Memorial da América Latina, na Barra Funda, São Paulo.

Com direção geral de Thiago Reis Vasconcelos, a II Feira Antropofágica de Opinião pretende discutir – por meio de diversos segmentos artísticos – o cenário sociopolítico do Brasil atual. Serão intervenções artísticas com teatro, música, cinema, poesia e artes plásticas. Três palcos serão reservados às apresentações teatrais com encenações de 15 a 30 minutos.

As apresentações musicais serão em um palco específico. Já a projeção de audiovisuais acontece ao ar livre, podendo ser vista de diversas partes do evento. Pensar é compreender. Logo, a Antropofágica provoca os artistas a darem suas compreensões e respostas a este questionamento. Por sua vez, instigar o público a refletir sobre este Brasil contemporâneo. Assim, trazer uma reflexão como uma função social da arte.

Como inspiração, está a Primeira Feira Paulista de Opinião, que aconteceu em 1968. Organizada pelo Teatro de Arena, com direção geral do ensaísta e dramaturgo AUGUSTO BOAL (1931-2009), aquele evento aconteceu quando entrou em vigor o Ato Institucional nº 5 (AI-5), que marca o período mais duro da ditadura militar (1964-1985).

Para driblar a censura, acontecia em teatros, cujos diretores com peças em cartaz, cediam uma parte do seu tempo para a feira. Nomes das artes cênicas como GIANFRANCESCO GUARNIERI (1934-2006), LAURO CÉSAR MUNIZ, BRÁULIO PEDROSO (1931-1990), PLÍNIO MARCOS (1935- 1999), entre outros, e da música como GILBERTO GIL, CAETANO VELOSO, SÉRGIO RICARDO, EDU LOBO, e artistas plásticos, como NELSON LEIRNE, participaram da empreitada.


Remasterizada– Como comenta a psicanalista e atriz CECÍLIA BOAL, viúva do dramaturgo, “uma feira itinerante e cigana, que se tornou uma romaria”. Cecília participará da mesa de abertura da feira 2015. Em fevereiro de 2014, a Companhia Antropofágica retoma a ideia dos seus idealizadores com a mesma pergunta norteadora de Boal: “O que Pensa Você do Brasil de Hoje?”.

Assim, acontecia a II Feira Paulista de Opinião, que dava lugar à I Feira Antropofágica de Opinião, que aconteceu no Espaço Cultural Tendal da Lapa. Desta vez, com a impressão digital da Companhia Antropofágica, fundada em 2002, com o conceito de brasilidade do Manifesto Antropófago e da Semana de Arte Moderna de 1922. Entre outras atividades, a reedição da feira contou com palestras e a presença de participantes da feira de 1968. Contou também com a reapresentação do livro Teatro do Oprimido [Augusto Boal, Cosac Naify].


Teatro de Esquerda – Idealizador do Teatro do Oprimido e integrante do Teatro de Arena, Boal via as artes cênicas como espaço para a atuação política, libertária e transformadora. Suas técnicas dramáticas mostram que teatro é ação. Logo, o espectador também pode ser sujeito atuante do processo cênico. Suas ideias dialogam com o pensamento e a obra de PAULO FREIRE (1921-1997) na sua Pedagogia do Oprimido.

Segundo o diretor Thiago Reis Vasconcelos, nos últimos 20 anos, o chamado teatro de grupo aponta modificações expressivas para a linguagem teatral. “Este fenômeno recente tem fortes ligações com grupos de outras épocas, além de manter um diálogo vivo e constante com as outras linguagens artísticas”, compara.

Quinta-feira - 04 de Junho de 2015
14h00 - Karroça Antropofágica
14h30 - Abertura com Cecília Boal
15h00 - Grupo OPNI / Clara Ianni
15h30 - Companhia Estudo de Cena
16h00 - Fraternal Companhia de Arte e Malas-Artes
16h30 - Núcleo Bartolomeu de Depoimentos
17h30 - Teatro dos Ventos
18h00 - Companhia Antropofágica
18h30 - Núcleo Sem Drama
19h00 - Wanderley Martins
19h30 - Companhia Estudo de Cena
20h00 - Kiwi Companhia de Teatro
20h30 - Pessoal do Faroeste
21h00 - Folias D`Arte 21h30 - Grupo Rima Fatal da Leste

Sexta-feira - 05 de Junho de 2015
14h00 - Grupo Pandora de Teatro
14h30 - Cia do Tijolo
15h00 - Núcleo Pavanelli
15h30 - Cia Teatral Boccaccione
16h00 - Grupo Rosa dos Ventos
16h30 - Cia Humbalada
17h00 - Mamulengo da Folia
17h30 - Companhia Ocamorana
18h00 - Mariana Moreira
18h30 - Coletivo de Galochas
19h00 - Coletivo Zagaia
19h30 - Cia dos Inventivos
20h00 - Companhia Antropofágica
20h30 - Teatro de Narradores
21h30 - Grupo Odisséia das Flores

Sábado - 06 de Junho de 2015
14h00 - Teatro VentoForte
14h30 - Grupo Teatral Parlendas
15h00 - Coletivo Território B
15h30 - Grupo Redimunho de Investigação Teatral
16h00 - Arlequins Grupo de Teatro
16h30 - Coletivo Cê
17h00 - Núcleo 184
17h30 - Grupo Sem Fronteiras de Teatro do Oprimido
18h30 - Cia São Jorge de Variedades
19h00 - Coletivo Tela Suja Filmes
19h30 - Brava Companhia
20h00 - Grupo Clariô de Teatro
20h30 - Cia Estável
21h00 - Companhia do Feijão
21h30 - Sérgio Ricardo

Domingo - 07 de Junho de 2015
14h00 - Companhia Antropofágica
14h30 - Teatro da Neura 
15h30 - Bando Trapos
16h00 - Grupo Buraco d`Oráculo
16h30 - Satyros
17h00 - Dolores Boca Aberta Mecatrônica de Artes
17h30 - Cia Artehúmus de Teatro
18h00 - Alípio Freire e Ateliê XXII de Artes Plásticas
18h30 - Pombas Urbanas
19h00 - Coletivo Cinefusão
19h30 - Cia Teatro Documentário
20h30 - Juh Vieira
21h00 - Companhia Antropofágica
21h30 - Karroça Antropofágica


segunda-feira, 25 de maio de 2015

Um Filme Canalha



Se há algo que salta aos olhos em “A Chef in Love” - tradução difundida do filme “Shekvarebuli Kulinaris Ataserti Retsepti”, realizado na Geórgia, em 1996, por Nana Dzhordzhadze – é a superficialidade com que lida com as questões históricas e relações humanas. Para além do fato de ser uma comédia romântica daquelas bem insossas e repleta de amenidades pueris, é canalha na maneira como torna rasteiro todo e qualquer debate. A sua trivialidade transborda dos próprios conteúdos e atinge a forma, o que se evidencia através da importação de recursos enlatados do cinema norte-americano, sem ao menos reutilizá-los criativamente.

“A Chef in Love” situa-se na Geórgia, em dois tempos históricos distintos, o presente, quando o filme foi realizado, e os anos de 1920, nos quais a Geórgia passa ao domínio da União Soviética, após ser tomada pelo exército vermelho. É no presente, que o artista plástico Anton, às vésperas de estrear uma nova exposição, é convocado para uma visita a Marcelle, uma fotógrafa gastronômica, que irá lhe mostrar escritos guardados do renomado chef de cozinha francês Pascal Ichak, que é tio de Marcelle e autor de um famoso livro de culinária georgiana. Eis aí a desculpa para se recorrer ao banalizado recurso do flashback, que será alternado com as conversas narrativas entre os dois, para no final descobrirmos "surpresos" que o chef francês é pai de Anton.


Durante os flashbacks, passamos, então, a acompanhar episódios da trajetória de Ichak, após conhecer e se apaixonar por Cecília, uma das princesas da Geórgia. É ao seu lado que ele perambula pelo país do Cáucaso, em busca de novos sabores e levando uma vida de verdadeiro “bon vivant”. Quase como um romântico ou renascentista da gastronomia, ele percorre campos de uvas; experimenta iguarias da região, como o kupati; bebe em um só gole 8 litros de vinho, dentro de um chifre de boi; até abrir o restaurante Eldorado, onde irá cozinhar os pratos típicos do país: pato com amêndoas amargas, língua defumada, faisão com pistaches e outros requintes reservados para os mais abastados e, portanto, com evidente distinção social do paladar.


Ironicamente, a metade final do filme é praticamente uma defesa da permanência dessa alta gastronomia, sempre para privilegiados de classe, enquanto espaço gourmet, como gostam de dizer. A maneira como retrata a tomada da Geórgia pelo exército vermelho, sem qualquer relativização a respeito da degeneração dos ideais comunistas, principalmente durante o período de Stalin, simplifica de tal maneira as questões ideológicas, que restam algumas pinceladas morais sobre uma caricatura grosseira do que seria o comunismo: um grupo de homens autoritários, que cantam a internacional em um banquete, ao lado de mulheres masculinizadas (exclusivamente porque são comunistas), e que são todos contra a “arte gastronômica”. “O comunismo desaparecerá um dia, a boa cozinha não”, diz Ichak, em determinando momento, com ar de artista esclarecido, mas esquecendo-se que o comunismo nunca chegou efetivamente a existir para desaparecer, e que a ideia de comunismo continua viva sim para matar o que se chama hoje de alta gastronomia, pois, no comunismo por vir, os banquetes serão abundantes e para todos. E aí sim a gastronomia será arte verdadeira.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Como fazer um filme



Parece-me sempre complicado buscar associações temáticas entre filmes, ainda mais quando se limita ao ponto de categorizar o cinema em nichos, pois as aproximações acabam sendo sempre arbitrárias e até subjetivas. É afundado nesta contradição que retomo esta coluna que pretende se debruçar sobre filmes que tratam de alguma forma da gastronomia. E é justamente neste “de alguma forma” que me dou a liberdade de trazer à tona livres associações para justificar falar sobre cinema. Recentemente, assisti “Como Cheirar uma Rosa: Uma Visita com Rick Leacock à Normandia” (2015), filme atravessado o tempo todo pela culinária, mas que nos fala de outras coisas, talvez mais pertinentes ou não. É justamente na sua despretensão que está a força desta singela celebração do afeto humano e homenagem cinematográfica ao documentarista britânico Richard Leacock.


Dirigido pelo casal norte-americano Les Blank e Gina Leibrecht, o filme em si é a visita que ambos fazem, em 2000, ao amigo Leacock, um dos responsáveis pelo aprimoramento do chamado “cinema-direto”, através da sincronização de som e imagem durante a captação, que permitia menor interferência do cineasta sobre a realidade filmada. É em sua casa, na Normandia, no norte da França, que Leacock se abre para uma conversa informal filmada por Les Blank e que resulta em um perfil biográfico muito singular do diretor britânico. A simplicidade do filme dialoga formalmente com a simplicidade de Richard Leacock, que recebe seu amigo com ternura, enquanto cozinha. Em meio à deslumbrante paisagem da propriedade do cineasta, que “Como Cheirar uma Rosa: Uma Visita com Rick Leacock à Normandia” é, antes de tudo, uma aula sobre o próprio cinema. Aos 79 anos, quando foi filmado, Leacock se debruçou sobre lembranças de sua carreira, as quais são ilustradas por Les Blank através de imagens dos filmes que ele cita.

  

Por mais que aparentemente estejamos frente a um senhor com a vida ganha, que se acomodou ao seu modo de vida pequeno burguês, a essência de Leacock vai se descortinando e passamos a uma compreensão mais profunda, inclusive da generosidade política deste personagem que, antes de tudo, doou sua vida ao desenvolvimento de uma linguagem. São nas sutilezas das conversas que percebemos o homem por trás do artista e o artista que apequena o homem. Entre o preparo de um cordeiro, o descascar de batatas e a afetuosa relação que tem com sua companheira e parceira no cinema, Valerie Lalonde, o cineasta escancara o seu amor pela imagem e pela simples ideia de transmitir ao espectador as sensações daquilo que capta com sinceridade. É comovente, por exemplo, o carinho que ele demonstra por uma imagem, a princípio banal, de um casal de japoneses que tentam utilizar um telefone de rua sem sucesso. Leacock extrai da mais ingênua imagem significados que atravessam a sociedade e as inquietações do homem. Tudo, portanto, está na sutileza da captação.

Leacock morreu em 2011 e o diretor do filme, Les Blank, em 2013, ainda sem ter finalizado o filme, que foi editado e lançado pela viúva de Les Blank, Gina Leibrecht, que assina a direção ao seu lado. Sem ser pedante, as imagens revelam aos poucos o complexo ser humano por trás da simplicidade que imprime em seus filmes e também na gastronomia que tem como hobby. A associação entre a sutileza com que prepara um dos pratos mais populares da França, o pot-au-feu, um guisado de carne com ervas aromáticas (talvez equivalente ao nosso “picadinho”), e o próprio modo com que encara a realização cinematográfica é inevitável. Se o paladar é estimulado com os sabores que te levam para outros lugares, os filmes também devem levar o espectador a “sensação de estar ali”, como insiste Leacock, para voltar a si transformado, absorto em novas compreensões do mundo que não as habituais.  


É a verdade da imagem, não em um sentido moral, mas dentro da perspectiva de uma ética cinematográfica que Leacock parece querer transmitir. Em um dos momentos em que se revela a coerência do homem por trás das câmeras, ele relembra de um de seus filmes, no qual captou o momento em que políticos discutem economia e questões políticas, em um quarto de hotel, quando um camareiro chega com o almoço que foi pedido. Ao invés de desligar a câmera, ele segue filmando a patética discussão que, agora, mistura, as mesmas questões políticas com a preocupação de encontrar os bifes mal ou bem passados e seus respectivos donos. Mais uma vez, a simplicidade do olhar, quase ingênuo, explode em significações, trazendo uma triste e sarcástica nota sobre os caminhos que o capitalismo nos impõe. Longe de ser um conformado, Richard Leacock celebra a vida, mas não sem determinar o que olhar e como olhar, para dali tirar toda a força de seus filmes. É assim que “Como Cheirar uma Rosa”, para além das rosas, talvez nos ensine, afinal, algo sobre como fazer um filme.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Debate: DIREÇÃO ANTICOLONIALISTA / Estética de Resistência, Luta e Poesia - da perspectiva da Direção Cinematográfica


O COLETIVO TELA SUJA FILMES e a FILMES DE ABRIL iniciam os trabalhos do projeto AS VEIAS ABERTAS DO CINEMA LATINO AMERICANO. Propomos um processo coletivo de estudo e pesquisa cinematográfica que visa contribuir com a historicização crítica do cinema político produzido na América Latina, a partir de meados dos anos 60 até os dias de hoje.

Iniciamos com um debate com ADIRLEY QUEIRÓS e ANDREA TONACCI, dois grandes cineastas que respeitamos a admiramos pela conduta cinematográfica e pelo histórico de coerência e luta que imprimem com suas obras. Estamos ansiosos em partilhar a presente reflexão e esperamos a todos!

Debate:
DIREÇÃO ANTICOLONIALISTA
Estética de Resistência, Luta e Poesia
- da perspectiva da Direção Cinematográfica
- com ADIRLEY QUEIRÓS e ANDREA TONACCI

Quando:
03 de Maio de 2015, domingo, às 19h00

Onde:
Cineclube Latino Americano Juan Carlos Arch
Sala de Cinema no Pavilhão da Criatividade Darcy Ribeiro
Fundação Memorial da América Latina
Av. Auro Soares de Moura Andrade, 664
Barra Funda - São Paulo - SP






Nuestro cine tiene una profunda raíz de protesta y fue constante en la resistencia. Pero también es un cine de sueños. Detrás de toda esa protesta hay un sueño de justicia, igualdad y belleza. Un sueño rebelde que no acepta el conformismo o esa realidad que no es lo que tendría que ser... (Fernando Birri)

sexta-feira, 3 de abril de 2015

quinta-feira, 5 de março de 2015

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

CONTRA O CINEMA INDUSTRIOSO OU A RESPEITO DA SPCINE

carta assinada pelo coletivo cinefusão e publicada originalmente no blog dos parceiros da Zagaia

Publicamos um manifesto crítico escrito por realizadores de cinema. Esta carta foi lida por diretores paulistanos na Mostra de Cinema de Tiradentes no dia 27/1, data em que a prefeitura de São Paulo criava a SPCine, empresa encarregada da produção audiovisual na cidade de São Paulo. Nos anos 50 outro projeto industrial surgiu em São Paulo e foi um fracasso: a Vera Cruz produziu cerca de quarenta filmes, a maioria hoje merecidamente esquecidos, e se tornou um exemplo negativo de arremedo do cinema industrial produzido nas grandes metrópoles para as gerações seguintes. A carta busca valorizar o verdadeiro cinema paulistano, o cinema de invenção que marcou nossa cinematografia e deixou muitos herdeiros, representado por mestres como Carlos Reichenbach, Ozualdo Candeias, Jairo Ferreira, Rogério Sganzerla e Andrea Tonacci.   



CONTRA O CINEMA INDUSTRIOSO 

Hoje, quando vários filmes paulistanos fazem sua primeira exibição na Mostra de Cinema de Tiradentes está sendo aberta a SPCine em São Paulo. É importante frisar que a imensa maioria dos filmes paulistanos aqui exibidos não tem nenhum apoio desta prefeitura. O que diz muito sobre a forma como a cultura é tratada em nossa cidade. 

O perfil ideológico da SPCine, o grande empreendimento da secretaria da cultura de São Paulo, fica cada vez mais claro: incentivar o lixo cultural em detrimento do cinema de invenção e de risco. Fortalecer as grandes produtoras, que não estão preocupadas com a cultura, mas sim com os seus negócios. Incentivar o lixo cultural imposto cotidianamente pelos grandes meios de comunicação: as globo-chanchadas, o cinema publicitário, o gangsterismo cultural travestido em audiovisual.

Aproveitamos esta oportunidade para frisar que nós, realizadores e criadores do cinema paulistano aqui representados em vários filmes, nos negamos a produzir o lixo cultural que o projeto industrioso da prefeitura de São Paulo tenta nos impor. Joguemos pedras aos porcos. Declaramos guerra à cultura-consumo defendida pela SP-Cine. Guerra à mercadoria audiovisual. 

Não comercializamos o sentimento. Não concordamos, não aceitamos, não acreditamos: não vendemos. Lutaremos com todas nossas forças por um cinema artesanal, de invenção e de risco. Por filmes integros. Por um mundo de olhos livres.   

Assinam: Coletivo Zagaia, Coletivo Cinefusão, Comitiva Paracatuzum 

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

A ENTRADA DAS OPERÁRIAS NAS FÁBRICAS

texto publicado originalmente no blog Ideário Dialético


Reflexões em torno da formação do pensamento político feminino.


O assunto mais detestável, a qualquer mulher onde reina o mínimo de lucidez, é o feminismo. Dentre toda circulação de ideias—vejam, digo circulação com vistas direta ao fator econômico fundante de nossa socialização—as que são atribuídas diretamente a mulher são sempre questões de cunho sensível (arte, artesanatos, família, educação...) ou, em ambientes um pouco mais “avançados” , a concepção de ideias em torno da libertação da mulher também são entregues a ela. Sim, nos legaram o direito de lutar por nossa liberdade, sobretudo material. Agora, restam as questões: em que campo? Com quais armas?

Não raras são às vezes onde se nota um esforço fervoroso da mulher para trazer a si direitos que se equiparem ao do sexo masculino, esquecendo-se, fundamentalmente, que bradar por direitos iguais pressupõe saber ao direito de qual homem a mulher pretende se igualar; a de um trabalhador ou a de um burguês? No caso de um burguês, um empresarial ou um intelectual? E no caso de um intelectual, quer os direitos concedidos ao intelectual de esquerda ou de direita? Ao que tudo indica, senhoras, estamos ainda em uma sociedade cindida em classes e reivindicar um direito prevê saber que a divisão social do trabalho e o Valor, encontram-se diretamente ligados a qualquer crítica que se pretenda. E neste caso, ou a crítica se constitui como crítica materialista, ou não se solidifica em nada.

Recorrentemente, acompanhamos em movimentos feministas aquilo que se tornou a pauta central—principalmente no Brasil!— de qualquer luta política. Uma vez esquecida a luta de classes e seu fundamento diante da história, resta a reforma democrática do sistema numa tentativa quase inofensiva de melhorias aos oprimidos. A luta política de emancipação da mulher deixou de ser política para se tornar moral, assim como a luta do movimento negro, LGBT e dos próprios trabalhadores aparelhados ao movimento sindical. Porém, o salto “inesperado” disso é que as lutas pelos direitos humanos e democráticos são principalmente apoiadas pelo grande capital.


Tanto isto é verdade que a democracia, para qualquer indivíduo um pouco mais atento e com o mínimo de consciência de classes, nunca foi garantia de nada dentro do sistema capitalista. Uma vez a ordem ameaçada e os aparatos militares rigorosamente mantidos ao lado do Estado entram em ação destroçando qualquer tentativa de derrubada desarmada contra o sistema. Mas, ao contrário disso, cair no jogo democrático está diretamente ligado a se afinar as regras legais permitidas a sociedade. Evidentemente, não se quer afirmar com isso que a luta pelos direitos democráticos não deva ser feita, tampouco que este não deve ser um lugar ocupado por aqueles que lutam verdadeiramente pela causa dos trabalhadores. Contudo, é necessário notar com clareza qual é o limite da via legal democrática, e de que maneira alcançar estes direitos não está antes ligado a um avanço estrutural da sociedade e não ao que se modifica sempre com maior retardo, a superestrutura.

Um bom exemplo dessa mudança estrutural, que garantiu o nascimento dos direitos das mulheres, foi a entrada da mulher no ambiente fabril. A necessária chegada da mão de obra feminina no trabalho operário está antes ligada a uma demanda da produção e das trocas mercantis que ao direito da mulher de sair de sua condição de escrava doméstica. Ao contrário, a mulher alcança direitos civis e trabalhistas fora de casa, mas onde o trabalho não é condicionado pelo Valor, ela continua na situação de escrava. A dupla jornada da mulher do final do século XIX demonstra com nitidez que a garantia de direitos aos trabalhadores, vem sempre com a função de manter a todo vapor as máquinas do capitalismo e não de torna-lo mais justo. Com o avanço das forças produtivas e com o advento da Primeira Grande Guerra, as fábricas passam a ter mais lugares vagos a serem preenchidos pela mão-de-obra inferior ao homem: crianças e mulheres explodem como indivíduos necessários para a produção da mercadoria e da guerra. Como em toda reviravolta histórica, as forças propulsoras de mudança ali também foram contraditórias. Ainda que a mulher tivesse que se submeter a precarização total do trabalho e tendo também que se manter enquanto escrava em casa, a entrada no mundo do trabalho assalariado, local absolutamente masculino, faz com que a mulher entre também, definitivamente, como agente política necessária a luta de classes.

Antes de estar inserida na divisão social do trabalho, a mulher tinha que se identificar à luta política como companheira e não como agente histórica. O problema, porém, mantém-se. Na divisão social do trabalho, os cargos de formadores de opinião já são primordialmente lugares ocupados por homens, principalmente vindos da pequena-burguesia branca. Quando uma mulher alcança a emancipação intelectual possível no capitalismo, ela é rapidamente enquadrada em um caráter masculino. Esquecem a biologia, para manter a hierarquia. Então, o que vemos com os gritos que bradam por igualdade entre os sexos é, antes de tudo, o esquecimento da organização da sociedade através da forma mercadoria e do mundo do trabalho, que sempre fora masculino. Neste sentido, não surpreende que qualquer mulher que queira debater ideias esteja cercada de homens e, inclusive, torne-se um. Muito menos surpreende que uma mulher terceirizada em uma empresa de limpeza, trabalhe mais e seja maioria na categoria. Essa é a sua função dentro da igualdade democrática entre os sexos. A violência do trabalho é propulsora de todas as outras violências cometidas à mulher. Como tudo que tem determinação histórica e social, a diferença entre os sexos também é um advento material e não abstrato, como temos tratado por aí.

A violência contra a mulher pressupõe uma violência brutal contida na mercantilização da própria vida. O fato da perspectiva da humanidade estar voltada ao trabalho alienado aliena, também, qualquer possibilidade racional de consolidação das relações humanas. Portanto, como evocar um homem para que este seja menos machista se o sistema de dominação, alienado do próprio sujeito, é consolidado por um fundamento patriarcal violento que perdura há anos?

O que quero dizer é que, não se pode contar com a cisão desse vácuo existente entre os sexos nem mesmo pelos homens de esquerda, estes não são deuses pairando num Olimpo distante do mundo material dos homens. Contar com isso em abstrato equivale a contar com o pote de ouro no final do arco-íris. Ou, para deixar mais concreto, seria como contar que as reformas sociais proporcionadas pelo PT fossem levar o Brasil ao comunismo. Sinto nos informar, mas os privilegiados muito dificilmente abdicam de seus privilégios. Então, ainda é papel da mulher, de maneira urgente, pensar arduamente na destruição do patriarcado através da destruição da sociedade de classes. Mas, para isso, é necessário que nos fundamentemos cada vez mais e ocupemos o lugar de pensadoras da crítica materialista, caso contrário, toda posição que nos aparece enquanto crítica está fadada a degenerar em mera conversa fiada.


Nathalia Colli

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

CINECLUBE CINEMA EM REVISTA - CICLO CINE-DEMÊNCIA #7



Para finalizar o ano, mas não o ciclo que segue firme em 2015, o Cineclube Cinema em Revista dá continuidade a sua fáustica jornada e realiza mais uma sessão maldita em torno das profundidades do cinema paulista. Desta vez, receberemos para o debate conosco o crítico e cineasta Inácio Araújo, uma referência cara para nós e dos poucos críticos que persiste em reinventar o cinema, a despeito da distância que insistem em colocar o trabalho crítico da realização. 

Para afastar de vez os Mefistófeles do cinema paulista, exibiremos filmes que não podem ser apropriados, pois já nascem dentro de uma outra lógica, de invenção, experimentação e sem pactos incontornáveis para a explosão criativa. Em todos eles o crítico se aproxima da realização e participa do processo criativo:

- Filme Demência (1986): dirigido por Carlos Reichenbach e co-roteirizado por Inácio Araujo 
- Uma Aula de Sanfona (1982): episódio do longa "As Safadas" dirigido por Inácio Araujo 
- O Guru e os Guris (1973): curta de Jairo Ferreira montado por Inácio Araujo 

O ciclo cine-demência, uma evidente homenagem ao mestre Carlão Reichenbach, tem como proposta a discussão estética e política, dentro do âmbito de um cinema paulista que se organiza de forma independente e propõe a experimentação da linguagem e o filme-risco, posicionando-se claramente contrário ao cinema-mercadoria e àquilo que convencionou-se chamar de "filme médio", e que nós denominamos medíocre.

Trata-se de uma iniciativa de coletivos de cinema e teatro Coletivo Cinefusão, Coletivo Zagaia, PARACATUZUM e Núcleo de Estudos Cynematográficos que, posicionados dentro de um campo de disputa simbólica, vêm, a partir da experiência de um cineclube permanente, propor reflexões críticas em torno da experiência coletiva e da necessidade de um outro fazer cultural e cinematográfico. As sessões são gratuitas e irão ocorrer todo primeiro domingo do mês, às 18h01. 

Cineclube, experiência de recuperação do espectador morto. Espaço onde o óbito não é aceito sem diagnóstico. O especialista, neste caso, está mais do que convidado, mas aqui o diagnóstico é feito de forma coletiva, sobre a égide do universalismo, em contraponto com a educação tecnocrata das instituições de ensino. Ciclo Cine-Demência. O cineclube é permanente, Cineclube Cinema Em Revista. Um participa da ação do outro. E afirmamos: A arte tem que ter uma perspectiva revolucionária, caso contrário, os ursinhos carinhosos dominarão. Será sempre convidado alguém que valha realmente a pena, inclusive, os sujeitos da mídia-piada brasileira. Neste caso, não garantimos que não ocorra um ataque feroz por parte dos presentes, sempre no nível do debate, mas prometemos lançá-lo para o abismo de suas contradições.

Estão quase todos convidados: 

“E sobretudo, meu corpo, da mesma forma que a minha alma, evitem ficar de braços cruzados em atitude estéril de espectador, porque a vida não é um espetáculo, porque um mar de dores não é um proscênio, porque um homem que grita não é um urso dançando...”

(Aimé Cesaire)

domingo, 30 de novembro de 2014

TRECHO DE UM CONTO OU PESQUISA PARA O FILME "FERROADA"



"Enquanto ela, vestido suspenso, uma nesga de coxa descoberta, verificava com um dos pés a temperatura da água do chuveiro, no quarto o homem falava ao telefone e espiava pela janela a rua deserta. Era de madrugada e eles tinham chegado do bar. Ela se despiu e entrou no banho. Ele desligou o telefone, fechou as cortinas e pôs sobre a mesa o revólver que trazia à cintura. Apagou o abajur e dirigiu-se ao banheiro. Nessa hora, a penumbra da sala ganhou um matiz roxo-azulado e eu senti a pressão da mão de Keyla no meu colo, vi os seus dedos deslizarem para abrir o zíper da minha casa. Ocultei seus movimentos com a camisa que há pouco tirara, e de soslaio procurei ver se éramos observados. Foi então que ouvi os primeiros cochichos alusivos à tatuagem nas minhas costas. E parece que Keyla também, pois ela me abraçou e sorriu debochada. O casal na tela bebia conhaque sob as cobertas. O homem, levantou-se, nu, com o copo na mão, apanhou a arma e a trouxe para o criado-mudo. Keyla percebeu os rumores crescendo ao nosso redor e, do riso sarcástico, passou à cólera. O homem deitou-se e a mulher o beijou. Mais comentários. Enfurecida, Keyla nem chegou a ver a cena de sexo. Ergueu-se e mostrou o dedo médio em riste para toda a plateia.

    - Caretas! Bundões! - gritava ela. - Moralistas enrustidos do cacete! Vêm ver filminhos de arte porque um intelectualoidezinho de merda qualquer disse na Ilustrada que é bom. Mas não estão entendendo porra nenhuma. Vocês consomem os guias culturais e as resenhazinhas sobre arte com a mesma sofreguidão e frivolidade que os leitores de Caras. Vocês devoram os segundos cadernos com objetivo idêntico ao dos malhadores crônicos, ao das patéticas figuras que se submetem a todo tipo de dieta pra se livrar das gordurinhas a mais.Vocês, assim como esses compulsivos ergométricos, almejam um padrão que lhes foi imposto. Não fazem nada por prazer. Eles não se deleitam com o sol, nem vocês com a arte. Querem apenas, eles, um corpo tostadinho e rijo, e, vocês, um discursinho cabeça e pernóstico. Pra isso, eles suam feito imbecis nas esteiras e vocês babam nas exposições. Galeria, teatro, museu estão para vocês, assim como academia, clube e praia estão para eles. Mas tudo é falso. Hipócritas! Vão passar a vida como dublês de clones. Se exercitando para se enquadrar no modelo determinado. Tentando fazer ginástica intelectual e sentindo fome de telenovelas. Quem sabe até, induzidos por seus preconceitos, não assaltem de madrugada o quartinho da empregada, em busca de material que os sacie? "Algumas folhinhas de Contigo e umas linhazinhas de Sabrina não poderão me fazer mal; o importante é que ninguém saiba!" Vocês nunca passarão disso. Serão sempre burros! Néscios crônicos. Insensíveis. Com celulites medonhas na massa cinzenta. Porque vocês não se entregam e, então, não há regime à base de Bergman ou Proust que tire a banha desses cérebros adiposos. Ainda não inventaram silicone pros neurônios. Aprendam a gozar, burgueses do caralho; senão, vão morrer assim, sofrendo de mediocridade mórbida e idiotismo agudo. Eu desprezo vocês. Babacas! Sem estilo e sem tesão. Vulvas secas e broxas! Todos aí! Eu respeito mais quem fica em casa à noite vendo televisão e, de manhã, liga o rádio AM pra saber o que diz o horóscopo. Pelo menos, são mais honestos. E mais felizes..."

("Elas, Etc", Tico)

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

A QUEBRADA NÃO É CHAPA BRANCA! Nota de repúdio à alteração de imagem na peça de divulgação da III Mostra “Cinema da Quebrada”

publicada originalmente pelos parceiros do Coletivo Zagaia

Há uma imagem, do filme “O Muro da Vergonha”. Nela vemos um muro, erguido na Favela do Moinho, no qual há uma pichação: “Haddad sustenta o muro da vergonha do Kassab”. Gilberto Kassab, ex-prefeito de São Paulo, ergueu o muro e que não havia sido posto abaixo pela administração do atual prefeito, Fernando Haddad. O muro foi derrubado pela própria população, em protesto. 

Havia uma imagem: essa mesma, também retirada do filme, com a pichação inscrita. Essa imagem supostamente foi usada pelo Cinusp e pela organização da III Mostra Cinema da Quebrada para a divulgação do evento. “Supostamente” porque a imagem não foi de fato utilizada. O Cinusp e produção da mostra alteraram ela digitalmente, modificando seu conteúdo. Por meio de uma intervenção grosseira, apagou-se o nome do prefeito Haddad da pichação, restando da frase apenas o verbo e o predicado: “sustenta o muro”. Assim mesmo, sem sujeito. A mostra exibe o filme, mas não sustenta o compromisso com suas imagens no momento de divulgar o evento. Será que ocorreu ao Cinusp e aos organizadores da mostra que tal posição, além de contraditória, é um ato de violência contra todos os filmes exibidos, e não somente aquele que teve sua imagem alterada? Não percebe o Cinusp que tal ato atinge também as lutas e posicionamentos expressos nos sons e imagens desses filmes? 

Por isso, nós, realizadores com filmes na programação da III Mostra Cinema de Quebrada, viemos, através dessa carta, demonstrar nosso repúdio ao procedimento realizado pelo Cinusp e organização da mostra e exigir dos responsáveis: 

a) que se pronunciem publicamente, através de comunicado no site do Cinusp e na sua página no facebook, sobre o ato da manipulação; 

b) que retirem a imagem alterada da capa da pagina do Cinusp no facebook e a substitua pela imagem original; 

A existência da mostra é, em princípio, positiva. Abrir um espaço de reflexão na academia para a produção cinematográfica da periferia é indispensável, sobretudo na USP, uma universidade com poucos alunos “da quebrada”. Mas é preciso deixar bem claro que a relação com a periferia não pode se dar pela via da domesticação.

Quem quer exibir a quebrada, que seja para dar a ela voz e imagem, e não para silenciá-la. Quem quer dar espaço e tela para a periferia, tem de ser honesto com o recado e as lutas que vem dela. Não topamos exibir nossos filmes na Mostra para correr o risco deles serem apresentados num contexto que parece se envergonhar ou temer o que dizem suas imagens. Nos é difícil compreender que um evento destinado a pensar e exibir as imagens da quebrada se preste ao papel de apaziguar conflitos que seus realizadores, em contrário, desejam promover. Não nos parece sequer razoável que uma universidade pública promova o silêncio ao invés do questionamento e do conflito. 

A quebrada não é chapa branca e sua voz e seus conflitos não serão apaziguados num cordial panos quentes com o poder. Esperamos que essa seja uma oportunidade de o Cinusp se retratar ante o ocorrido e pautar sua conduta futura na promoção de um maior diálogo com a periferia e a arte política que se arrisca, sem temer nem maquiar o que dizem as imagens dos filmes. São Paulo, 27-11-2014, 

Assinam:

Adirley Queirós, cineasta
Affonso Uchoa, cineasta
Andre Novais, cineasta
Coletivo Tela Suja Filmes
Diogo Noventa, cineasta e diretor teatral
Ester Marçal Fer, cineasta
Evandro Santos – cineasta e educador
Felipe Terra, cineasta
Flávio Galvão – Coletivo Fabcine
Lincoln Péricles, cineasta
Rafael Fermino Beverari, cineasta e educador
Renan Rovida, cineasta
Rodrigo Sousa e Sousa, cineasta
Romulo Santos – cineasta e educador
Rede de Comunidades do Extremo Sul
Thiago B. Mendonça, cineasta – roteirista e produtor de Dias de Greve
Viviane Ferreira, cineasta

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

CINECLUBE CINEMA EM REVISTA - CICLO CINE-DEMÊNCIA #6


No dia de finados, não iremos ao cemitério, não levaremos flores, não rezaremos e não choraremos a morte. Realizaremos o nosso ritual pagão. É debaixo da tempestade que se anuncia que celebraremos o cinema nosso de cada dia, bebendo e debatendo o que foi e ainda é forte. É nesse clima que o Cineclube Cinema em Revista realiza a 6ª sessão do ciclo cine-demência e exibe 7 curtas-metragem, numa tentativa cabalística de reafirmar a força de um cinema paulista que sabe ser vivo.

“Exemplo Regenerador” (1919, José Medina)
“Mário Gruber” (1966, de Rubem Biáfora) 
“Uma Rua Chamada Triumpho” (1971, Ozualdo Candeias)
“Migrantes” (1973, João Batista de Andrade)
“Blablablá” (1975, Andrea Tonacci)
“Nem Verdade, Nem Mentira” (1979, Jairo Ferreira)
“Divina Previdência” (1983, Sergio Bianchi)

O ciclo cine-demência, uma evidente homenagem ao mestre Carlão Reichenbach, tem como proposta a discussão estética e política, dentro do âmbito de um cinema paulista que se organiza de forma independente e propõe a experimentação da linguagem e o filme-risco, posicionando-se claramente contrário ao cinema-mercadoria e àquilo que convencionou-se chamar de "filme médio", e que nós denominamos medíocre.

Trata-se de uma iniciativa de coletivos de cinema e teatro Coletivo Cinefusão, Zagaia em Revista, PARACATUZUM, Cia Antropofágica, Tela Suja Filmes e Núcleo de Estudos Cynematográficos) que, posicionados dentro de um campo de disputa simbólica, vêm, a partir da experiência de um cineclube permanente, propor reflexões críticas em torno da experiência coletiva e da necessidade de um outro fazer cultural e cinematográfico. As sessões são gratuitas e irão ocorrer todo primeiro domingo do mês, às 18h01. 

Cineclube, experiência de recuperação do espectador morto. Espaço onde o óbito não é aceito sem diagnóstico. O especialista, neste caso, está mais do que convidado, mas aqui o diagnóstico é feito de forma coletiva, sobre a égide do universalismo, em contraponto com a educação tecnocrata das instituições de ensino. Ciclo Cine-Demência. O cineclube é permanente, Cineclube Cinema Em Revista. Um participa da ação do outro. E afirmamos: A arte tem que ter uma perspectiva revolucionária, caso contrário, os ursinhos carinhosos dominarão. Será sempre convidado alguém que valha realmente a pena, inclusive, os sujeitos da mídia-piada brasileira. Neste caso, não garantimos que não ocorra um ataque feroz por parte dos presentes, sempre no nível do debate, mas prometemos lançá-lo para o abismo de suas contradições.

Estão quase todos convidados: 

“E sobretudo, meu corpo, da mesma forma que a minha alma, evitem ficar de braços cruzados em atitude estéril de espectador, porque a vida não é um espetáculo, porque um mar de dores não é um proscênio, porque um homem que grita não é um urso dançando...”

(Aimé Cesaire)

DOMINGO, 02 DE NOVEMBRO, 18h01
GRÁTIS
ECLA (ESPAÇO CULTURAL LATINO AMERICANO) - RUA ABOLIÇÃO, 244 - BIXIGA

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

PROJETO "HELENA" - DEBATE "NO PAÍS DAS CALÇAS BEGE"


Dia 18, próximo sábado, acontecerá a segunda roda de conversa do projeto "Helena", do Sáfaro, em ação conjunta com o Grupo de Estudos Pedro Alexandrino. 

Desta vez a roda contará com a presença de Alain Gerino (Grupo de Estudos P.A.) e Rodolfo Valente (Rede Dois de Outubro). 

Nela discutiremos a questão carcerária no Brasil, a vertiginosa ampliação das ações de encarceramento e seu lugar na luta de classes. Além disso, tentaremos estabelecer conexões entre o espaço prisional e outros espaços disciplinares, especialmente com o mundo escolar e do trabalho.

Gratuito

Antes do início da roda, haverá apresentação do Núcleo de Criação Performática, com duração de 15 minutos.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

O Saci e Procissão dos Mortos – Auto-referência fantástica no cinema paulista

*artigo de Laura Cánepa, extraído do site http://www3.usp.br/rumores/artigos.asp?cod_atual=169


O curta "Procissão dos Mortos" começa aos 42min

A história do cinema fantástico brasileiro ainda está por ser contada. Esse gênero, embora se apresente no cinema nacional de maneira diluída em diversas formas e diferentes períodos, tem também uma trajetória própria em um grupo de filmes que o assumem de maneira declarada e autoconsciente – e o estudo de tal trajetória ainda permanece disperso nas pesquisas sobre o nosso cinema. Mas, quando nos debruçamos, mesmo que superficialmente, sobre os filmes fantásticos brasileiros, notamos que a relação entre eles não é tão dispersa quanto fazem parecer os poucos trabalhos publicados a respeito: o que se observa, ao se colocarem os filmes lado a lado, é que existiram, ao longo do tempo, diálogos, tentativas de estabelecimento de filões de mercado, competição e, em alguns casos, até citações e outros procedimentos intertextuais facilmente identificáveis que dão a essa cinematografia um caráter próprio e inventivo dentro do universo do cinema brasileiro. Exemplos evidentes disso podem ser encontrados nas diversas pornochanchadas de horror, muito populares no final dos anos 1970; na maioria dos filmes infantis, inclusive em uma boa parte da filmografia do grupo Os Trapalhões, uma das mais bem-sucedidas comercialmente no país; nas paródias de filmes fantásticos estrangeiros, freqüentes nos anos 1970 e presentes na obra de diretores populares como Amácio Mazzaropi e Adriano Stuart; na filmografia de estrelas da televisão dos anos 1980/90, como Xuxa e Angélica; em séries cinematográficas como Se eu fosse você (2006) e Se eu fosse você 2 (2008), de Daniel Filho, entre muitos outros. Mas também existem exemplos mais discretos e que exigem observação mais detalhada. Um deles será objeto de análise neste artigo por revelar uma surpreendente continuidade: trata-se da homenagem feita por Luis Sérgio Person, no curta-metragem de horror Procissão dos Mortos (parte do longa-metragem em episódios Trilogia do Terror), produzido por Antonio Pólo Galante e Renato Grecchi, em São Paulo, em 1968, ao longa-metragem infantil O Saci, realizado também em São Paulo, por Rodolfo Nanni, em 1953. A partir da análise proposta neste trabalho, pretende-se demonstrar a evidente relação visual e narrativa entre os dois filmes, e também levantar hipóteses que nos permitam compreender o significado da retomada, feita por Person, de diversos elementos do filme infanto-juvenil de Nanni. 

O Saci e o fantástico para crianças 
O Saci foi um marco para o cinema brasileiro por várias razões: foi o primeiro longa-metragem infantil realizado no país, o primeiro inspirado na obra de Monteiro Lobato e também um dos primeiros a reunir um grupo de artistas e intelectuais que teria papel definitivo na constituição de um projeto de cinema nacional, como o cineasta Nelson Pereira dos Santos, que foi assistente de direção do filme, e o pesquisador Alex Viany, gerente de produção. A equipe, chefiada pelo artista plástico Rodolfo Nanni, que até então tinha experiência no cinema apenas como continuísta (do inacabado AGLAIA, de Ruy Santos), contava também com outros profissionais importantes, como o fotógrafo Ruy Santos, o compositor Cláudio Santoro e o montador José Cañizares, além do elenco composto pelas crianças (Paulo Matozinho, como Saci; Livio Nanni, como Pedrinho; Aristela Paula Souza, como Narizinho) e outros atores convidados, como Maria Rosa Ribeiro (Dona Benta), Otávio Araújo (Tio Barnabé) e Benedita Rodrigues (Tia Nastácia). Concebido como um projeto quase familiar e filmado nos estúdios alugados da Cinematográfica Maristela, em São Paulo, entre 1951 e 1953, o longa foi produzido num sistema independente, mas obteve, depois, significativo sucesso comercial. Inspirado no Saci-Pererê (1), figura folclórica conhecida no Brasil desde o século XVII, e cuja origem está na junção de uma figura da mitologia indígena com elementos das culturas africana e européia, o filme trazia a entidade brincalhona a partir da visão do escritor Monteiro Lobato, que a transformou em personagem recorrente da coleção Sítio do Pica-pau Amarelo, publicada entre 1921 e 1947 – e iniciada justamente com o livro O Saci. O longa de Rodolfo Nanni contava uma das aventuras das crianças Pedrinho e Narizinho no Sítio do Pica-Pau Amarelo, quando o menino aprende a caçar sacis e acaba ficando amigo de um deles, que o leva para assistir à “sacizada” (reunião em que dezenas de sacis que se encontram magicamente durante a noite) no meio da floresta. Então, Pedrinho e seu novo amigo descobrem que Narizinho fora petrificada pela maldosa bruxa Cuca, e precisam resgatá-la em uma caverna assombrada, para desespero da vovó Dona Benta e da fiel cozinheira Tia Nastácia. Como se pode depreender da trama, o filme era dedicado ao público infantil, mas também fazia parte de uma proposta mais abrangente de seus realizadores, no sentido de abordar a cultura e a identidade brasileiras no cinema, apresentando soluções estéticas diferentes daquelas que as grandes produtoras cariocas e paulistas (como a Atlântida, a Vera Cruz e a própria Maristela) haviam escolhido. Nesse sentido, o longa chama a atenção por apresentar-se como uma experiência lúdica, que abordou, de maneira quase teatral na direção de arte, e quase documental na direção de fotografia, personagens típicos da literatura e do folclore brasileiros, num recorte que pouco tinha a ver com um cinema “de gênero” internacional pretensamente emulado nos estúdios da época, e estava muito mais ligado à literatura e às representações populares do fantástico na cultura brasileira. A obra acabou fazendo uma boa carreira comercial, beneficiando-se da popularidade dos textos de Monteiro Lobato e das leis de proteção ao cinema brasileiro, que garantiram a circulação da fita, sobretudo nas cidades do interior do país. O Saci também ganhou alguns prêmios importantes, como o Prêmio Saci de 1954 (concedido pelo jornal O Estado de S. Paulo) e o Prêmio Governador do Estado de São Paulo, no mesmo ano. O filme também teve sua memória relativamente bem preservada, sendo exibido eventualmente na televisão (nas emissoras educativas), e ganhando recentemente uma pouco divulgada edição em DVD, que traz, nos extras, um detalhado documentário sobre a realização do filme. 

O fantástico para os jovens em Procissão dos mortos 
Diferentemente de Rodolfo Nanni, que fazia sua estréia como diretor em O Saci, Luis Sérgio Person realizou o curta-metragem Procissão dos mortos num momento de maior maturidade em sua carreira cinematográfica. Então com 33 anos, ele já era conhecido por ter dirigido dois filmes fundamentais para o cinema moderno brasileiro: São Paulo S/A (1965), retrato do desamparo do cidadão comum perante a industrialização iniciada nos anos 1950, e O caso dos irmãos Naves (1967), adaptação de um episódio verídico de injustiça e abuso de poder ocorrido durante o Estado Novo. A oportunidade para Person fazer seu curta de horror surgiu em 1967, pelas mãos do amigo José Mojica Marins e do então jovem produtor Antonio Pólo Galante. Naquele ano, Mojica e o escritor/roteirista Rubens Francisco Luchetti lideravam o programa de televisão Além, muito além do além, sucesso noturno da TV Bandeirantes, e haviam sido convidados por Galante e Renato Grecchi para fazer um filme baseado em episódios do programa. A idéia dos produtores era reunir três enfant terribles (2) do cinema nacional para realizarem um filme inspirado no programa de TV de Mojica/Luchetti: o próprio Mojica, Person e Ozualdo Candeias, que também acabara de estrear o seminal A Margem (1966). Candeias, que já fora assistente de direção de Mojica em seu primeiro longa de horror, À meia-noite levarei sua alma, realizado em 1963, dirigiu o curta O Acordo, remotamente baseado no episódio Noite Negra, de Luchetti. A trama original trazia um homem que fazia um pacto com o demônio pela cura da grave doença de sua filha, mas a versão de Candeias, embora se passasse no mesmo cenário de uma cidade interiorana cercada de lendas indígenas e de um catolicismo sincrético, trazia uma mulher que apelava a uma espécie de feiticeiro hippie para fazer com que sua filha se interessasse sexualmente por um fazendeiro que desejava evolver-se com ela. O resultado ficou distante daquilo que geralmente se entende por horror, tratando-se mais de uma reflexão do próprio Candeias em torno das superstições interioranas, da contracultura e das relações de poder e sexo entre homens e mulheres no mundo rural, mas ficou famosa a cena assustadora em que um personagem “encarna” uma entidade sobrenatural num ritual ocorrido em cima de um morro, numa demonstração do domínio do diretor sobre aspectos perturbadores das religiões afro-brasileiras. Já Mojica dirigiu Pesadelo Macabro, curta muito mais comprometido com as características canônicas do gênero horror, tratando do drama de Cláudio (Mario Lima), um homem perturbado com pesadelos premonitórios de ser enterrado vivo – argumento recorrente nas narrativas de horror clássicas como as de Edgar Allan Poe, cuja obra é influência confessa de Luchetti. Apesar da filiação ao horror clássico, porém, o curta carregava no sensacionalismo em torno de rituais de macumba e em cenas de violência sexual, num estilo exagerado e explícito que já era marca do diretor desde seus primeiros filmes, e que se acentuava no final dos anos 1960. Finalmente, Person, que fora co-roteirista não-creditado de Mojica em seu longa de estréia, o faroeste A Sina do Aventureiro (1957), ficou com Procissão dos mortos, inspirado em episódio homônimo do programa de TV. O episódio original, escrito por Luchetti, mostrava o pavor de um menino que via fantasmas, mas, no curta de Person, tratava-se de fantasmas muito especiais. O diretor se aproveitou da morte do revolucionário argentino Ernesto “Che” Guevara, ocorrida meses antes, na Bolívia, para contar uma estória de horror claramente alegórica, usando como fonte a realidade do país durante a ditadura militar. No filme, o garoto Quinzinho sai de casa para caçar passarinhos, contrariando as recomendações de sua mãe. No mato, encontra um guerrilheiro morto, cujo corpo em decomposição segura uma metralhadora e exibe um sorriso sardônico. A polícia é chamada, o corpo é recolhido e exposto à curiosidade pública, mas os moradores da cidade, insatisfeitos com as explicações das autoridades (que negam a possibilidade de o guerrilheiro ser Che Guevara e dizem não ter encontrado nenhuma metralhadora junto ao corpo), começam a desconfiar de que o menino esteja ajudando outros guerrilheiros ainda escondidos na floresta. Então, o operário Miguel (Lima Duarte), pai do menino, ofendido após uma discussão com seus companheiros de bar, decide ir à floresta à noite para comprovar que não há outros guerrilheiros por lá, levando como arma apenas o símbolo da paz pendurado no pescoço. Quando ele chega à pedreira no meio da floresta, porém, os guerrilheiros, na forma de dezenas de fantasmas de Che Guevara, cercam-no e matam-no a golpes de metralhadora no coração – exatamente de onde pendia o símbolo da paz. No dia seguinte, Quinzinho volta para o mato – desta vez, não mais em busca de passarinhos, mas dos próprios guerrilheiros. Ele encontra a metralhadora, entrega a um deles, que a devolve carregada e sugere que ele comece a experimentá-la. O menino, então, atira em direção à câmera. Fim. Evidentemente, Procissão dos Mortos contém uma corajosa alegoria política, ao sugerir que a revolução seria irresistível aos jovens. Também é notória, no filme, a preocupação do diretor em ligar seu trabalho às experiências do cinema moderno brasileiro da época, como se percebe num certo olhar neo-realista reconhecível no uso de locações reais e na opção por um tipo de fotografia (feita por Oswaldo de Oliveira), que não interferia na luz natural. Outro elemento interessante que surge no filme é o uso da música popular, em particular quando um dos personagens entoa a canção Pra onde vai, valente? , de Manezinho Araújo (3), composta em 1934, cujo refrão repete “pra onde vai, valente? eu vou pra linha de frente” – canção que é seguida pela entrada de um personagem bêbado cantando o Hino do Exército, no qual se destacam as palavras “a guerra só nos causa dor, a paz queremos com fervor”. Com isso, Procissão dos mortos pode ser visto, de certa forma, como um documento das tensões daquele período. Mas também é, inquestionavelmente, um filme de horror – possivelmente o mais interessante e curioso de Trilogia de Terror, justamente pela (rara) capacidade de reunir o universo de um gênero geralmente tido como retrógrado (por sua rejeição à alteração da ordem vigente) ao discurso político engajado pela revolução e pelas mudanças sociais. O filme ficou pronto em março de 1968. Depois de marcar o lançamento para 22 de abril, no Rio de Janeiro, e 13 de maio, em São Paulo, Galante começou a agendar sessões especiais para os críticos, que mostraram simpatia pelo curta de Person e enorme rejeição ao filme de Mojica (BARCINSKI, FINOTTI, 1998: 211). No dia 09 de abril de 1968, porém, a Censura proibiu o filme, o que levou Renato Grecchi à Brasília para negociar com os censores. Ele acabou conseguindo liberar o filme com apenas quatro cortes, que prejudicaram particularmente os filmes de Person e de Mojica. Ainda assim, Trilogia de Terror teve uma recepção razoável entre os críticos. Segundo Barcinski e Finotti (1998: 217), por exemplo, o Estadão teria publicado, na estréia do filme em São Paulo, um texto com o título: Tudo bem, antes de Mojica (4), o que indicava que a estratégia criada por Grecchi de chamar Candeias e Person fora fundamental para garantir a circulação da fita. Mais ou menos na mesma linha da manchete citada do Estadão, seguiram quase todos os críticos do Rio e de São Paulo, que elogiaram particularmente o filme de Person e se mostraram incomodados com as cenas de violência sexual do filme de Mojica. Um dos únicos entusiastas da obra inteira foi Salvyano Cavalcante de Paiva, que escreveu, no jornal carioca Correio da Manhã, um de seus muitos libelos ao cinema de entretenimento: 

A inteligência de Trilogia de Terror foge, talvez, à compreensão de apenas duas espécies de cinespectadores: os falsos puritanos, obnubilados por uma neblina de preconceitos intransponíveis, que rejeitam aprioristicamente o erotismo e a violência intrínseca de seres humanos projetados em personagens de criação artística legítima (...); os falsos estetas de um cinema supostamente engajado em inovações formais, a mais importante das quais seria o distanciamento e o enclausuramento do público (PAIVA, apud BARCISNKI; FINOTTI, 1998: 213).

A relativa simpatia dos críticos, porém, não se refletiu nas bilheterias, o que transformou o projeto num mau negócio para seus produtores. Com isso, quase toda a equipe (à exceção de Mojica) ficaria longe do cinema de horror nos anos seguintes. No entanto, aos olhos de hoje, e considerando-se a trajetória inconstante do horror no cinema brasileiro, "Trilogia de Terror" marca um momento em que o gênero foi experimentado por realizadores influentes no cinema nacional, que, em outras circunstâncias históricas, poderiam ter indicado caminhos consistentes para o gênero em nossa cinematografia. E, além de marcar esse momento importante do cinema de horror brasileiro, o filme também traz, no episódio de Person, uma curiosa homenagem a outro “clássico” do cinema fantástico brasileiro e paulista: "O Saci", de Rodolfo Nanni, conforme se examina a seguir. 


O Saci e Procissão dos Mortos: parentesco inegável 
Embora os filmes de Nanni e Person tivessem intenções estéticas, mercadológicas e políticas completamente diferentes e estivessem ligados a contextos históricos igualmente distintos, ambos assumiram claramente o gênero fantástico. No primeiro caso, através de uma estória infantil com final feliz; no segundo, através de uma perturbadora estória de horror. Nesse sentido, cabe salientar que o gênero fantástico, tanto em suas primeiras expressões literárias quanto em seus desdobramentos nas mais diversas mídias, sempre abarcou uma grande e variada gama de situações que tinham em comum a introdução de um elemento “sobrenatural” ao mundo natural conhecido, o que poderia gerar inúmeras abordagens. Mas, evidentemente, além dessa relação de gênero, os filmes têm muito mais em comum. A idéia da fuga para a floresta com o objetivo de buscar algum animal ou entidade mítica da natureza, que dá o plot dos dois filmes, é originária dos contos populares (como os de fadas) e um dos motivos mais antigos e freqüentes nas estórias fantásticas. Além disso, é notória a referência imagética feita por Person ao filme de Nanni na seqüência em que Quinzinho entra na floresta, o que se evidencia na cena em que o menino bebe água no rio sem usar as mãos. Neste momento, Procissão dos Mortos praticamente “decalca” o plano do filme de O Saci, conforme se pode verificar nas imagens a seguir, que reproduzem fotogramas originais dos filmes. 

 Cena de O Saci

Cena de Procissão dos Mortos

A citação quase literal, no entanto, parece ser apenas uma “chave” oferecida pelo diretor para a seqüência em que surgem os fantasmas de Che, e que dá o clímax de Procissão dos Mortos. Nesta, a referência a O Saci fica mais evidente e mais orgânica, pois, ao reunir os guerrilheiros sobrenaturais que atacam o pai de Quinzinho impiedosamente, Person parece sugerir um paralelo com a “sacizada” testemunhada pelo garoto Pedrinho em O Saci. Como se pode notar nas imagens a seguir, que reproduzem fotogramas dos dois filmes, ambos trazem os personagens mágicos surgindo um a um, no meio da noite, em algum lugar misterioso e pouco acessível, para depois mostrá-los juntos em ação, numa reunião ao mesmo tempo fantástica e caótica. O resultado narrativo dessa reunião, no entanto, como já foi relatado, é diferente em cada um dos filmes, marcando justamente sua diferença fundamental. 

 Cena da “sacizada” descoberta por Pedrinho em O Saci, de Rodolfo Nanni

 Cena da “sacizada” descoberta por Pedrinho em O Saci, de Rodolfo Nanni

 Cena de Procissão dos mortos, de Luis Sérgio Person

 Cena de Procissão dos mortos, de Luis Sérgio Person 

Assim, Procissão dos Mortos talvez possa ser visto como uma “atualização histórica” de O Saci, feita num momento particularmente dramático da história brasileira. Aparentemente, na visão de Person, o inocente passeio de Pedrinho, nos anos 1950, em um mundo rural e selvagem no qual podia se encontrar romanticamente com entidades da natureza e com um Brasil idílico, não era mais possível em 1967. Agora, o menino precisava lidar com uma realidade mais urgente, mais violenta e mais adulta, mas podia ter uma conduta igualmente romântica ao unir-se aos guerrilheiros na floresta em busca de um mundo menos autoritário e que não tivesse a paz silenciosa como ideal a ser buscado. Se o Saci de Nanni podia ser visto como o divertido e rebelde amigo das crianças, que poderia mostrar-lhes uma nova vida de alegria e fantasia, os fantasmas dos guerrilheiros também traziam uma alternativa mítica de libertação e, ao mesmo tempo, o drama da nova situação. Nesse sentido, impressiona o domínio do diretor sobre uma atmosfera de medo construída num ambiente rural já contaminado pelo desenvolvimento urbano (pois trata-se de uma região devastada por uma pedreira na qual o pai do menino e seus companheiros trabalham), e no qual o recrudescimento das tensões políticas é evidenciado junto com o horror. Além dessa metáfora sobre a guerrilha, a evidente “citação interna” do cinema paulista mostra a consciência de Person sobre duas questões fundamentais para o cinema de sua época. A primeira era o contato entre o trabalho engajado dos anos 1960 e as experiências relacionadas à luta pelo cinema nacional e popular dos anos 1950. A segunda, o fato de que, tanto em seu filme como no de Nanni, tratava-se de experiências de popularização do cinema brasileiro através do gênero fantástico. Não por acaso, Person seguiria fazendo interessantes experiências relativas ao cinema de gênero, sem deixar de lado o engajamento político e a crítica social. Seu faroeste Panca de Valente (1968), por exemplo, paródia cômica dos filmes hollywoodianos e italianos, vinha carregado de sátira social e política, com seu herói desajeitado e seus vilões ridículos. Também a pornochanchada Cassy Jones, o magnífico sedutor (1972), com seu protagonista que começa a se cansar do assédio das mulheres, trazia a reflexão sobre as mudanças no comportamento sexual iniciadas nos anos 1960. Rever a filmografia de Person a partir dessas experiências ajuda a jogar novas luzes sobre sua obra, fazendo com que sejam levadas em consideração as possibilidades criativas e políticas do uso dos gêneros cinematográficos canônicos pelo cinema brasileiro. Nesse conjunto, Procissão dos mortos desponta como uma das experiências mais radicais e bem-sucedidas, marcando um dos últimos “respiros” antes do recrudescimento da ditadura militar no final de 1968, com a instituição do AI-5 e de suas nefastas conseqüências para a vida e a cultura nacionais.

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BARCINSKI, André; FINOTTI, Ivan. Maldito – a vida e o cinema de José Mojica Marins, o Zé do Caixão. São Paulo: Editora 34, 1998. CÁNEPA, Laura Loguercio. Medo de quê? - Uma História do Horror nos Filmes Brasileiros. Campinas: Instituto de Artes da Universidade de Estadual de Campinas, 2008. Tese de Doutorado em Multimeios. RAMOS, Fernão; MIRANDA, Luis Felipe. Enciclopédia do cinema brasileiro. São Paulo: SENAC, 2000. TODOROV, Tzvetan. Introdução à literatura fantástica. 2. ed. São Paulo: Perspectiva, 1992. 

Referências filmográficas 
SACI, O (1953, São Paulo, P&B, 64 minutos) Produção: Artur Neves Direção: Rodolfo Nanni Roteiro: Rodolfo Nanni e Artur Neves, baseados nos personagens de Monteiro Lobato Assistente de direção: Nelson Pereira dos Santos Gerente de Produção: Alex Viany Direção de Fotografia: Ruy Santos Montagem: José Cañizares Cenografia: Teresa Nicolau Música original e regência: Cláudio Santoro Companhia Produtora: Brasiliense Filmes Elenco: Paulo Matosinho, Lívio Nanni, Aristela Paula Souza, Olga Maria Amâncio, Maria Rosa Ribeiro, Benedita Rodrigues, Otávio Araújo 
TRILOGIA DE TERROR (1968, São Paulo, P&B, 92 minutos) Produção: Antônio Pólo Galante e Renato Grecchi Direção: Ozualdo Candeias, Luiz Sergio Person, José Mojica Marins Montagem: Sylvio Renoldi Companhia Produtora: Produtora Nacional de Filmes, Produções Cinematográficas Galacy Ltda, Cia. Cinematográfica Franco-brasileira Procissão dos mortos Direção e Roteiro: Luis Sergio Person, com base em texto de R.F.Luchetti Fotografia e câmera: Osvaldo de Oliveira Elenco: Lima Duarte, Cacilda Lanusa, Waldir Guedes, Carlos Alberto Romano

(1) Do tupi-guarani Çao-Sy (olho mau) e Perereg (saltitante). (2) Segundo Barcinski e Finotti, biógrafos de Mojica, tudo começou em outubro de 1967, quando Galante teria procurado o diretor com a intenção de fazer a continuação do seu filme Esta noite encarnarei do teu cadáver, que estreara no começo daquele mesmo ano. O negócio, porém, não vingou, em função da negativa do produtor de Esta noite..., Augusto Pereira. Então, Mojica e Galante teriam decidido fazer um filme de horror em episódios baseados no programa da TV Bandeirantes, mas Galante precisava obter financiamento do INC (Institudo Nacional de Cinema) e sabia que poderia ter problemas em função da fama de Mojica como diretor de filmes excessivamente violentos e escatológicos. Para tentar resolver o problema, ele procurou o veterano produtor Renato Grecchi, que se juntou à dupla e propôs que fossem chamados para integrar o projeto os diretores Candeias e Person, que haviam, recebido prêmios do INC por A Margem e O Caso dos Irmãos Naves, respectivamente. Com isso, o projeto foi aprovado (Cf. In: BARCINSKI; FINOTTI, 1998: 204-205). (3) Manuel Pereira de Araújo, conhecido como Manezinho Araújo (1913-1993), pernambucano de Cabo de Santo Agostinho, foi cantor, compositor, jornalista e pintor, e teve várias de suas músicas eternizadas por Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro. (4) Os episódios do filme são ordenados da seguinte maneira: O acordo, Procissão dos mortos, Pesadelo macabro.