O Coletivo Cinefusão surge, no final de 2008, a partir da iniciativa de trabalhadores de diversas áreas - cinema, jornalismo, publicidade, artes cênicas, filosofia, arquitetura, fotografia -, empenhados em criar primeiramente uma rede colaborativa que pudesse dar conta da junção dessas linguagens e também da possibilidade de abarcar potencialidades em busca de produção artística independente, mas também de reflexões concretas acerca da sociedade. É principalmente sobre este último pilar de atuação política, que o grupo vem, atualmente, pensando o cinema, sempre vinculado a outras expressões artísticas e movimentos sociais.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Street Trash (1986)

Curta-metragem clássico do cinema trash norte-americano dos anos 80, inspirado no longa  "Street Trash" de J. Michael Muro.


quinta-feira, 26 de junho de 2014

O dono da voz

Para o meu irmão, que me ensina diariamente os segredos do samba

Não resta dúvida de que certas vozes ajustam-se melhor a determinados conteúdos. Mas, até que ponto? Para além da “bonita voz”, ou da “melhor interpretação”, certas vozes possuem toda uma carga de significação. Assim, se há canções destinadas a um tipo específico de voz, também existem vozes que exigem determinados tipos de canções. A voz de João Nogueira transmite em si mesma, condensado, reconfigurado, um conteúdo específico que, depois (ou simultaneamente), descobrimos nas letras de suas canções.

Insistindo no paralelo: existe música sem letra (instrumental), e letra sem música (poesia), mas e a voz? Serve apenas para sacramentar, mediadora, o casamento de letra e música? Sozinha, sem letra, sem palavra, e sem ritmo, a voz é pura possibilidade. Se isolássemos, então, a voz de João Nogueira, pensando nela (sem ela), revaler-se-ia, imediatamente, como um campo aberto de possibilidades. E, para nossa grata surpresa, as possibilidades abertas por sua voz de veludo correspondem exatamente àquelas, consumadas por suas canções. João, ao falar, talvez colhesse, no auto-reconhecimento de sua própria voz, as sugestões das canções eternas que compôs.

Mas afinal, quais tesouros de significação se ocultam nas ressonâncias profundas da voz de João Nogueira? Em quais “terras do sem-fim” avolumam-se os ecos de sua melancolia? Seguindo o raciocínio, encontra-se no conteúdo de suas letras a correspondência exata da carga de significação cifrada nas cordas vocais. Vem do espelho, portanto, além do espelho - de seu pai[1]. Mas as palavras, num poema, dizem mais do que é dito. Primeiro a voz, palavra que transmite, e seus significados ocultos, e, por fim, o retorno. Certamente, na prática, as coisas funcionam de outro modo. Mas não custa diferenciá-las, para melhor vê-las inextricáveis numa unidade que até mesmo as misérias da vida não foram capazes de romper. E é sobre misérias que João cantava.

A figura do Pai, então, resguarda um conteúdo que extrapola os limites da experiência individual, pois a voz do sambista é amiga dos abalos sísmicos, renascendo do interior de grutas e lonjuras subterrâneas: “Vem de muito longe este meu cantar”. Não longe, portanto, de um critério preciso de beleza: aquela, que traduz as mágoas e dores da plebe, dos despossuídos, dos humilhados, emergindo generosa à flor do ouvido. Habitando as raias de um Fim inevitável.

Lembremos, de passagem, o belíssimo samba de Egberto Gismonti, “Pr’um samba”, ao qual João empresta sua voz num casamento perfeito, que ressalta, quando: “Falando mesmo francamente / Eu já estou descrente / Deste meu povo que já não entende / Que basta um pouco de carinho / Um cavaquinho rouco / Uma flautinha, um violão / Pr’um samba”. Basta um pouco de carinho... Basta um samba! Basta um samba... ? Muitas outras composições de João afirmam a mesma “saída fácil”. O samba é redentor, e o ouvinte distraído talvez pense que tudo – inclusive nada - será redimido pela arte, segundo as canções do mestre. Engano. O próprio samba – tal como voz, ritmo, letras – é outra coisa.

A leitura do poder redentor do samba talvez seja tão velha quanto o próprio samba. Mas não pertence a seu universo. E, inclusive, serve de arma a seus inimigos. O samba não é feliz. Quase a totalidade dos sambistas é figuração histórica de uma dor secular, mas que, juntos, compõem uma constelação que é o desenho de um sorriso irônico, como quem diz: “o futuro nos pertence”. Figuras melancólicas, porém jamais derrotadas. Pois, enquanto expressão máxima – no campo da criação artística - da comunhão que pode haver entre os de baixo, o samba é antes de tudo exemplo político. Tal como diversas outras manifestações “espontâneas” de autodeterminação popular da vida, é um hino à liberdade, declaração de guerra contra todo tipo de hierarquização da vida social.

João Nogueira presenciou a colonização cultural dos morros, a restrição de uma liberdade mínima de movimento do espírito - sem a qual não existe samba – promovida pela avalanche da indústria cultural. E é este processo, essencialmente, que sua obra mimetiza. Não se trata de saudosismo, cantar os tempos idos. Que nunca foram bons. E justamente aqui a principal contradição, a partir da qual se compreende melhor a profunda melancolia de João Nogueira, refratada em tudo aquilo que compõe sua imagem melancólica. Pois não se volta no tempo, e o futuro é uma caixa preta.

Mesmo os sambas mais “otimistas” não perdem de vista a necessidade de lutar pelo futuro - “sorria / meu bloco vem / vem descendo a cidade / vai haver carnaval de verdade / o samba não se acabou”. O futuro adormece – sereno e seguro – nas mãos de quem faz a vida.



terça-feira, 10 de junho de 2014

UM PAÍS FEITO DE UM SÓ GOLPE - DEBATE COM PROF. PAULO ARANTES

O Seminário Labirintos e Trincheiras, organizado por coletivos artísticos- políticos de São Paulo, inicia neste domingo novo ciclo de debates, discutindo as heranças da ditadura civil-militar, que completou em abril 50 anos, e segue presente em nosso cotidiano. 

A abertura dos debates acontece neste domingo 15/6 as 18h no ECLA (Rua da Abolição 244, Bixiga) com o filósofo Paulo Arantes, um dos mais importantes e combativos intelectuais brasileiros da atualidade, que iniciará o ciclo com o tema: "Um país feito de um só golpe". Na ocasião Paulo lançará seu novo livro: "O novo tempo do mundo". 

Os debates acontecerão sempre no terceiro domingo do mês, as 18h, no ECLA (Espaço Cultural Latino-Americano).

Coletivo Zagaia, Coletivo Cinefusão, Coletivo Paracatuzum, Cia. do Terror e ECLA.

EVENTO NO FACEBOOK: https://www.facebook.com/events/296433543857557/?fref=ts


quinta-feira, 29 de maio de 2014

Cineclube Cinema em Revista - Ciclo Cine-Demência #2


O Cineclube Cinema em Revista convida a todos para a segunda sessão do ciclo cine-demência, que será realizada dia 01 de junho, às 18h01, no ECLA (Espaço Cultural Latino Americano), localizado no Bixiga, à rua da Abolição, 244. O tema será ATUALIDADE DO CINEMA MARGINAL e exibiremos 4 curtas: "Documentário" (Rogério Sganzerla), "Olho por Olho" (Andrea Tonacci), Sangue Corsário (Carlos Reichenbach) e A Visita do Velho Senhor (Ozualdo Candeias). Estão todos convidados para debater com os coletivos de cinema que organizam o cineclube.

O ciclo cine-demência, uma evidente homenagem ao mestre Carlão Reichenbach, tem como proposta a discussão estética e política, dentro do âmbito de um cinema paulista que se organiza de forma independente e propõe a experimentação da linguagem e o filme-risco, posicionando-se claramente contrário ao cinema-mercadoria e àquilo que convencionou-se chamar de "filme médio", e que nós denominamos medíocre.

Trata-se de uma iniciativa de coletivos de cinema e teatro Coletivo Cinefusão, Zagaia em Revista, PARACATUZUM, Cia Antropofágica, Tela Suja Filmes, Núcleo de Estudos Cynematográficos e Ceicine) que, posicionados dentro de um campo de disputa simbólica, vêm, a partir da experiência de um cineclube permanente, propor reflexões críticas em torno da experiência coletiva e da necessidade de um outro fazer cultural e cinematográfico. As sessões são gratuitas e irão ocorrer todo primeiro domingo do mês, às 18h01. 

Cineclube, experiência de recuperação do espectador morto. Espaço onde o óbito não é aceito sem diagnóstico. O especialista, neste caso, está mais do que convidado, mas aqui o diagnóstico é feito de forma coletiva, sobre a égide do universalismo, em contraponto com a educação tecnocrata das instituições de ensino. Ciclo Cine-Demência. O cineclube é permanente, Cineclube Cinema Em Revista. Um participa da ação do outro. E afirmamos: A arte tem que ter uma perspectiva revolucionária, caso contrário, os ursinhos carinhosos dominarão. Será sempre convidado alguém que valha realmente a pena, inclusive, os sujeitos da mídia-piada brasileira. Neste caso, não garantimos que não ocorra um ataque feroz por parte dos presentes, sempre no nível do debate, mas prometemos lançá-lo para o abismo de suas contradições.

Estão quase todos convidados: 

“E sobretudo, meu corpo, da mesma forma que a minha alma, evitem ficar de braços cruzados em atitude estéril de espectador, porque a vida não é um espetáculo, porque um mar de dores não é um proscênio, porque um homem que grita não é um urso dançando...”
(Aimé Cesaire)

sexta-feira, 23 de maio de 2014

EXPERIMENTO #2 - E O VERBO SE FEZ CARNE

A proposta de experimento faz referência à passagem bíblica do nascimento de Jesus Cristo, que diz "E o verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai" (Jo.1.14). A referência vem na verdade de forma irônica, como uma apropriação indevida e até profana, já que busca justamente representar o homem de carne e osso, traduzindo o verbo, mas para a realidade de um ser concreto. A chegada desse cordeiro de Deus para tirar o pecado do mundo sem dúvida falhou e é até irrisória, em um mundo capitalista onde milhões são sacrificados não pela salvação do homem, mas em nome do bom-burguês.

Assim, serão realizados vídeos em que um personagem se faça carne para materializar um discurso, verbo. No entanto, como parte do jogo, esse personagem deve surgir espelhado, ora como fruto da experiência documental (carne) e ora como produto da ficção (verbo), buscando-se a materialização imagética de uma ideia abstrata. Como carne e verbo se relacionam na tela? Como ator e personagem real se manifestam? A ideia também vem de uma proposta de filmar personagens da realidade e não ideias, partir justamente para o mundo material que é a justa concretização do verbo.

As regras estabelecidas foram:
- máximo 5 minutos de duração sem contar créditos iniciais e finais;
- obrigatória a utilização de um ator que necessariamente interprete o personagem documentado;
- cada um dos cinco envolvidos terá uma obstrução criativa sorteada entre as seguintes: obrigatório ser todo preto e branco (Oswaldo Janete); proibida a utilização de voz off (Raoni Yacamin); proibida a utilização de trilha sonora (Dida Beller); proibido o uso de entrevistas (Domenico Salopini); proibido o uso de diálogos (Ermelino Escobar);









LABORATÓRIO CINEFUSÃO

Inscreva-se no canal do Laboratório Cinefusão no youtube

Inaugura-se: o centro laboratorial ímpar, junto de outros ímpares da ciência videográfica. Fenômeno que se deseja abundante, hoje quase extinto do ecossistema audiovisual. Nosso tubo de ensaio admite o erro. A explosão da linguagem vai gerar novos espectadores. Superar o óbito constante, assumindo a forma de laboratório na direção correta. Apresentar o diagnóstico concreto e reutilizar a técnica, aspirando a uma nova vida.

A arte de bienal nos enjoa. O tal “vídeo contemporâneo” é uma espécie de subjetivismo primitivo. Enquanto não se admite a politização da estética, a burguesia distribui Chandon em vernissages e eventos beneficentes. O dono de indústria sem identidade observa na cultura a sua propagação imagética. Tal como um narcisista, faz devoção a sua classe, domando o uso da técnica em prol da educação especialista. É claro que entre eles o canibalismo é institucionalizado, e o bolo alimentar agoniza, mas logo é regurgitado numa nova forma. O mundo corre perigo.

Vídeo

O bom democrata líder dos ursinhos carinhosos apela, num gesto afetivo, a sua cordialidade com o povo dos trópicos. Assim, um certo operário, pincelado de sua classe de origem e ao lado do projeto desenvolvimentista, continua abraçando a pior cultura de todos os séculos. Isso não é uma surpresa. Na origem, já tinham confundido o operário com a classe. Os iluminados tecnicistas do cinema, por sua vez, assim como parte dos cientistas, escrevem com sangue dos pulsos, na parede – NÃO EXISTEM VALORES SOCIAIS NO USO DA TÉCNICA. Não é à toa que, no centro da sala de estar, a estátua de Chronos é a sua inspiração, enquanto observam a história. 

Para nós, o vídeo não funciona como negação do espaço-físico-cinema, pelo contrário, almejamos agir de modo coordenado para expropriá-lo, das mãos imóveis do seus donos putrificados. No momento, deixamos nossas experiências abertas, em outra das fontes de rejuvenescimento do capitalismo: a internet. É neste “transatlântico do tamanho do oceano’’ que iniciamos uma contraposição à regra geral, dos vídeos fáceis. Levando em conta a premissa de que é no campo da ação política, realizada em massa, que se pode de fato alterar qualitativamente o funcionamento da sociedade, só podemos assegurar a nossa análise cotidiana dos fatos concretos, através de formulações estéticas de caráter laboratorial.

Funcionamento do Laboratório

- Cada integrante do Cinefusão poderá realizar um vídeo-exercício. Eventualmente, poderão ser convidadas outros ímpares parceiros.
- Cada exercício será proposto alternadamente por uma pessoa, que trará um tema, exercício formal ou qualquer outra proposta de experimentação. Também será delimitado uma duração determinada para o vídeo.
- Via de regra, para todo exercício proposto serão sorteados uma obstrução criativa para cada participante (exemplo: ausência de voz off).
- Vídeos que fujam da proposta não serão aceitos.
- O prazo para realização de cada exercício é de 30 dias a partir da divulgação da proposta.
- Os vídeos serão postados no canal do youtube do Laboratório Cinefusão.
- Nenhum participante será identificado nos exercícios, sendo obrigatória a utilização de um pseudônimo.
- Para além disso, a liberdade de pesquisa estética é permanente.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

II CELEBRAÇÃO TEATRAL - 1 DE MAIO



Programação:

14h - Abertura com Companhia Estável, Companhia Estudo de Cena e Coletivo da Albertina
14h15 – Companhia Antropofágica - “Notas sobre Mahagony”
14h45 – Nóis na Mala – “Samba para Construção”
15h30 – Teatro Documentário – “Gracias a la vida que me ha dado tanto”
16h10 – Buraco d’Oráculo – “Canto Cenopoético”
16h35 – Coletivo da Albertina – “Especula-se”
18h – Núcleo de Estudos Cynematográficos – Filme “Ana”
18h20 – Núcleo Pavanelli - teatro de rua e circo – “Luta de Classes”
18h30 – Coletivo Cinefusão –“ Experimento #3 – O Trabalho nos fará dignos”
19h00 – Grupo Teatral Parlendas – “Intervenção Brazil zil zil”
19h30 – Companhia Estudo de Cena – “Cortejo de Quintino Gatilheiro, o Lampião da Mata”
20h20 – Engenho Teatral – “Teatro de Bolso”

sexta-feira, 25 de abril de 2014

O Cordão da Mentira e a Desmilitarização - uma reflexão em 5 atos

Texto publicado originalmente na Revista dos parceiros do Coletivo Zagaia

Este artigo foi escrito por Thiago B. Mendonça com a colaboração de Marco Escrivão para o livro ainda inédito “Desmilitarização da polícia e da política: uma resposta que virá das ruas” organizado por Givanildo Manoel e editado pela Editora Pueblo. 



ATO 1 – Concentração – o ontem e o hoje

1 de abril de 2014. O Cordão da Mentira, bloco carnavalesco de intervenção urbana, prepara-se para seu terceiro desfile. Dia da Mentira, dia do Golpe que instalou a Ditadura Civil-Militar no Brasil em 1964, completando 50 anos. Em frente ao antigo DOPS do carrasco Fleury, a primeira pergunta que vem a cabeça: por que lembrar o golpe se já comemoramos também quase 30 anos da redemocratização? O que faz 1.500 pessoas saírem para as ruas cantando sambas de luta contra a opressão? Por que este dia ainda nos traz tantos traumas?

Enquanto o Cordão esquenta as baterias, no carro de som respostas começam a ser traçadas. O mestre de cerimônia, em trajes de Zé Pilintra, relembra o museu de horrores: “Quem pensasse diferente podia ser fichado, preso, torturado, morto (e as coisas não aconteciam necessariamente nesta ordem). Quem mandava aqui era a turma do Fleury. Tinha o Romeu Tuma, senador até pouco tempo. Pachequinho, compositor do Samba da Vela. E tantos outros que ainda desfilam por aí.”

Alípio Freire, ex-guerrilheiro e ex-preso político no passado, militante e artista plástico no presente, fala do ontem e de hoje. Débora Silva, representante das Mães de Maio, grupo de mães que lutam para que se esclareçam os crimes cometidos pelo Estado na democracia, fala de hoje e de ontem. As continuidades são expressas em dor, em coragem, em luta. “Se houve democratização esqueceram de avisar a polícia militar!” brada a mãe de maio emocionando os presentes. Débora, Antígona moderna, afirma que uma mãe que luta pela memória do seu filho é maior que um Estado. As mães são a alma do Cordão e para elas os compositores do bloco já renderam sua homenagem:

“Eu já perdi a esperança, juventude
Eu já perdi minha luz, minha alegria
Resta o altar com o sorriso do meu guia
Meu menino tão suspeito pra vocês

Ele é meu anjo e eu rezo todo dia
Não é pra Deus, nem pra Santo, Ave Maria
É só pra ele trazer mais esperança
Dos pequenos renascerem na bonança

Eu já falei que não quero mais vingança
A guerra que eu quero é das almas dos meninos
O fogo que arda e e incendeia o rico imundo
E ilumine com sua chama, um novo mundo

Que em algazarra os guris assassinados
Possam voltar e cantar os chacinados
Que nosso sangue escreva nova história
E ocupe o esquecimento com memória” 
(Mães de Maio de Thiago B. Mendonça / Everaldo F. Silva / Selito SD) 

Justiça e memória de ontem e de hoje. O carnaval começa como canção de luta. Centenas de pessoas colocam sacos plásticos na cabeça, lembrando os crimes de Fleury, Romeu Tuma e sua gangue. 1 minuto de silêncio. 

ATO 2 – 3o Distrito – A higiene, os bons costumes e as pessoas de bem

O Cordão para em frente ao 3o distrito policial, na Boca do Lixo. Projeções de imagens do Esquadrão da Morte são vistas no prédio ao lado. Homens “da lei” aglutinam-se na delegacia, onde são obrigados a engolir as palavras de nosso guia, Zé Pilintra, lembrando aos foliões que ali naquela delegacia, na ditadura civil-militar, reinava Wilson Richetti, amigo do delegado Fleury, assassino de prostitutas e travestis. Richetti proibiu as garotas de programa de trabalharem. Quem desobedecia às ordens, poderia ser presa, torturada e morta, em nome dos bons costumes. Há mulheres que até hoje não tiveram suas mortes apuradas. Em 1979, depois do assassinato de uma prostituta e um travesti, um movimento de trabalhadoras da zona toma a Praça da Sé. Em plena ditadura um movimento de prostitutas e travestis derruba um criminoso, destituindo Wilson Richetti. Uma das líderes, Gabriela Leite, mais tarde criou a DASPU e se tornou a grande referência na luta pelos direitos das putas brasileiras. Zé Pilintra, o guia do cordão, evoca sua memória: “Gabriela se foi mas deixou saudade! Evoé Gabriela!”

Nas recentes movimentações de especulação imobiliária na região da Luz, nos governos José Serra e Gilberto Kassab, novamente as prostitutas voltaram a ser perseguidas e assediadas pela polícia. Gabriela certa vez declarou num filme sobre a Boca do Lixo: “Quando as pessoas querem revitalizar uma área histórica que tá ruim, eles querem expulsar as putas, expulsar os malandros, expulsar toda a cultura que tinha ali e criar uma nova coisa. Só que o que eu acho é que isso não adianta nada, porque as pessoas voltam. As pessoas sofrem, mas as pessoas voltam. Porque isso aqui tem uma cultura. Uma cultura da prostituição, da malandragem, da música, do cinema, que ninguém vai tirar deste pedaço. Ninguém. Nunca.”1  

A memória recente e a memória do passado, o ontem e o hoje. De um lado os populares. Do outro lado o discurso antigo de revitalização dos espaços, para torná-lo mais palatável à uma elite patrimonialista que vê o pobre como risco, como inimigo. Não somos uma nação. Tudo conspira para uma conciliação coagida entre uma minoria que manda e um povo que obedece. Na formulação magistral do filósofo Paulo Arantes “um Estado bifronte, de direito para os ‘integrados,’ e penal-assistencial para ralé.”2

Matanças, despejos, realocações, deslocamentos, opressão, massacres. A permanência da violência de Estado e seus vestígios nas ruas da cidade. Uma geografia da opressão: as ruas cheiram a sangue. A militarização garante a lógica do controle social. Eis os mandamentos da sagrada família dos proprietários brasileiros: “Não contestarás. Não lutarás. Não abandonarás sua condição.” Para ontem e para hoje o Cordão grita: é mentira! É o abandono deste lugar, um chamado para a luta:

“Você aí
Vendo o circo passar na janela
A versão corrompida na tela
Não convence o coração
Diz aí
Não ouviu falar em Mariguella
Nunca entrou numa favela
Prefere não dar opinião
É melhor começar a pensar
Numa nova saída
Naquele moleque sem lar
Nos trabalhadores sem terra
Minha gente sofrida

Entrar de cabeça na briga
É a pedida pra ganhar
De que lado está você?
De que lado? Eu quero ver!
Meu bloco vai cobrar” 
(Camarada Lampião de Renato Martins e Roberto Didio)

ATO 3 – Largo do Paissandu – a memórias dos homens pretos

Chegando ao Largo do Paissandu, o Cordão rende homenagem à memória dos homens pretos, vítimas preferenciais do Estado genocida brasileiro. Os herdeiros dos escravos carregam ainda a condição de homens descartáveis. Zé Pilintra, guia do cordão, lembra que a igreja do Rosário localizada ali, não é a original, expulsa pela especulação imobiliária de outra área central, mais nobre. A história não é coisa do passado: “Hoje novamente querem tirar os pretos e pobres do centro. A higienização e especulação imobiliária continuam juntas e misturadas ao genocídio da juventude preta. Relembramos pois, mais do que nunca, nossos antepassados.”

Neste trecho do trajeto, de armas em punho, a polícia militar faz sua primeira investida contra o cordão, mas é rechaçada pelos manifestantes que gritam pela desmilitarização.

“Só após seis horas chegou a polícia
Esmurrando e dando chutes na porta
Que coisa absurda, mas não fictícia,
Deu tremenda surra no Zé Perna Torta,
Que, por já ser finda a batalha à milícia gritou:
- Com o pobre ninguém se importa!
Outra vez não chegaram em hora propícia
Agora já é tarde, pois, Inês é morta!
Se Inês é morta, diga quem matou Inês!”
(Quem matou Inêz?  de Selito SD) 

ATO 4 – Mackenzie – a volta da repressão

O Cordão tem um tempo próprio. Nos intervalos de seus cantos e batuques, grupos teatrais se revezam para trazer mais uma camada de reflexão a partir de cenas curtas e números musicais. A estética ressignificando a política e ampliando seu universo simbólico.

O ato segue pacífico em direção à mítica rua Maria Antonia. Ao atravessar o Elevado Costa e Silva (ou Minhocão), sintomática homenagem ao ditador que promulgou o AI-5, centenas de militares da tropa de choque, alguns com armas em punho, passam a acompanhar o bloco. Duas semanas antes, uma famigerada tentativa de reedição da Marcha da Família de 1964 foi para as ruas para pedir um novo golpe aos militares. A polícia militar os acompanhava integrados. Eram saudados como parte da manifestação. A marcha era composta por cerca de 300 pessoas, sendo cerca de 100 deles neo-nazistas (ou integralistas). Muitos estavam armados, e possuíam algemas de plástico para prender opositores. A marcha foi marcada por brigas e agressões de neo-nazistas, sem nenhuma intervenção policial.

Duas semanas depois o desfil&scracho do Cordão da Mentira rechaça o golpe, seus entusiastas. O ato com 1500 pessoas não tem nenhum incidente. A polícia porém é outra. Ela oprime. Exibe suas armas. Mostra-se pronta a atacar.

Maria Antonia. 03 de outubro de 1968. A rua é palco de uma guerra entre fascistas do CCC apoiados pela polícia militar contra estudantes da USP, defendendo a democracia. Conflito que resultou na morte do estudante José Carlos Guimarães de 20 anos, no incêndio criminoso do prédio da Maria Antonia, e de forte repressão policial ao movimento estudantil que tomou as ruas para protestar contra o assassinato.

Maria Antonia, 13 de Junho de 2013. Uma nova batalha, desta vez, sem intermediários. A polícia militar ataca covardemente os manifestantes do 4o ato contra o aumento das passagens de ônibus. Mais uma vez a Maria Antonia testemunha o legado da violência do Estado. A História se repete. 1 de abril de 2014. Sobe pressão da polícia os foliões do Cordão cantam o Frevo da Falha.

“Mas hoje ocupando a praça
Sem juiz, censor ou editor
Valendo mais que mera errata
A gente desmascara
Convertido e enganador
Para de mentir canalha
Para admitir a “falha”
Para de omitir que a dita foi dura demais
Para de fingir que é justa
Para de fugir do Ustra
Para difundir a farsa impressa nos jornais” 
(Frevo da falha de Douglas Germano e Everaldo F. Silva)

ATO 5 – No coração de Higienópolis – Tradição, família e propriedade

A polícia tenta cercar o Cordão. Em torno do Cordão formam-se dois cordões: o primeiro de policiais militares. O segundo de manifestantes para defender os cidadãos da polícia. A situação parece absurda. No cerco, homens armados esperam a hora de atacar a festa. Do lado de dentro, sem armas, centenas de pessoas, jovens e velhos militantes foliões, defendem de braços dados os demais manifestantes. Para quem não visse os policiais poderia ser uma ciranda. Uma festa. E era. No Cordão não se diferencia festa e luta. O ódio dos militares, formados para atacar seus inimigos é combatido pela festa dos cidadãos, comprometidos em mudar o mundo. Cantando a “Batalha Final de um Bravo Brigante’ o Cordão segue em frente quilombolado.

“Nos metros a frente a fria coluna
Por entre os escudos eu vejo uma fresta
E sigo em frente, pois pouco me resta
Sou só uma peça na grande comuna
Reúna seus homens, reúna, reúna…
Novos dias me acenam do lado de lá
Pouco me resta, já não tenho sono
Já não tenho medo, já não tenho dono
Só tenho a vontade de continuar
Com sangue no rosto e brilho no olhar.
Comuna e coluna postadas bem perto
Lá da barricada já fiz o que pude
Com tripa de mico e bolinha de gude
Por entre os escudos achei descoberto
Grosso supercilio que deixei aberto
Montado em exemplo de gente da gente
Não mais me abala a mais cruel cena
Nem mais uma bala fará com qu’eu tema
Seja de borracha, seja chumbo quente…
Por entre os escudos eu miro um temente
Vou partir pra riba, no saci virado
Vou partir na fé de meu santo e meu povo
Se eu cair… Levanto e me atraco de novo
Vou pela quebrada, vou “quilombolado
Por entre os escudos… Zumbi do meu lado.
Se eu cair… Levanto e me atraco de novo.” 
(Batalha final de um bravo Brigante de Serginho Poeta/Everaldo F. Silva/Selito SD)

E por entre as câmeras de vigilância e a movimentação frenética das equipes de segurança, o bloco invade o coração de Higienópolis. Para em frente a TFP, organização fascista fundada em 1960 pelo integralista Plinio Correia de Oliveira. A TFP, Tradição Família e Propriedade, é uma organização católica que defende a tradição deles, a família deles e a propriedade deles. Sua única proposta é combater a esquerda. Há alguns anos planeja treinar militarmente sua pequena orda de fascistas para atacarem movimentos sociais. A TFP é parte de conjunto maior de grupos e organizações que apoiaram o golpe civil-militar. É na frente da TFP que acontece o último escracho do cordão. Nas paredes ao lado, cenas de “Saló e os 120 dias de Sodoma” de Pasolini são projetadas, lembrando o fascismo abjeto ainda presente. Os empresários que financiaram e se beneficiaram do golpe são citados.

A polícia tenciona e ameaça os manifestantes. Parece pronta a atacar. Até que um velho e aparentemente frágil militante, com sua bengala, os contêm. Sem força, sem palavras. Com a imponência de sua presença. É uma das cenas mais belas já presenciadas por este escriba. O velho militante impõe respeito portando apenas sua cotidiana bengala à toda uma tropa de jovens policiais treinados para trucidar manifestantes. Aquela imagem mítica do ancião abate a moral da máquina de moer ossos do Estado. Volto emocionado com esta imagem do mestre ancião Alípio Freire. Carrego comigo, carregamos todos que ali estiveram, a esperança renovada de uma mudança. Em 2015 o Cordão voltará as ruas. Até lá outras batalhas serão travadas. E se em algum momento vier o desânimo lembraremos do que a Mãe de Maio Débora nos ensinou: “os nossos mortos tem vozes”. 

NOTAS

1 Depoimento de Gabriela Leite para “Santa Efigênia e seus pecados” Documentário de 26 min. dirigido por Thiago B. Mendonça

2 1964, o ano que não terminou in O que resta da ditadura. 

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Chamada para Grupo de Estudos “Cinema e Anarquia” – GECA


A Biblioteca Terra Livre tem o prazer de anunciar a criação de um novo Grupo de Estudos direcionado para a pesquisa das relações entre Cinema e Anarquia, o ‘GECA‘.

Seguindo o modelo de funcionamento dos nossos outros grupos de estudos, ele será gerido pelas pessoas que participam, portanto sua proposta inicial está sujeita a alterações mediante discussão com os interessados.

Assim, a ideia é que ocorram encontros quinzenais, às quintas-feiras, das 19h às 22h, na sede da Biblioteca Terra Livre.

O GECA tem entre seus objetivos tentar compreender as relações entre o cinema e a anarquia, bem como as relações diretas ou indiretas com outras artes, estabelecendo paralelos entre a pintura e a fotografia, a música e a trilha sonora, a literatura e o roteiro, dança e teatro no trabalho dos atores. Também pretende que os participantes estabeleçam contato com obras de anarquistas do século passado e de hoje, fazendo uma análise deste panorama cultural cinematográfico libertário, inclusive desenvolvendo eventos para a divulgação destes materiais, como cineclubes, debates e minicursos, aliando-os à produção textual e de resenhas pelos membros do grupo. Finalmente, buscaremos pensar como resultado dos encontros a criação de um ou mais vídeos (curta, média ou longa-metragem), para que sejam inscritos no Festival do Filme Anarquista e Punk de São Paulo: http://anarcopunk.org/festival/

O Grupo realizará atividades como leituras de textos sobre cinema anarquista [contemporâneos e históricos]; exibição e análise de filmes feitos por militantes ou sobre anarquia; críticas ao cinema contemporâneo, que podem ser publicadas na revista da Biblioteca; atividades como mostras, cineclube e minicursos; e criação e realização de projetos audiovisuais.

Como leitura sugerida para o primeiro encontro, que se realizará dia 10 de abril, propomos a introdução do livro ‘Cinema e Anarquia’, de Isabelle Marinone. O texto pode ser acessado clicando aqui.

Os interessados devem inscrever-se pelo email bibliotecaterralivre@gmail.com, pois há um limite de 10 participantes por questões de espaço.

segunda-feira, 31 de março de 2014

CORDÃO DA MENTIRA NAS RUAS



Confirme sua presença:
https://www.facebook.com/events/620287641397396/

Ouça:
https://soundcloud.com/cordao-da-mentira-2014

Colabore:
http://www10.vakinha.com.br/VaquinhaE.aspx?e=260563

Convide os amigos:
Terça, 1 de abril - concentração 17:30
Largo General Osório (próximo à Estação da Luz) - em frente ao Antigo DOPS


Composto por coletivos políticos, grupos de teatro e sambistas, o Cordão da Mentira nasceu em 2012 como um coletivo independente, autônomo e suprapartidário. Sua proposta é de intervenções estéticas, no espaço público, que debatam questões políticas do passado e do presente brasileiro, ressignificando pontos emblemáticos da cidade a partir da problematização e do resgate de sua própria história.





quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Entrevista Iná Camargo Costa

entrevista retirada do Brasil de Fato (11/04/2012) 

por Jade Percassi.

A professora Iná Camargo Costa, nesta entrevista exclusiva ao Brasil de Fato, fala sobre arte e política em tempos de crise. Para ela, a arte convencional, uma das melhores expressões do fetichismo da mercadoria, em todas as suas modalidades, inclusive as chamadas vanguardas, é politicamente comprometida com os valores dominantes. A professora, que acompanhou de perto a luta dos grupos teatrais, principalmente de São Paulo, por políticas públicas para a cultura, afirma que não acha que o caminho da disputa pelos recursos públicos seja revolucionário. Para ela, o preço que os trabalhadores da cultura pagam pela opção reformista é a reprodução interna, tanto subjetiva quanto no plano da organização do trabalho, do que a vida no capitalismo tem de pior. Para Iná, na prática os artistas reproduzem todas as relações necessárias à manutenção do modo de produção capitalista e, reivindicando parte dos recursos públicos para a produção das suas obras e garantia da sobrevivência, demonstram estar completamente integrados ao sistema. “Todos pagam o preço da invisibilidade, inclusive política, a que estão condenados os que não se colocam como estratégia o confronto revolucionário com o monopólio dos meios de produção cultural”, afirma.           

Iná Camargo – que atualmente, atua como dramaturgista da Cia Ocamorana de teatro e que anunciou que por ocasião de seu sexagésimo aniversário faz sua despedida de eventos públicos “de qualquer natureza” – afirma que o problema, portanto, não é reiterar que “o projeto socialista está tão fora de pauta”, mas discutir por que as organizações políticas, tanto partidos quanto movimentos, não o colocam em pauta. E coloca um critério: quando um mero intelectual diz que o projeto socialista está fora de pauta, ele está simplesmente expressando seu mais profundo desejo que nunca entre mesmo na pauta, pois intelectuais têm pavor de revolução.      

Brasil de Fato – Em recentes participações em debates políticos, você tem reafirmado a presença histórica das linguagens artísticas nos processos políticos mais amplos, revolucionários e contrarrevolucionários. Quais os casos mais emblemáticos dessa relação entre arte e política?

Iná Camargo Costa – Começando por colocar a questão em termos bem amplos, é preciso lembrar que as chamadas linguagens artísticas estão presentes o tempo todo em nossas vidas e sempre traduzem os valores da classe dominante. Basta prestar atenção ao modo de ser das nossas cidades, voltadas que são às necessidades do escoamento dos produtos da indústria automobilística: todos os sinais de trânsito exploram linguagens artísticas, desde as faixas de pedestres até as amplas avenidas, os parques, as pontes estaiadas etc. O discurso político, por mais convencional e conservador que seja, sempre tem ingredientes artísticos. A arte convencional, uma das melhores expressões do fetichismo da mercadoria, em todas as suas modalidades, inclusive as chamadas vanguardas, é politicamente comprometida com os valores dominantes. Nos debates de que participei ultimamente, a solicitação era tratar dos diferentes modos como artistas interessados no ponto de vista dos trabalhadores podem enfrentar esteticamente esses valores dominantes. Entendendo que o interesse era a luta de classes tal como se manifesta na trincheira da produção artística, achei que seria o caso de lembrar alguns episódios que a própria história da luta de classes já produziu, tanto no plano reformista quanto no revolucionário. Um critério político-dialético aqui é importante: até outubro de 1917 (revolução soviética), as manifestações reformistas podiam ser consideradas progressistas, mas depois da revolução elas adquirem um caráter contrarrevolucionário, de obstáculo claro ao avanço das funções e das próprias linguagens artísticas. Sem meias palavras: o mesmo critério que vale para a política vale para as artes.       

Sem perder mais tempo com a arte contrarrevolucionária que nos assedia durante 24 horas por dia, passemos ao interesse pela revolucionária. Neste caso é obrigatório tratar daquilo que foi feito nos anos que se seguiram à revolução soviética. Como meu maior interesse é teatro, as intervenções que andei fazendo acabaram se voltando para o teatro de agitprop, a manifestação mais revolucionária possível em matéria de arte, de acordo com o critério acima enunciado. Por isso vou me referir apenas às relações entre política e agitprop. Os artistas que se dedicaram a ele – e entre os mais conhecidos estão Maiakóvski, Meyerhold e Eisenstein, para ficar só no campo do teatro – já tinham uma posição política clara: Maiakóvski e Meyerhold eram militantes do partido bolchevique e Eisenstein integrou-se diretamente ao exército vermelho em 1918. Para eles, a função da arte revolucionária era participar da luta pela construção do poder soviético – o mais democrático já inventado pela humanidade – de todas as formas possíveis, desde fazendo a propaganda direta do ponto de vista revolucionário sobre as questões da ordem do dia, até inventando formas totalmente inéditas, como a do “processo de agitação” em que o público era diretamente treinado para participar dos sovietes com desenvoltura e conhecimento de causa. Sendo o agitprop, disparado, a minha forma preferida de arte, nem gosto muito de perder tempo com as outras.           

Simplificando bastante: as relações são antes dos artistas, do que das artes, com a política. Os que se decidem por um caminho revolucionário são livres para inventar as melhores maneiras de aproveitar todas as linguagens disponíveis. No mesmo processo, acabarão inventando suas formas próprias, ou inéditas, como foi o caso do teatro jornal, do processo de agitação, da peça dialética e assim por diante.        

No caso brasileiro, qual foi o papel da produção artística na disputa de hegemonia ao longo da história recente?

Vamos combinar que eu não gosto muito de “disputa de hegemonia”, pois aqui no Brasil essa expressão assumiu desde os anos de 1970 uma conotação abertamente reformista, pela qual não tenho nenhuma simpatia. Isso no plano da política, porque no plano da arte ela pode ser tranquilamente absorvida pela expressão mais verdadeira, que é “disputa de mercado”.               

Dito isto, é preciso reconhecer que desde fins do século 20 há uma forte movimentação de jovens supérfluos (que não encontram emprego no mercado cultural) tentando desenvolver uma produção artística fora do mercado, tanto para criticá-lo quanto se esforçando para fazer alguma coisa que pode ser identificada como “disputa de hegemonia”. Se não há dúvida sobre o fato de que isto realmente é feito em termos de obras, isto é, no plano simbólico, já não se pode dizer o mesmo quanto à estratégia, pois esses trabalhos desenvolvidos à margem do mercado cultural não têm a mais remota condição de disputar absolutamente nada com ele em termos de alcance. Basta pensar no número de pessoas que um capítulo de novela atinge e o número de pessoas que um trabalho de teatro de grupo tem a possibilidade de alcançar. Não é por outra razão que a chamada “Cultura fora do eixo” põe em pânico tantos militantes do teatro de grupo. Eu diria que, no âmbito do mercado que realmente está sendo disputado, eles, pelo menos, não são hipócritas, jogam limpo. Já disseram que é de mercado que se trata e se habilitam a disputar o fundo público para essa finalidade, inclusive deixando claro que estão muito bem sintonizados com estes tempos de “empreendedorismo” que caracteriza a ação de todo mundo no campo cultural.         

Os que dizem disputar hegemonia precisam esclarecer melhor seus próprios objetivos, pois enquanto não o fazem estão perdendo de goleada para os militantes da “economia da cultura”.       

Há exemplos na atualidade que indicam uma reativação desse fazer artístico que assume sua vocação eminentemente política?

Acho que os grupos teatrais, ou as brigadas, que se desenvolveram no Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), claramente reativam a vocação eminentemente política do teatro, até porque foram criadas pela própria direção do movimento que desde o começo considerou necessária também a intervenção no âmbito cultural. Por haver esse processo no interior de um movimento político, os grupos teatrais que se aproximaram do MST – e isto no Brasil inteiro, a começar pelo Rio Grande do Sul – também desenvolveram essa vocação. Por outro lado, veteranos de outros episódios de politização mais ampla no país, como o União e Olho Vivo de São Paulo, entre outros, nunca perderam esse espírito. Mas todos pagam o preço da invisibilidade, inclusive política, a que estão condenados os que não se colocam como estratégia o confronto revolucionário com o monopólio dos meios de produção cultural.       

Quanto aos grupos teatrais mais jovens, que apareceram nas ondas criadas por movimentos como o “Arte contra a barbárie” e “Redemoinho”, por serem majoritariamente integrados por filhos da classe média, é possível observar neles o interesse por essa reativação de um fazer artístico politizado em graus variados. Nota-se isso sobretudo nos assuntos, nos temas abordados e na opção por formas diversas do teatro épico. Mas a condição de classe média pesa muito, todos oscilam tipicamente entre euforia e depressão e, sobretudo, muitos reagem mal a qualquer proposta de organização política mais efetiva. Por isso o Movimento dos Trabalhadores da Cultura está demorando tanto para decolar. Tem muita gente que ainda acha que artista não é trabalhador!       

Em que medida a organização interna dessa(s) categoria(s) se fortalece e/ou se fragiliza ao se deparar com as contradições da disputa por recursos públicos e a contribuição para a elaboração de um política cultural junto ao Estado?

Essa questão tem pouco interesse para mim, pois não acho que o caminho da disputa pelos recursos públicos seja revolucionário. O preço que os trabalhadores da cultura pagam pela opção reformista é a reprodução interna, tanto subjetiva quanto no plano da organização do trabalho, do que a vida no capitalismo tem de pior: começando pelo consumo privilegiado (por ser sempre e necessariamente para poucos) de todos os bens produzidos pela classe trabalhadora – de alimentos a verbas públicas (a renda do Estado provém da mais-valia arrancada dos trabalhadores agrícolas, industriais e dos serviços, não é mesmo?) – e culminando com a reprodução entre eles mesmos da estrutura social mais geral, na qual quem tem mais pode mais, prevalece a hierarquia do saber, a administração das pessoas, o paternalismo mais odioso, inclusive reclamado pelos mais jovens e assim por diante. Isto é: na prática os artistas reproduzem todas as relações necessárias à manutenção do modo de produção capitalista e, reivindicando parte dos recursos públicos para a produção das suas obras e garantia da sobrevivência, demonstram estar completamente integrados ao sistema. Não dá para imaginar que daí saia alguma alternativa revolucionária. Por isso venho perguntando com insistência aos artistas: vocês acham possível se dar bem e ser feliz neste mundo, tal como ele está organizado, ou a sua felicidade pessoal e profissional depende de uma mudança total? É claro que “mudança total” é código para revolução...       

Do ponto de vista da disputa com a indústria cultural, há condições da produção artística alinhada com os interesses da classe trabalhadora confrontar o que está sendo imposto pela lógica do capitalismo? Quando um projeto socialista parece “tão fora de pauta” para a grande massa de trabalhadores não organizados, sem consciência de classe, etc.)

Enquanto não aparecer um movimento ou partido que ponha essa questão na ordem do dia, por certo que não há condições subjetivas. Quanto às objetivas, elas estão dadas desde a própria revolução de outubro. Aliás, este ponto já foi tratado por revolucionários como Lenin e Trotsky e, no Brasil, foi desenvolvido artisticamente por Mário de Andrade numa ópera chamada Café. Nesta obra acontece uma revolução que culmina com a tomada revolucionária dos meios de comunicação. No caso, o rádio. O problema, portanto, não é reiterar que “o projeto socialista está tão fora de pauta”, mas discutir por que as organizações políticas, tanto partidos quanto movimentos, não o colocam em pauta. Em outras palavras, desmascarar as organizações políticas que, ao insistir no ponto, continuam empurrando com a barriga a ação reformista que é, repito, contrarrevolucionária.                

Um critério: quando um mero intelectual diz que o projeto socialista está fora de pauta, ele está simplesmente expressando seu mais profundo desejo que nunca entre mesmo na pauta, pois intelectuais têm pavor de revolução. Mas quando um dirigente partidário ou de movimento organizado diz a mesma coisa, ele está expressando o caráter reformista de sua própria organização, ou pelo menos da tendência que ele representa nessa organização. Um contraexemplo é o discurso do Gilmar Mauro no último congresso do MST.      

Como você resumiria então os desafios correntes para a ativação simbólica da luta de classes?

Acho que já respondi a questão, mas especifiquemos um pouco mais. Não podemos ter a veleidade de achar que artistas sem qualquer vínculo com organizações revolucionárias propriamente ditas sejam capazes de avançar nessa ativação simbólica da luta de classes, para além do que já fazem em seus trabalhos, às vezes até sem consciência. Antes de mais nada, eles próprios precisam entender o que seja luta de classes pois, enquanto não o fizerem, nem ao menos saberão qual o seu lugar nessa luta. E nessa ignorância política tenderão sempre a reproduzir os valores dominantes. Para estes casos, recomendo sempre a leitura dos escritos políticos de Brecht, que nunca tergiversou sobre a questão. Ele diz com todas as palavras que o proletariado espera pelo menos três serviços dos intelectuais e, portanto, dos artistas: a) que desintegrem a ideologia burguesa (nos dois sentidos: cair fora e denunciar, criticar até reduzir a pó); b) que estudem, compreendam, expliquem e exponham artisticamente, sempre de maneira crítica, as forças que movem o mundo e c) que façam a teoria e a arte avançarem na direção dos seus interesses.                 Simplificando: ultrapassar o estágio em que os artistas se encontram, de completa ignorância política, é o principal obstáculo. Se este obstáculo for ultrapassado, os demais serão mais facilmente superados.           

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

O "Coice no Peito" da Tela Suja Filmes

Tomamos emprestada a crítica do Cid Nader (cinequanon) para divulgar o pungente "Coice no Peito", dos camaradas da Tela Suja Filmes e seu cinema que diz a que veio. Em breve, publicaremos impressões próprias sobre este trabalho que deve circular muito ainda.




Coice no Peito, de Renan Rovida. FICÇÃO, PRETO & BRANCO, DIGITAL, 25MIN, 2014, SP

Ontem vendo ao belíssimo e emocionante Coice no Peito, não tive como deixar de lado – e enquanto acompanhava o filme – o momento em 2011 em que vi um outro filme seu Entre Nós, Dinheiro, e o quanto fui duro em minha crítica ao filme: nem que me arrependa de ser duro quando disponho no próprio texto as razões que me fizeram agir assim. Não foi o caso de arrependimento, mas uma certa sensação mista, entre alegria por ver o quanto a persistência dele rendeu em salto fenomenal na direção de qualidade superior desse novo filme, e entre uma certa inabilidade minha em notar já naquele instante que se tratava de alguém que faz um cinema raro nos dias atuais, onde a ideia central está no poder fazer o que ama,mas abdicando intencionalmente dos suportes e aportes para tal. Ele – como Dellani Lima, por exemplo -, me fizeram entender com o passar dos anos que há uma galera apaixonada pela arte, que a faz, e que abdica de tudo para concretizá-la. 

E aí, em tela, vemos o próprio Renan interpretando um desses personagens da vida, magro como ele só, como um condutor de charrete em Campos do Jordão (campo de combate ideal para ele, que luta contra o sistema que abastece e prioriza poucos), que trabalha e trabalha em busca de minguadas granas para o sustento básico. E aí notamos que ele come numa marmita, no banco de trás dela, parando quando surge um freguês, pois é da vida ter de trabalhar. Renan e seu personagem trabalham mesmo, mas são orgulhosos disso, jamais subservientes: ele intromete diversas camadas da sociedade em seu pequeno trajeto de filme, indo do militar (para quem jamais baixa a guarda, e que ao final agirá como ele intuía), ao burguês turista que pensa poder tudo (e que acaba por fazê-lo notar que há a necessidade da grana,no único momento em que cede no orgulho), para tentar um momento non-sense, com três figuras deslocadas do mundo (mas não tanto, se perceberá). O filme, nessa sua camada, é um ataque ao sistema, ao que ele não oferece, ao que ele arranca: e é concreto e certeiro quando cria a estanquidade para situar três modelos dos seres sociais. 

Mas o filme pega mesmo – na realidade pega mais, pois desde sempre está nos agarrando, desde as imagens em PB hiper bem finalizadas, às belas e variadas opções de tomadas (que vão dos planos meio “diáfanos”, à subjetiva de dentro da charrete, e também à câmera que o persegue em umas duas ou três oportunidades), aos instantes de impotência do social, e principalmente por uma tragédia em sua vida particular – quando o notamos na vida do trabalhador, na do homem/pessoa. Quando o notamos tendo de continuar, apesar de tudo que lhe infere o pior dos sofrimentos que um ser humano pode sofrer: ele jamais reclama durante a história do que a vida lhe pregou, tentando lidar de modo conformado, como se fosse do ciclo dos destinos, mas sabendo mesmo que não. 

É filme de acúmulo de sensações, ditadas desde o início sem som (que se saberá assim e tão belo no porvir), que cresce e quase nos sufoca com o decorrer, com o notar um ser que não quer sofrer porque não deveria (já que é do destino), e que destina a um final que poderia incorrer num grande equívoco fosse mais às extremidades, mas que mesmo assim arrisca no drama obtendo resultado lindo, lacrimal, chocante, com misto entre o desespero e a sensação de compreensão do companheiro de trabalho, seu cavalo (é lindo demais esse instante entre os dois, se compreendendo no sofrimento que finalmente explode). Filmes em curta-metragem raramente levam às lágrimas... Ainda mais se forem bons – por mais maluca que essa observação possa parecer. 

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

I Feira Paulista de Opinião ou I Feira Antropofágica de Opinião



EVENTO NO FACEBOOK - http://www.facebook.com/events/702348659786329/


A Antropofágica realizará – nos dias 15 e 16 de fevereiro (sábado e domingo), das 14h às 22h, no Espaço Cultural Tendal da Lapa (Zona Oeste) – a II Feira Paulista de Opinião ou I Feira Antropofágica de Opinião, em referência a I Feira Paulista de Opinião (1968), dirigida por Augusto Boal.

I Feira Paulista de Opinião (1968)

Em fins de 1968, uma Primeira Feira Paulista de Opinião foi organizada tendo como mote uma pergunta feita aos artistas envolvidos: O que pensa você do Brasil de hoje? O objetivo era apresentar as peças que, empenhadas em responder a essa questão, procurassem aprofundar a figuração crítica e o enfrentamento político do regime.

Alguns dos mais representativos dramaturgos de esquerda do período foram reunidos – Augusto Boal, Bráulio Pedroso, Gianfrancesco Guarnieri, Lauro César Muniz, Jorge Andrade e Plínio Marcos – além de compositores como Ary Toledo, Caetano Veloso, Edu Lobo, Gilberto Gil e Sérgio Ricardo.

O espetáculo foi dividido em dois atos: do primeiro faziam parte Tema, de Edu Lobo; Enquanto o Seu Lobo Não Vem, de Caetano Veloso; O Líder, de Lauro César Muniz; O Sr. Doutor, de Bráulio Pedroso; ME.E.U.U Brasil Brasileiro, de Ary Toledo; e Animália, de Gianfrancesco Guarnieri. Do segundo constavam Espiral, de Sérgio Ricardo; A Receita, de Jorge Andrade; Verde Que Te Quero Verde, de Plínio Marcos; Miserere, de Gilberto Gil; e A Lua Muito Pequena e A Caminhada Perigosa, de Augusto Boal. Dado o número de cortes sofrido pelo texto submetido à censura (setenta e um), a Primeira Feira Paulista de Opinião foi apresentada na íntegra em junho de 1968, mesmo com o veto dos censores, num ato público de resistência.

Em texto intitulado “O Que Pensa Você da Arte de Esquerda?”, escrito para o programa do espetáculo, Augusto Boal procurou mapear as tendências e perspectivas dominantes nos diferentes setores da esquerda naquele momento. O reconhecimento de diferenças servia de preâmbulo para um alerta acerca da necessidade de união estratégica de todos, fosse qual fosse a orientação estética ou política postulada.

II Feira Paulista de Opinião ou I Feira Antropofágica de Opinião (2014)

A II Feira Paulista de Opinião ou I Feira Antropofágica de Opinião propõe refletir sobre o Brasil atual unindo diversas gerações de artistas. Entre os convidados estão alguns dos participantes da Feira realizada em 1968, reforçando a importância do encontro de gerações atuantes no cenário da arte engajada.

O evento contará com a presença dos seguintes artistas:

Atores, Diretores, Dramaturgos e Poetas
Alípio Freire 
Cecília Boal
Chico de Assis
Dulce Muniz
Iná Camargo Costa
Izaías Almada
Mário Masetti 
Ney Piacentini
Renan Rovida
Rogério Bandeira
Sérgio de Carvalho
Umberto Magnani

Coletivos Teatrais
Bando Trapos
Brava Cia
Buraco D´Oráculo
Cia do Feijão
Cia dOs Inventivos
Cia Estável de Teatro
Cia Ocamorana
Cia São Jorge de Variedades
Companhia Estudo de Cena
Dolores Boca Aberta Mecatrônica de Artes
Engenho Teatral
Grupo Redimunho de Investigação Teatral
Grupo Teatral Parlendas
Kiwi Cia de Teatro
Nosso Grupo de Teatro 
Núcleo Pavanelli de Teatro de Rua e Circo
Pombas Urbanas
Teatro de Narradores
Teatro União e Olho Vivo
Trupe Olho da Rua

Cartunistas
Alan Siqueira
Novaes 

Coletivos Audiovisuais
Coletivo Cinefusão
Coletivo Zagaia

Músicos
André Bedurê e Elaine Guimarães
Danilo Monteiro e Tita Reis
Juh Vieira
Martin Eikmeier
Renato Gama
Sérgio Ricardo
Tony Giusti
Vagabundos Bundas Bandis
Wanderley Martins

As apresentações dos convidados terão como mote a resposta à mesma pergunta: “O que pensa você do Brasil de hoje?”. As cenas, intervenções, músicas e ações partirão de questionamentos políticos e estéticos imbricados na I Feira de Opinião, mas em diálogo com aspectos contemporâneos. Em artigo veiculado no programa da I Feira Paulista de Opinião, Augusto Boal propunha reflexão sobre a arte de esquerda, suas divergências e contratempos no contexto ditatorial, à época fator de impedimento e censura de apresentações. Hoje, a quantas anda a arte de esquerda? Quais são as aporias dessa arte no atual cenário brasileiro? A entrada é gratuita.

O evento integra o projeto da Cia Antropofágica "Desterrados em nossa Própria Terra", contemplado pelo Programa Municipal de Fomento ao Teatro para Cidade de São Paulo - 22ª Edição

Sinopse
O que pensa você do Brasil de hoje? A Antropofágica reúne artistas de diversas gerações para responder a esta pergunta na II Feira Paulista de Opinião ou I Feira Antropofágica de Opinião.


Local
ESPAÇO CULTURAL TENDAL DA LAPA
15/02 | Sábado | 14h às 22h
16/02 | Domingo | 14h às 22h
Gratuito | Livre
Acesso pela Rua Constança, 72 – Lapa (Travessa da Rua Guaicurus)

Ficha Técnica
Direção Geral | Thiago Reis Vasconcelos
Elenco | Antropofágica
Direção Musical | Lucas Vasconcelos
Músicos | Bruno Miotto, Bruno Mota e Danilo Agostinho
Direção de Produção | Maria Tereza Urias
Produção | Flávia Ulhôa
Artista Gráfico | Alan Siqueira
Desing Gráfico | Pablo Pamplona

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

RODA DE SAMBA - ENSAIO DO CORDÃO DA MENTIRA

RODA DE SAMBA / ENSAIO DO CORDÃO DA MENTIRA


Domingo 2/2 às 17:30. 
Primeira Roda do Cordão de 2014 
NO ECLA - Rua Abolição, 244 - Bela Vista 

Preparação para o Grande Desfile / Escracho do 1 de abril de 2014. 

TEMA: 64+50: QUANDO VAI ACABAR A DITADURA CIVIL-MILITAR?

Cinquenta anos se passaram após o golpe civil-militar de 1964.

Apesar de alguns esforços valiosos, nenhum responsável foi julgado pelos crimes cometidos. E foram muitos: torturas, extorsões, sequestros, assassinatos em massa de indígenas e camponeses, desaparecimentos perpetrados pelo Estado e pelos tentáculos econômicos do capitalismo. Brasil maravilha, dos "90 milhões em ação" na grande festa popular que é o futebol. Cinquenta anos se passaram, e pouco deste cenário antigo mudou. 2014: Ano de Copa e violência repressiva. Eis o que nos aguarda nas ruas, violadas pelas novas leis de exceção padrão FIFA.

Se for para comemorar, que seja pelos que combateram e combatem contra um passado que não cansa de se repetir. E carnavalizemos... festa que inverte os sinais.

Por isso, neste 01 de abril, o Cordão da Mentira cantará o passado e o presente que vale a pena: da teimosia dos guerreiros, dos indignados, dos irreconciliáveis. Levaremos para as ruas os sambas-luta, as alegorias da história, os estandartes dos que dizem "Não!".

Convidamos todos a participar deste rolezinho sambístico, para ocupar as ruas com a batucada da nossa 2a abolição. Neste dia primeiro de abril, façamos um encontro de nossas revoltas contra uma ditadura que permanece. Tragam para as ruas os símbolos de sua contestação. Anistia aos torturadores? Homenagem aos carrascos? Militarização das instituições democráticas? Mídia carniceira e golpista? Educação pra ler e calcular sem contestar a realidade? Saúde para mortos-vivos? Desenvolvimento consumista sem vida? Extermínio dos povos indígenas? Assassínio racista e encarceramento em massa da juventude periférica? NUNCA MAIS! Mostremos que quem resiste, vive!

É por essas razões que teimaremos em levar para todos os espaços as canções de nosso Cordão e com o nosso canto ocupar as ruas. 

As ruas são pra lutar e quem não luta dança!



terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Filme Elegias de Maio é exibido na Fábrica Ocupada Flaskô

O longa-metragem "Elegias de Maio", dirigido por Danilo J. Santos terá uma importante e simbólica exibição na Fábrica Ocupada Flaskô, local  onde parte de suas cenas foram filmadas. O filme é resultado da parceria com diversos grupos de teatro de São Paulo e com o Coletivo Cinefusão, que também participou de fases do projeto. A exibição será amanhã, dia 15 de janeiro, a partir das 19h30. A entrada é gratuita. Abaixo a programação mensal da Flaskô.