O Coletivo Cinefusão surge, no final de 2008, a partir da iniciativa de trabalhadores de diversas áreas - cinema, jornalismo, publicidade, artes cênicas, filosofia, arquitetura, fotografia -, empenhados em criar primeiramente uma rede colaborativa que pudesse dar conta da junção dessas linguagens e também da possibilidade de abarcar potencialidades em busca de produção artística independente, mas também de reflexões concretas acerca da sociedade. É principalmente sobre este último pilar de atuação política, que o grupo vem, atualmente, pensando o cinema, sempre vinculado a outras expressões artísticas e movimentos sociais.

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segunda-feira, 23 de agosto de 2010

CURTA KINOFORUM - Imagem Esvaziada

Sem dúvida, o curta “Cinema” traz belas imagens que, corte após corte, suscitam significados intensos sobre a condição humana. No entanto, ao final da projeção, fica a impressão de que a insistente busca pela afirmação da imagem em si tenha se esvaziado. Mas, ao mesmo tempo, sentimos que o diretor Eder Santos Jr. queria justamente trazer esse vazio que flutua no interior de Minas Gerais e no próprio cinema. Confesso que tive que me distanciar do filme para trazer algum sentido à tona e passar a compreender a sua proposta de reinvenção estética. Não conhecia a obra do cineasta mineiro, mas, num primeiro momento, tive a sensação de que o filme poderia ser bem mais curto, mas talvez isso invalidaria a abordagem do tempo como próprio epicentro do curta.

Há uma melancolia nas tomadas de Eder e também uma nostalgia antecipada, pois vemos cada imagem, com a constatação de que ela pode sumir a qualquer momento, por mais que, em alguns momentos, ela permaneça na tela por tempo suficiente para refletirmos inclusive sobre o porquê de tanto tempo, como é o caso da imagem de um poste de luz. Passamos a buscar significados diversos para o tal poste, mas como não podemos ter a precisão semântica, esvaziamos o sentido e nos abrimos para a pura e sublime contemplação.

“Cinema” também propõe, através de constantes manipulações imagéticas, uma reflexão acerca das mudanças que a tecnologia trouxe à sétima arte. Assim, sobreposições, fusões, desfoques, grafismos, fades e outros dispositivos se repetem para nos questionar o que é cinema hoje em dia. Volto a minha sensação inicial de que as imagens se esvaziaram. Por mais que entenda alguma das intenções do curta, subjetivamente não foi um filme que me trouxe grandes sensações e me parece que a técnica acaba, de vez em quando, se sobressaindo, em detrimento do objeto cinematográfico. Talvez, as interferências nas imagens não tenham me cativado, mesmo tendo consciência de estarmos diante de um belo investigar cinematográfico.

domingo, 22 de agosto de 2010

CURTA KINOFORUM - Épico ferroviário

Dividido em estrutura épica, “Magnífica Desolação” nos impõe a presença da máquina, tal como é imposta ao maquinista, de forma brutal. O contato do espectador com essa máquina ferroviária se dá através de elementos cinematográficos que buscam a subjetividade, tais como a intensidade sonora exacerbada e enquadramentos que reproduzem aquilo que poderia estar observando e escutando o personagem. Após imergir o espectador nessa jornada grandiosa, o curta avança permeado pela voz off de um maquinista que acentua o tom melancólico da solidão aterradora que o personagem enfrenta. Aqui, já entendemos a magnífica desolação que o título antecipa, pois estamos, sem dúvida, diante de uma experiência paradoxal, que tem a sua beleza justamente no seu triste vazio. 

É em meio a esse cenário que sentimos o alívio passageiro que o maquinista sente ao parar em um bar, tomar cerveja, jogar sinuca e conversar com eternos desconhecidos. Sentimos o alívio épico, mas com a triste sensação de que aquilo é efêmero, como próprio ser humano. Este que Fernando Coimbra quer colocar em contato intrínseco com aquilo que ele mesmo criou: a brutal beleza da máquina. Há um amargo espírito de desbravamento da natureza. Assim, vemos lindas imagens de paisagens que são cinematograficamente atravessadas por cortes bruscos para imagens barulhentas do trem em movimento. Entendemos a crueldade de uma dialética impossível de ser harmoniosa: natureza e maquina estão em oposição.

Da mesma forma, Coimbra se aproveita da linguagem do cinema para tratar de algo que lhe é própria: o tempo, que no caso do maquinista parece estancado, em contraste com o tempo da máquina que é outro, frenético. O penúltimo capítulo é de uma tristeza ansiosa, daquele ser solitário que insiste em voltar, mas parece nunca chegar. A voz off seca e amarga já nos atravessa de uma forma incômoda, pois, agora sim, sentimos a dureza dessa jornada. A tensão da volta reflete uma câmera inquieta e nervosa, que parece buscar uma estabilidade na paisagem deslumbrante que ela atravessa. Estamos saturados emocionalmente de uma viagem sem volta. Chegou a hora de nos distanciar, buscar entender aquela experiência de uma forma objetiva. É aí que o diretor Fernando Coimbra nos apresenta um belo epílogo, em que o alívio se dá por uma visão romântica das viagens ferroviárias. Vemos recriado aqui um famoso diálogo entre uma garota e um maquinista, eternizado no também magnífico e desolador “A Besta Humana”, de Jean Renoir.


PS: A expressão “magnífica desolação” ficou famosa ao ser usada pelo astronauta americano Buzz Aldrin para resumir o momento em que pisou na lua.

CINEFUSÃO ACOMPANHA 21º FESTIVAL INTERNACIONAL DE CURTAS DE SÃO PAULO

De 19 a 27 de agosto, o Cinefusão acompanhará o 21º Festival Internacional de Curtas de São Paulo., em parceria com o projeto "Crítica Curta". Ocasionalmente, postaremos aqui nossas impressões sobre alguns curtas, sendo que abrimos o diálogo com o realizador que terá espaço para postar e comentar o seu filme. Por entender a crítica não como uma avaliação para o público, mas sim como um espaço de reflexão e troca entre realizadores, tentaremos sempre enviar os textos por email aos diretores dos curtas, ampliando a discussão. Vale a pena conferir o belo documentário "Crítico", dirigido pelo crítico/realizador Kleber Mendonça Filho. Não há como separar o ver do fazer.

 
 A crítica como forma de reelaboração do olhar

Durante festival, serão apresentados 400 filmes, em dez salas da cidade, todas com sessões gratuitas. A programação pode ser consultada no site www.kinoforum.org.br